Pular para o conteúdo
Quinta-feira, 08 de outubro de 2026
Araraquara Agora
Publicidade

Se aconteceu AGORA, é notícia aqui!

PublicidadeGrupo de WhatsApp do portal
Publicidade
MRV — Residencial Flora (2)
Publicidade

E ARARAQUARA?

'O Brasil empurrou a gente para o Paraguai', diz CEO da Lupo

Com investimento de R$ 30 milhões, empresa centenária expande operação para Ciudad del Este em busca de vantagens fiscais e trabalhistas

Por Willian Oliveira, com informações da Folha de São Paulo|· 10 min de leitura
'O Brasil empurrou a gente para o Paraguai', diz CEO da Lupo
CEO da Lupo fez duras críticas ao sistema tributário brasileiro. Foto: Divulgação

 

A inauguração da primeira fábrica da Lupo fora do Brasil, em junho deste ano, na cidade paraguaia de Ciudad del Este, trouxe não apenas um marco histórico para a empresa centenária de Araraquara, mas também acendeu um sinal de alerta em Araraquara. A unidade no país vizinho, que recebeu investimentos de R$ 30 milhões e emprega cerca de 110 pessoas, representa uma preocupação crescente entre trabalhadores e autoridades municipais sobre o futuro da indústria têxtil na "Morada do Sol".

Em entrevista à Folha de São Paulo, a presidente da Lupo, Liliana Aufiero, de 80 anos, foi enfática ao explicar os motivos que levaram a companhia a buscar alternativas além das fronteiras nacionais.

"Não é que a Lupo foi para o Paraguai, o Brasil empurrou a gente para o Paraguai", declarou à Folha.

Segundo ela, a mudança na lei 14.789/2023, que alterou as regras de tributação de incentivos fiscais para investimentos concedidos por estados no ICMS, impactou diretamente a lucratividade da empresa.

A executiva, neta do imigrante italiano Henrique Lupo, que fundou a companhia em 1921, não poupou críticas ao sistema tributário brasileiro.

"Os impostos estão comendo a operação de forma violenta", afirmou Liliana à Folha de São Paulo, ao destacar que os custos na nova planta paraguaia são pelo menos 28% menores do que no Brasil.

Além das questões fiscais, a presidente da Lupo apontou outro fator determinante para a expansão internacional: a concorrência desleal. Uma fábrica de meias instalada no Paraguai por um empresário chinês é hoje o principal concorrente da companhia. "Se ele consegue vender no Brasil sem investir em marca, e oferecer um bom produto a um custo menor, eu tenho que ter as mesmas vantagens", justificou à publicação.

Leia Também

Vantagens trabalhistas atraem indústrias brasileiras

Pesquisas recentes demonstram que o Paraguai oferece não apenas benefícios fiscais, mas também uma legislação trabalhista significativamente mais flexível e menos onerosa para as empresas. De acordo com dados do Banco Mundial, os encargos sociais paraguaios são aproximadamente 30% mais baixos que os brasileiros, já que não há cobrança de FGTS nem de contribuição sindical obrigatória.

A jornada de trabalho no país vizinho também é mais extensa, totalizando 48 horas semanais, quatro horas a mais que a legislação brasileira. Outro diferencial está no sistema de férias: enquanto no Brasil os trabalhadores têm direito a 30 dias de descanso remunerado desde o primeiro ano de trabalho, no Paraguai esse período varia conforme o tempo de empresa. Do primeiro ao quinto ano, são apenas 12 dias úteis de férias; de seis a dez anos, 18 dias; e somente após a primeira década no mesmo emprego o trabalhador paraguaio alcança os 30 dias de descanso.

Especialistas em comércio exterior apontam que a Lei de Maquila paraguaia, que estabelece um imposto de apenas 1% sobre o valor agregado para exportação, tem sido determinante para atrair centenas de empresas brasileiras. A energia elétrica, cerca de 50% mais barata que no Brasil, e o custo da mão de obra, aproximadamente 40% inferior, completam o conjunto de vantagens que têm provocado um êxodo industrial silencioso, mas impactante.

Araraquara teme perda de postos de trabalho

A decisão estratégica da Lupo de expandir para o exterior causa apreensão legítima em Araraquara, cidade que abriga a sede da empresa e onde a companhia representa um dos pilares econômicos mais importantes. Segundo dados atualizados, a Lupo ocupa uma área de 90 mil metros quadrados na cidade e emprega aproximadamente 5 mil pessoas da região apenas na unidade araraquarense.

No contexto da economia municipal, que conta com 81,9 mil empregos formais, a Lupo representa uma parcela significativa da força de trabalho local. A ocupação predominante em Araraquara é a de alimentador de linha de produção, com 4.892 trabalhadores, justamente o tipo de função que as fábricas têxteis oferecem em grande quantidade.

O receio dos araraquarenses não é infundado. Com a nova fábrica paraguaia tendo capacidade para produzir até 20 milhões de pares de meias por ano, existe a preocupação de que, gradativamente, parte da produção seja transferida da matriz brasileira para a unidade internacional, resultando em redução de postos de trabalho na cidade paulista. Moradores e sindicalistas observam com atenção cada movimento da empresa, temendo que o investimento no Paraguai seja apenas o primeiro passo de uma migração maior.

História de resistência e superação

A trajetória da Lupo é marcada por momentos críticos de superação. Em dezembro de 1993, a fabricante de meias estava à beira da falência, com o caixa zerado e o Bradesco, maior credor à época, chegando a indicar a rival Trifil como potencial compradora. Liliana Aufiero contou à Folha que não se conformava com a situação e convenceu a família a esperar mais um ano antes de decidir pela venda.

Foi quando um político local, ex-colega de faculdade de Liliana, sugeriu que a empresa deixasse de pagar impostos temporariamente. "Eu fiquei chocada", revelou à Folha. "Até então, tudo era pago rigorosamente em dia".

Porém, diante da ausência de alternativas, as obrigações com o governo pararam de ser pagas. Com a criação do Refis (Programa de Recuperação Fiscal) em 2000, a companhia aderiu ao programa e saldou todas as dívidas em três anos.

Hoje, passadas mais de três décadas daquele momento difícil, os impostos voltaram a estar no centro das estratégias empresariais, mas de maneira completamente diferente. A busca não é mais pela sobrevivência imediata, mas pela competitividade em um mercado globalizado e cada vez mais acirrado.

Expansão estratégica pelo Nordeste

Antes mesmo de olhar para fora do país, a Lupo já buscava alternativas para reduzir custos operacionais dentro do Brasil. A direção da empresa para o Nordeste aconteceu em 2016, com a aquisição do grupo Scalina, proprietário das marcas Trifil e Scala – ironicamente, as mesmas empresas que tentaram comprar a Lupo durante a crise de 1993.

Liliana guarda uma lembrança peculiar desse momento histórico. Conforme relatou à Folha de São Paulo, os irmãos donos da Trifil, Bruno e Ronaldo Heilberg, visitaram a fábrica em Araraquara em um dia de calor intenso. Durante a visita, pararam na lanchonete do clube dos funcionários para tomar água e refrigerante. Na saída, Liliana disse ao atendente que acertaria depois, pois não tinha saído com dinheiro. Ele se recusou, alegando que não podia ficar sem receber. "Os irmãos acabaram pagando a conta", relatou à publicação, acrescentando entre risos: "Achei aquilo uma vergonança".

O grupo Scalina possuía fábricas em Itabuna (BA) e Guarulhos (SP). A Lupo fechou a unidade paulista e concentrou a produção na Bahia. Em 2022, a empresa adquiriu a fábrica da Marisol em Pacatuba, na Grande Fortaleza. No ano seguinte, comprou a malharia Cotece, em Maracanaú (CE). Essas aquisições foram motivadas pela busca de incentivos fiscais regionais e pela disponibilidade de mão de obra para tecelagem no Nordeste.

Aposta na moda esportiva

Apesar das preocupações com custos e tributação, a Lupo mantém investimentos robustos em inovação e expansão de portfólio. A executiva de 80 anos demonstra entusiasmo especial pela Lupo Sports, linha de vestuário esportivo que representa uma aposta de crescimento para os próximos anos.

Lançada em 2011, a Lupo Sports já representa cerca de 22% das vendas totais da empresa. A marca registrou crescimento de 28% no primeiro semestre deste ano, enquanto a marca tradicional Lupo apresentou elevação de apenas 2%. O desempenho reflete uma tendência global de consumo que vem transformando o mercado têxtil.

Dados da consultoria Euromonitor International revelam que, no Brasil, o consumo de vestuário ligado ao universo esportivo avançou 54,5% entre 2020 e 2025, devendo encerrar o ano corrente em R$ 15,3 bilhões. A venda de calçados esportivos foi ainda mais expressiva, disparando 83% para alcançar R$ 21,5 bilhões em 2025.

Como parte dessa estratégia, a Lupo lançou este mês seu primeiro tênis próprio, o modelo Origem. O calçado casual, fabricado por terceiros, chegou a cem lojas da rede ao preço de R$ 359. Há um ano, a empresa já distribuía nas lojas da Lupo Sports os tênis de corrida da marca americana Saucony.

Sucessão em família centenária

Primeira engenheira civil formada pela USP (Universidade de São Paulo) de São Carlos em 1967, Liliana Aufiero foi professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e atuou em escritórios de engenharia em São Paulo antes de assumir a direção da Lupo. Em 1986, ela recebeu o telefonema do primo Ricardo, que desejava deixar a empresa após a morte do pai e pediu para que ela assumisse seu lugar como diretora comercial.

"Eu estava casada, com filho, trabalhando como engenheira, e tinha salário de homem", brincou à Folha de São Paulo. Liliana tornou-se a primeira mulher da família a assumir um cargo executivo, ao lado do presidente, seu tio Élvio, e do filho dele, Élvio Lupo Júnior, diretor industrial. "Sempre quis trabalhar na Lupo. Mas nunca fui convidada, o acesso à empresa sempre foi cerceado", revelou à publicação.

De acordo com Liliana, Henrique Lupo, fundador da empresa que deixou dez filhos, determinou que a família, a partir da terceira geração, não trabalhasse na companhia. Ele temia que brigas familiares pudessem comprometer o futuro do negócio. Atualmente, são cerca de 70 acionistas, sendo Liliana a única com função executiva. Ela se tornou presidente em 1999, após a morte do tio, cujo filho já havia deixado a Lupo.

A última Lupo no poder já escolheu seu sucessor: o vice-presidente da empresa e diretor de relações com investidores Carlos Alberto Mazzeu, profissional com mais de 40 anos de casa que começou carregando caixas no depósito. "Tenho paixão pela empresa", declarou ele à Folha. Mas Mazzeu terá de esperar, pois Liliana não tem pressa em deixar o comando. "Se eu me aposentar, será o dia da minha morte", afirmou à publicação.

Cenário desafiador para a indústria nacional

O movimento da Lupo reflete um fenômeno mais amplo que tem afetado a indústria brasileira. Especialistas apontam que a complexidade tributária do país, com mais de 90 tributos diferentes, a elevada carga de encargos trabalhistas e a burocracia excessiva têm empurrado empresas de diversos setores para países vizinhos com legislações mais simples e custos operacionais reduzidos.

O Paraguai tem se posicionado estrategicamente para capturar esse movimento migratório. Segundo levantamento da Rediex (Rede de Investimentos e Exportações do Paraguai), o regime de Maquila atraiu mais de 250 empresas estrangeiras desde sua implementação, sendo que uma parcela significativa é composta por empresas brasileiras, especialmente dos setores de confecção, manufatura, calçados e metalurgia.

Para Araraquara, cidade que já foi palco de glórias industriais e que hoje busca diversificar sua economia com empresas de tecnologia e serviços, a situação da Lupo serve como um termômetro das dificuldades enfrentadas pelo setor produtivo nacional. A comunidade local observa com atenção os próximos passos da empresa centenária, na esperança de que a tradição e o compromisso com a cidade onde nasceu sejam preservados.

Hoje, a Lupo é líder nacional na venda de meias e cuecas, uma das maiores fabricantes de moda íntima do país e domina o mercado de meia-calça com as marcas Lupo, Trifil e Scala. A companhia conta com 911 franquias e 9 lojas próprias espalhadas por todos os estados brasileiros, além de uma unidade em Portugal. São 5 fábricas operacionais (Araraquara-SP, Itabuna-BA, Maracanaú-CE, Pacatuba-CE e Ciudad del Este-Paraguai) e 3 centros de distribuição.

Com faturamento de R$ 1,85 bilhão em 2024 e uma força de trabalho de aproximadamente 9 mil funcionários em todas as unidades, a Lupo representa não apenas um case de sucesso empresarial, mas também um símbolo da capacidade de adaptação e superação. No entanto, o desafio atual transcende a esfera corporativa e toca em questões mais amplas sobre o futuro da indústria brasileira e a manutenção de empregos em cidades do interior que dependem fortemente de grandes empregadores.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/11/o-brasil-empurrou-a-gente-para-o-paraguai-diz-a-ultima-ceo-da-familia-lupo-no-poder.shtml

CompartilheWhatsAppFacebookXTelegramE-mail

Leia também

Comentários

O comentário passa por aprovação antes de aparecer. Guardamos apenas o nome e o texto que você escrever.

Publicidade
MRV — Residencial Flora