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RISCO DE FUGA

Jair Bolsonaro é preso preventivamente pela Polícia Federal

Ministro Alexandre de Moraes determinou prisão preventiva após senador Flávio Bolsonaro convocar manifestação em frente à residência do ex-presidente

Geisa Ferreira da Silva|· 7 min de leitura
Jair Bolsonaro é preso preventivamente pela Polícia Federal

A Polícia Federal executou na manhã deste sábado (22) um mandado de prisão preventiva contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, em cumprimento a determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A operação aconteceu por volta das 6h no Condomínio Solar de Brasília, no Jardim Botânico, onde o político cumpria regime domiciliar desde agosto.

A medida judicial representa um novo capítulo na trajetória do ex-mandatário, que aguarda julgamento definitivo de sua condenação a 27 anos e 3 meses de prisão pela participação em uma suposta tentativa de golpe de Estado.

O comboio policial que transportou Bolsonaro chegou à Superintendência Regional da Polícia Federal no Distrito Federal às 6h35, onde ele permanecerá detido.

A decisão judicial que ordenou a detenção foi motivada pela necessidade de garantir a ordem pública. A determinação ocorreu após o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, ter convocado apoiadores para uma vigília em frente ao condomínio onde mora o pai, na noite anterior.

Segundo a decisão, o sistema de monitoramento da tornozeleira eletrônica usada por Bolsonaro apresentou comportamento anormal por volta de 00h08 da madrugada deste sábado (22). Isso poderia representar uma tentativa de romper o equipamento.

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Detenção acontece em instalação especial da PF

O ex-presidente está acomodado em uma Sala de Estado, espaço reservado pela Polícia Federal para autoridades de alto escalão, como presidentes da República e outras figuras públicas de destaque. Este tipo de instalação oferece condições diferenciadas de custódia, sem contato com detentos comuns.

Outros ex-mandatários brasileiros, como Luiz Inácio Lula da Silva e Michel Temer, já foram mantidos em salas similares da corporação em ocasiões anteriores, devido à prerrogativa vinculada ao cargo presidencial já exercido.

Funcionários do Instituto Médico-Legal foram enviados à superintendência para realizar os exames de corpo de delito, procedimento padrão nestes casos. A estratégia tinha também como objetivo evitar exposição desnecessária de Jair Bolsonaro durante o traslado.

Contexto da medida cautelar

A prisão preventiva se caracteriza como uma medida cautelar sem prazo fixo determinado, sujeita a reavaliações periódicas pelo Poder Judiciário. Diferentemente de uma prisão por condenação transitada em julgado, ela serve para garantir o andamento das investigações ou evitar que o réu obstrua a Justiça.

Em nota oficial, a Polícia Federal confirmou apenas que cumpriu mandado expedido por decisão do Supremo Tribunal Federal. A corporação não detalhou os fundamentos específicos que motivaram a ordem judicial.

A defesa do ex-presidente informou que, até às 6h40, ainda não havia sido oficialmente notificada sobre a prisão do seu cliente, situação que gerou questionamentos sobre o procedimento adotado.

Histórico recente de restrições judiciais

Bolsonaro estava em regime domiciliar desde 4 de agosto, quando o ministro Alexandre de Moraes converteu medidas cautelares anteriores em prisão domiciliar. A decisão de agosto foi motivada pelo descumprimento de restrições impostas, como a proibição de usar redes sociais próprias ou de terceiros.

Na ocasião, Moraes afirmou que o ex-presidente utilizou as redes sociais de aliados — incluindo seus três filhos parlamentares — para disseminar mensagens com conteúdo de incentivo a ataques contra o Supremo Tribunal Federal e apoio à intervenção estrangeira no Judiciário brasileiro.

O político de 70 anos havia circulado livremente pela capital federal no início de agosto, frequentando estabelecimentos como padarias e barbearias, antes da imposição do confinamento domiciliar.

Condenação por tentativa de golpe aguarda trânsito em julgado

Em setembro deste ano, a Primeira Turma do STF condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado, além de 124 dias-multa no valor de dois salários mínimos cada. A decisão considerou o ex-presidente culpado pelos crimes de organização criminosa, golpe de Estado, abolição do Estado Democrático de Direito, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

O ministro Alexandre de Moraes dedicou cinco horas ao voto e apontou Bolsonaro como líder de uma organização criminosa que teria planejado um golpe de Estado, utilizando a máquina pública e apoio de militares para atacar o Judiciário e desacreditar o sistema eleitoral.

A condenação ainda não transitou em julgado, o que significa que recursos ainda podem ser apresentados. No Brasil, penas somente podem ser executadas após o esgotamento de todas as possibilidades recursais.

Defesa solicitou manutenção da prisão domiciliar

Na sexta-feira (21), um dia antes da prisão preventiva, os advogados de Bolsonaro protocolaram pedido ao ministro Alexandre de Moraes solicitando que o regime inicial fechado fosse substituído por prisão domiciliar humanitária.

No documento, a defesa alegou que o ex-presidente apresenta "quadro clínico grave" e sofre de "múltiplas comorbidades". Os advogados argumentaram que uma eventual transferência para o sistema prisional convencional representaria "risco concreto à vida" do seu cliente.

A equipe jurídica informou que pretende recorrer da condenação, mas havia solicitado adoção urgente da medida para que Bolsonaro permanecesse em casa durante a tramitação dos recursos.

Caso Ramagem e preocupação com fugas

A prisão preventiva de Bolsonaro ocorre dias após o STF decretar a detenção de outro condenado na trama golpista, o deputado federal Alexandre Ramagem, que teria deixado o país ilegalmente apesar da proibição judicial.

Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, foi condenado a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão e não poderia ter saído do Brasil. Investigações indicam que ele viajou para os Estados Unidos através da fronteira com Roraima.

O caso do deputado pode ter influenciado a decisão de endurecer as medidas contra Bolsonaro, demonstrando preocupação do Judiciário com eventual descumprimento de ordens judiciais ou tentativas de evasão por parte dos condenados.

Outros réus também foram condenados

Além de Bolsonaro, outros seis réus foram condenados no processo que investiga a suposta tentativa de golpe. Entre eles estão figuras de destaque do governo anterior, como Walter Braga Netto (ex-ministro e candidato a vice-presidente), Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional) e Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa).

As penas variam entre 16 e 27 anos de prisão. O único que não recorreu foi Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, que iniciou o cumprimento da pena e teve a tornozeleira eletrônica retirada após colaborar com as investigações.

Investigações apontaram plano elaborado

As apurações avançaram com a delação do tenente-coronel Mauro Cid, que relatou reuniões do presidente com ministros, embaixadores e chefes militares antes das eleições, nas quais o então mandatário questionava a credibilidade das urnas eletrônicas.

As investigações identificaram a elaboração de uma minuta golpista e do chamado "Plano Punhal Verde-Amarelo", que supostamente previa assassinatos de autoridades eleitas. Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o STF, destruindo obras, estruturas e peças históricas.

O ex-presidente estava nos Estados Unidos quando os ataques ocorreram, mas já estava sendo investigado pela Polícia Federal como possível mentor do plano golpista.

Consequências políticas da condenação

Com a condenação no STF, o prazo de inelegibilidade de Bolsonaro foi ampliado drasticamente. Ele já estava impedido de disputar eleições até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, mas agora só poderia voltar a concorrer em 2060, após o cumprimento integral da pena.

Na prática, o político ficará afastado da disputa eleitoral por mais de três décadas, encerrando efetivamente sua carreira política institucional.

Próximos passos no processo

A prisão preventiva deverá ser reavaliada periodicamente pelo ministro Alexandre de Moraes, que poderá mantê-la, revogá-la ou modificar suas condições conforme o andamento do processo.

A defesa tem a possibilidade de apresentar habeas corpus ou outros recursos para questionar a medida cautelar. Enquanto isso, os recursos contra a condenação seguem seu trâmite nas instâncias superiores.

O caso continua mobilizando a atenção nacional e internacional, representando um marco inédito na história política brasileira: a primeira vez que um ex-presidente é condenado por tentativa de golpe de Estado no país.

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