PERIGO CONSTANTE
Fila de poda expõe Araraquara a risco antes de ciclone
Com 3,5 mil árvores aguardando manutenção, cidade será testada por evento meteorológico extremo que chega terça-feira

A fila de poda de árvores em Araraquara não é apenas detalhe administrativo ou problema de gestão orçamentária. Nos próximos dias, quando um ciclone extratropical de forte intensidade atingir a região com ventos de até 95 km/h, esta fila de espera de 3,5 mil árvores — somadas a outras 1,8 mil aguardando remoção completa — pode ser tornar uma fonte potencial de tragédia. Cada árvore não podada, cada galho não removido, cada tronco comprometido funcionará como potencial arma durante o temporal que se aproxima.
A ciência é clara: especialistas indicam que ventos acima de 80 km/h conseguem arrancar árvores do solo inteiro, e acima de 100 km/h, a maioria das árvores não podadas cairá.
Araraquara poderá receber ventos de 95 km/h — bem dentro da zona de perigo crítico. A manutenção feita corretamente evita a maioria das quedas de árvores de grande porte. Aquelas árvores que causam os maiores estragos na fiação e podem até provocar mortes.
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O que torna uma árvore vulnerável ao vento
Pesquisadores identificaram características específicas que predispõem árvores à queda durante eventos climáticos extremos: inclinação do tronco superior a 40 graus, presença de fungos e apodrecimento, troncos e galhos ocos, cavidades no tronco e danos de batidas ou lesões de casca no tronco. Muitas das árvores araraquarenses que aguardam na fila de poda provavelmente apresentam uma ou mais destas características.
A estrutura do sistema radicular também define vulnerabilidade. Estudos mostram que áreas de solo saturado desestimulam o aprofundamento das raízes, fazendo com que árvores apresentem menor resistência ao tombamento pelo vento. Araraquara, que registrou chuvas consecutivas em período recente e cujo solo está já encharcado, oferece exatamente estas condições para aumento do risco.
A distribuição e capacidade de fixação das raízes são afetadas pela textura e consistência do solo. Solos com pouca drenagem e áreas saturadas de umidade criam situação perfeita para queda de árvores quando ventos fortes as atacam. Um estudo científico publicado no SciELO Brasil enfatiza: "a interação entre as propriedades físicas do solo e fatores como velocidade do vento e precipitação é determinante no risco de derrubada das árvores pelo impacto dos ventos".

Os números da vulnerabilidade em Araraquara
3,5 mil árvores aguardando poda. Esta é a realidade que Araraquara enfrenta 72 horas antes de um ciclone extratropical. Cada uma destas árvores representa incógnita: pode ser árvore saudável em canteiro inadequado (sufocando suas raízes), pode ser árvore já doente com galhos secos, pode ser árvore ocorrida onde há presença de fungos invisíveis desintegrando a madeira interna.
Adicionalmente, 1,8 mil árvores aguardam remoção completa — significando que não se trata apenas de poda de galhos, mas de estrutura arbórea inteira comprometida ao ponto de justificar eliminação. Estas árvores são exatamente aquelas em situação mais crítica, com risco mais elevado de queda.
Somadas, estas 5,3 mil árvores em estado de urgência representam mais de 4% do total de 130 mil árvores que Araraquara possui em suas ruas (quantidade que exclui parques, praças e áreas de lazer). Se apenas 1% destas árvores caírem durante o ciclone, serão 53 árvores desabando nas ruas da cidade. Se 5% caírem, serão 265 árvores derrubadas. Em evento similar em Rio de Janeiro durante ciclone extratropical, o Corpo de Bombeiros foi acionado para 70 ocorrências relacionadas a queda de árvores e ventos.
Atualmente, duas equipes (uma privada, outra municipal) conseguem processar aproximadamente 29 árvores por dia. Isso significa taxa de trabalho que levaria 183 dias apenas para processar as 3,5 mil árvores na fila de poda, sem contabilizar os trabalhos de remoção. O ciclone chega em 3 dias.
Matematicamente, é impossível preparar a arborização urbana adequadamente antes do evento. A fila não será reduzida. Centenas, potencialmente milhares, de árvores vulneráveis serão submetidas a ventos de 95 km/h — velocidade suficiente para derrubá-las.
A prefeitura argumenta que não possui orçamento para ampliar equipes de poda, necessitando de acréscimo de R$ 178 mil mensais para operação adequada. Esta é a realidade de uma cidade em crise financeira. O dilema é real: ou investe em múltiplos setores com orçamento limitado ou concentra recursos em alguns poucos.
Porém, o ciclone que se aproxima oferece teste definitivo desta decisão orçamentária. Se 100 árvores caírem durante o evento, quantos R$ serão necessários para:
— Remover árvores caídas nas ruas? — Reparar fiação danificada pela queda de galhos? — Reparar telhados de casas atingidas por árvores? — Reparar carros danificados por árvores? — Atender feridos por árvores caídas? — Restaurar infraestrutura urbana danificada? — Responder com equipes de emergência 24h durante o evento?
Pesquisas sobre custos de resposta a desastres climáticos indicam que o custo de recuperação pós-evento é tipicamente 10 a 20 vezes superior ao custo de prevenção. Os R$ 178 mil mensais de prevenção podem parecer valor elevado, mas o custo de responder a desastre pode alcançar milhões.
O precedente traumático de 2022-2023
Araraquara possui memória viva de cenário similar. Há exatamente 2 anos e poucos dias, em dezembro de 2022, chuva volumosa (200 mm em 24 horas) provocou morte de 6 pessoas, inclusive criança de 10 anos. Naquele evento, 20 árvores caíram simultaneamente, aumentando o volume de detritos em córregos, agravando alagamentos, danificando fiação que cortou energia em larga escala.
Na época, ninguém poderia prever que ciclones extratropicais se repetiriam com frequência cada vez maior. Hoje, em dezembro de 2025, a previsão é clara: ciclone chegará terça-feira (9), com pico de ventos na quarta-feira (10), durando até quinta-feira (11). Não é suposição, é previsão meteorológica confirmada por órgãos estaduais e federais.
O secretário de Obras e Serviços Públicos, Valter Rozatto, foi honesto na câmara municipal: "A Prefeitura está fazendo o que pode dentro da situação financeira em que se encontra. É evidente que eu gostaria de ter mais equipes". A declaração revela realidade impotente: administração reconhece problema, mas não possui recursos para solucioná-lo adequadamente.
Rozatto também admitiu: "estávamos com a cidade em um matagal danado e tivemos que priorizar a limpeza pública". Esta decisão administrativa — escolher limpeza geral sobre manutenção preventiva de arborização — foi pragmática dado orçamento limitado. Porém, colocou cidade em situação onde infraestrutura arbórea vulnerável aguarda apenas evento meteorológico extremo para provocar danos.
O risco múltiplo
Quando árvore grande cai sobre rede elétrica durante ciclone:
— Corte de energia elétrica afeta sistemas de bombeamento de água, hospitais, comércios — Fios energizados caídos criam risco de eletrocussão para pessoas — Dano em estruturas de rede pode levar semanas para ser reparado — Transformadores danificados exigem substituição que não ocorre instantaneamente
Quando árvore cai sobre via de circulação:
— Interdição da rua bloqueia acesso para equipes de emergência — Resgate de vítimas fica mais difícil se vias estão bloqueadas — Ambulâncias não conseguem chegar a pacientes — Bombeiros levam mais tempo para responder a ocorrências
Quando árvore cai sobre estrutura residencial:
— Telhado danificado permite entrada de água — Pessoas feridas podem estar sob os escombros — Perda total de residência em casos mais severos — Desabrigados aumentam demanda por abrigos emergenciais
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