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PREOCUPAÇÃO

Quantos empregos Araraquara pode perder com a Lupo no Paraguai?

Expansão da empresa ao país vizinho reforça estratégia em reduzir custos e buscar maior competitividade no mercado têxtil

Direto da Redação|· 5 min de leitura
Quantos empregos Araraquara pode perder com a Lupo no Paraguai?

A expansão internacional da Lupo, com a instalação de uma fábrica em Ciudad del Este, no Paraguai, reacendeu o debate sobre o futuro dos empregos industriais em Araraquara. Embora a empresa não tenha anunciado qualquer transferência oficial de produção para o país vizinho, o movimento estratégico alimenta receios de que, gradualmente, parte das operações hoje concentradas na matriz paulista seja deslocada para o novo polo produtivo. 

 

E a preocupação tem fundamento: a unidade paraguaia foi projetada com capacidade para produzir até 20 milhões de pares de meias por ano, volume que representa uma fatia expressiva do segmento mais tradicional da companhia. 

 

Além da capacidade da fábrica no Paraguai e a atual migração ao país vizinho, um ponto importante a ressaltar é que Araraquara abriga a maior e mais importante fábrica da Lupo, instalada em uma área de 90 mil metros quadrados e responsável pelo emprego direto de cerca de 5 mil pessoas da cidade e região. 

 
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Em uma cidade que possui cerca de 85 mil empregos formais, segundo dados atualizados do Novo Caged, a presença da companhia é decisiva para o funcionamento da economia local. 

 

A possibilidade de perda de postos de trabalho, mesmo que de forma gradual, ou sem o surgimento de novas vagas, tem sido discutida depois da repercussão sobre a ida da Lupo para o Paraguai. O temor não se limita ao risco imediato de transferência de parte da produção. Há um segundo ponto de atenção, considerado igualmente relevante: a chance da Lupo passar a concentrar seus futuros ciclos de expansão, modernização e investimentos no país vizinho, deixando Araraquara em posição secundária. 

 

Nesse cenário, mesmo sem demissões diretas, a cidade poderia registrar uma estagnação silenciosa, marcada pela ausência de novas contratações e pela falta de ampliação da capacidade produtiva local. 

 

Para um município que cresceu apoiado em grandes empregadores industriais, essa mudança representaria uma inflexão importante no mercado de trabalho.

Por que a ida ao Paraguai?

As vantagens que o Paraguai oferece às indústrias ajudam a explicar a ida da Lupo ao país e a preocupação para o Brasil. 

 

Os encargos sociais paraguaios podem ser cerca de 30% mais baixos que os brasileiros, especialmente pela ausência de cobranças como FGTS e contribuição sindical obrigatória. A energia elétrica custa, em média, 50% menos que no Brasil, e a mão de obra pode ser cerca de 40% mais barata. 

 

A legislação trabalhista local ainda autoriza jornadas de até 48 horas semanais, quatro a mais que a legislação brasileira, e concede períodos de férias significativamente menores nos primeiros anos de vínculo empregatício. 

 

Enquanto no Brasil os trabalhadores têm direito a 30 dias de descanso remunerado desde o primeiro ano de trabalho, no Paraguai esse período varia conforme o tempo de empresa. Do primeiro ao quinto ano, são apenas 12 dias úteis de férias; de seis a dez anos, 18 dias; e somente após a primeira década no mesmo emprego o trabalhador paraguaio alcança os 30 dias de descanso.

 

Esses benefícios, somados ao regime paraguaio de Maquila, que estabelece um imposto de apenas 1% sobre o valor agregado nas exportações, são fatores poderosos de atração para empresas que buscam reduzir custos de produção.

 

Busca por redução de custos

 

A própria história da Lupo reforça o apelo por alternativas que garantam competitividade. A companhia já passou por crises profundas, como a de 1993, quando esteve à beira da falência, acumulou dívidas e quase teve a Trifil como compradora. 

 

Naquele período, a empresa precisou adotar medidas extremas, como suspender temporariamente o pagamento de impostos até a criação do Refis, em 2000. 

 

Depois de se recuperar, consolidou-se como uma das maiores marcas de moda íntima e meias do país, com 911 franquias, 9 lojas próprias e um faturamento de R$ 1,85 bilhão em 2024.

 

Antes de olhar para o exterior, a Lupo já havia buscado alternativas internas para reduzir custos, especialmente com a aquisição do grupo Scalina em 2016, que levou a empresa a fechar a fábrica de Guarulhos e concentrar sua produção na Bahia. 

 

Em 2022 e 2023, novas aquisições no Ceará reforçaram o movimento de expansão para regiões com incentivos fiscais mais favoráveis e oferta abundante de mão de obra especializada em tecelagem. A ida ao Paraguai, portanto, não é um fato isolado, mas parte de uma estratégia contínua de reposicionamento produtivo.

 

Operação atual da Lupo

 

Hoje, a empresa opera cinco fábricas: Araraquara (SP), Itabuna (BA), Maracanaú (CE), Pacatuba (CE) e Ciudad del Este (Paraguai), além de 3 centros de distribuição. A Lupo é líder nacional na venda de meias e cuecas, uma das maiores fabricantes de moda íntima do país e domina o mercado de meia-calça com as marcas Lupo, Trifil e Scala. No total, mobiliza cerca de 9 mil funcionários. 

 

A matriz paulista, porém, mantém peso simbólico e econômico singular. Por isso, qualquer deslocamento produtivo, mesmo que parcial, teria impacto direto sobre o cotidiano da cidade. 

 

Impacto e preocupação

 

Embora não haja números oficiais que indiquem quantos empregos poderiam ser afetados, mesmo com 5 mil funcionários estimados na região de Araraquara e futuros investimentos podendo ser redirecionados, a capacidade instalada no Paraguai, somada às vantagens de custo, é suficiente para alterar gradualmente o equilíbrio entre as unidades.

 

Para Araraquara, o movimento da Lupo serve como um termômetro das dificuldades enfrentadas pela indústria nacional, pressionada pela alta carga tributária, custos trabalhistas e complexidade regulatória. 

 

Enquanto empresas brasileiras encontram no Paraguai um ambiente mais leve e menos oneroso, cidades do interior, tradicionalmente dependentes de grandes empregadores, ficam mais vulneráveis a oscilações estratégicas e à realocação de operações para fora do país.

 
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