24/12/2020 às 09h14min - Atualizada em 18/04/2021 às 00h00min

Turismo de café se profissionaliza, ganha espaço e reúne fãs da bebida

Modalidade passa por processo de "vinificação" e vai ganhando adeptos mundo afora

SALA DA NOTÍCIA Rinaldo Finkler
Cafezal em Santa Rita do Sapucaí, MG


Quem bebe uma boa xícara de café geralmente não sabe o quão complexo é o caminho do cafezal à extração da bebida. A terra exige manejo e a colheita, delicadeza. Depois, os frutos passam por processos de secagem, lavagem, despolpe e, muitas vezes, até mesmo por fermentação. Passado o beneficiamento, o grão ainda requer um mestre de torra que saiba valorizar as melhores características daquele terroir. Ao final, o barista deve conhecer as técnicas adequadas de extração da bebida. Se alguém erra em qualquer ponto dessa cadeia, todo o trabalho feito se desvaloriza. E o cliente nem fica sabendo.

Para aproximar o consumidor final deste processo, cafeicultores brasileiros estão se espelhando no já consolidado turismo de vinícolas e adaptando os roteiros: em vez de finalizar a visita com um jantar regado a vinhos finíssimos, fazem um belo lanche da tarde com os melhores e mais frescos cafés especiais que o local oferece. O público que mais busca essa modalidade é o de turistas com idades que geralmente variam de 20 a 50 anos.

As regiões produtoras brasileiras estão repletas de tours interessantes. Não é raro encontrar americanos e europeus, além de muitos turistas brasileiros, em experiências imersivas nas fazendas da Serra da Mantiqueira, que possui 60% de sua extensão no Sul de Minas Gerais. Outros tours exploram também cafeterias e torrefações, como é o caso da mineira Santa Rita do Sapucaí, que além de inúmeras fazendas que oferecem passeios, possui mais de uma dezena de cafeterias que formam um circuito e possibilitam que o visitante se aprofunde também nas formas de extração e na análise sensorial da bebida, além de serem ambientes aconchegantes para lazer e interação.

Independentemente se de maior ou menor duração, os roteiros turísticos do café nas fazendas tendem a seguir uma mesma lógica: depois de apresentar os cafés da região, os organizadores dos tours falam das histórias das famílias produtoras e partem para o cafezal. Durante o trajeto, os visitantes aprendem sobre o ciclo da planta, colhem café (quando a época permite) e visitam as estações de beneficiamento. Por fim, são apresentados à torra e aos diferentes métodos de extração.

O exemplo de Pedro e Paula Dias, em Santa Rita do Sapucaí, é um dos poucos que vão além. Depois de décadas nos Estados Unidos, o casal retornou ao Brasil para assumir a propriedade do Sr. Joel Dias, avô de Pedro, homenageado no nome da marca criada por eles, a Grandpa Joel’s Coffee - hoje reconhecida internacionalmente. O Grandpa Joel’s Coffee Tour possibilita ao turista conhecer não só as etapas tradicionais, mas também degustação e análise sensorial em sua cafeteria própria - que além da matriz na cidade sul mineira conta com filial em Santos, no litoral paulista - e a produção da sua cadeia de derivados, como mel de flor de café, cáscara (casca do café desidratada, utilizada para chás), licores e cerveja de café, além de um tour focado no peculiar e valiosíssimo Jacu Bird Coffee. 

O tour do Jacu Bird Coffee, variedade resultante da digestão do pássaro tão comum na região, é um dos mais cobiçados pelos turistas. Seu processo de produção é inusitado. As aves silvestres se alimentam dos frutos mais maduros do cafeeiro, o grão cereja. Durante o processo digestivo, o fruto só é despolpado, sem sofrer muita agressão dos ácidos estomacais da ave. O excremento é eliminado logo após a ingestão e fica acumulado próximo aos pés de café que serviram à alimentação dos jacus. Suas fezes são então recolhidas e levadas para o terreiro suspenso, onde secam e os grãos podem ser separados do excremento e de outras sementes para depois serem lavados e armazenados até serem comercializados. No passeio, o visitante pode observar, durante a noite, o pássaro em busca dos grãos, e no dia seguinte, a colheita das fezes com os caríssimos grãos, que são vendidos, em geral, por até R$860,00 o quilo. O tour do Jacu Bird Coffee também é oferecido pela fazenda Casa Baldoni, localizada em Santa Rita do Sapucaí, na divisa com o município de São José do Alegre. 

Também no Sul de Minas, a pouco mais de 100 km de Santa Rita do Sapucaí, fica o mais tradicional dos destinos de café no país: Carmo de Minas. O principal concurso de cafés do planeta, o Cup of Excellence, deu a maior nota do mundo para um café produzido na cidade, 95,85, o recorde mundial de complexidade em bebida. Desde 2005, ninguém conseguiu superar a nota. 

Hoje, é possível ver a lavoura campeã preservada há mais de 100 anos do alto de um mirante, um dos pontos de parada do roteiro. Em cada uma das paradas, os guias contam sobre como a região conhecida como Mantiqueira de Minas se tornou uma das principais referências do café especial. 

Um dos pontos altos do passeio é a visita à sede da Fazenda Sertão. No local, cada cômodo deu espaço a um acervo familiar que conta a história do grão. Fotos de família, artigos e objetos antigos e máquinas usadas em outros tempos são detalhes que levam o visitante a uma imersão na história do café especial. Juntos, os municípios sul mineiros compõem uma das rotas mais procuradas pelos visitantes nacionais e internacionais. 

Outro estado que vem se destacando nos roteiros de café é o Ceará. A Rota Verde do Café, a 100 quilômetros da capital Fortaleza, une dezenas de pequenos municípios. O roteiro foi construído pelos cafeicultores da região da Serra do Baturité, que é uma área de proteção ambiental de mais de 32 600 hectares. Nessa região se encontram cafés que são cultivados literalmente à sombra das árvores e matas, totalmente protegidos dos raios solares. O resultado é um solo mais fortalecido de nutrientes, adubado com as palhas do grão, que dá origem a uma bebida pura, 100% arábica.

Para completar, toda a colheita é feita por pequenos agricultores de forma artesanal. Ou seja, de uma vez só, os visitantes experimentam um dos melhores cafés do país, apreciam uma área totalmente preservada no Nordeste brasileiro e contribuem para o desenvolvimento de toda uma região.
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