04/06/2020 às 18h37min - Atualizada em 04/06/2020 às 14h57min

Duas 'tragédias' do futebol e a narrativa da Covid-19

Crônica escrita por Rian Fernandes. Não representa a opinião do portal Araraquara Agora

Já imaginou se as 'tragédias' do futebol fossem contadas de uma maneira positiva? Seriam diferentes e relevantes mudanças nas narrativas de cada acontecimento, retirando a evidência dos fatos ruins que devem ser destaque. O mesmo ocorre com os recuperados da Covid-19, já que sem a doença, os curados continuariam, da mesma maneira, com vida, diferentemente dos que se foram por conta do vírus.

Os apaixonados pelo futebol brasileiro, em especial, pela Amarelinha, certamente se lembram do apavorante 7x1 sofrido contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Após a partida, a repercussão não foi apenas no Brasil, mas sim em âmbito mundial, salientando o mal futebol apresentado pela equipe em campo. No entanto, pela perspectiva em que se encontram as críticas contra narrativas abordadas em relação ao coronavírus atualmente, o Brasil daquela partida seria elogiado.

O jogo contra os alemães seria debatido, não somente entre a mídia, mas também entre o próprio povo brasileiro, pelo “importante” gol feito no confronto, no caso, o único contra os sete sofridos. Sim, não teriam choros dos torcedores nas arquibancadas do Mineirão, estádio que também ficou marcado por ter sido o palco do fiasco. Quer dizer, no caso da análise, o palco da felicidade.

A 'tragédia nacional', dentro do futebol brasileiro, não teria as imagens de David Luiz, com lágrimas no rosto após a partida, lamentando a triste derrota. Na verdade, as cenas mostradas ficariam em torno daquelas de antes do jogo, em que atletas, junto da torcida, tinham esperança na vitória, que levaria a Seleção para a final da competição. Ou o gol, por exemplo, seria motivo de comemoração.

Mais impactante ainda, foi o triste desastre envolvendo a Chapecoense, com a queda de um avião. Porém, se fosse transformar todo o acontecimento em algo bom e positivo, os sobreviventes seriam destaque e aqueles que se foram, que deram a vida pelo futebol, não seriam nem ao menos, citados. O velório, merecido em homenagem às vítimas que sonharam com a final que seria disputada, não teria ocorrido. O evento, que foi triste e chocante, seria para celebrar, mesmo em um período de luto.

Todos os fatos mencionados possuem uma relação narrativa com a atual pandemia do coronavírus, mesmo que em diferentes áreas, sendo o esporte e a saúde. Diante da propagação de um vírus que mata pessoas, a repercussão não pode ser por aqueles que se recuperaram, pois eles são considerados “curados”, justamente, pela existência de uma doença que mata pessoas. Quem venceu a Covid-19, continua e continuaria vivo sem a contaminação. No entanto, aqueles que morreram, se foram sem se despedir.

Assim como o desastre é destaque no esporte, ela também é na área da saúde. Uma festa não pode acontecer para comemorar um fato enquanto o pior acontece, como no 7x1 que continuará marcado pelo fracasso ou como na tragédia da Chapecoense.

Perante a pandemia, curados existem e viverão o dia seguinte, no entanto, as mortes, viram números e as pessoas passam a frequentar apenas as memórias. Uma tragédia com falecimentos que representam pai e mãe, filho e filha, enfim, sentimentos em luto.


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