Pular para o conteúdo
Quarta-feira, 07 de outubro de 2026
Araraquara Agora
Publicidade

Se aconteceu AGORA, é notícia aqui!

PublicidadeGrupo de WhatsApp do portal
Publicidade
MRV — Residencial Flora (2)
Publicidade

VAI SÓ DORMIR NA CADEIA

Hacker de Araraquara consegue progressão para regime semiaberto

Walter Delgatti Neto, condenado por invasão ao sistema do CNJ, teve pedido aprovado pelo ministro Alexandre de Moraes após cumprir requisitos legais

Geisa Ferreira da Silva|· 8 min de leitura
Hacker de Araraquara consegue progressão para regime semiaberto
Walter Delgatti Neto, conhecido como hacker de Araraquara, teve progressão de regime aprovada por Alexandre de Moraes. Foto: Reprodução Redes Sociais

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes autorizou nesta segunda-feira, 12, a mudança de regime prisional para Walter Delgatti Neto, conhecido nacionalmente como o hacker de Araraquara. A decisão permite que ele passe do regime fechado para o semiaberto após cumprir os requisitos estabelecidos pela legislação penal brasileira.

Natural da cidade paulista de Araraquara, Delgatti estava cumprindo pena na Penitenciária II de Potim, no Vale do Paraíba, para onde foi transferido em dezembro de 2025. Anteriormente, ele ficou detido em Tremembé II, conhecido como "Presídio dos Famosos", desde fevereiro do ano passado.

A condenação do araraquarense se deu após ele invadir os sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) ao lado da ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP). A sentença estabeleceu pena de oito anos e três meses de reclusão pelos crimes de invasão de dispositivo informático e falsidade ideológica.

LEIA TAMBÉM

Requisitos cumpridos para progressão

Na decisão divulgada nesta segunda-feira, o ministro Alexandre de Moraes fundamentou que todos os critérios legais necessários foram atendidos. O hacker de Araraquara completou o período mínimo obrigatório de 20% da pena privativa de liberdade, requisito aplicável por ele ser reincidente, embora o crime tenha sido cometido sem violência física ou grave ameaça.

"Na presente hipótese, estão presentes todos os requisitos legais exigidos para a progressão do sentenciado ao regime semi-aberto de cumprimento de sua pena privativa de liberdade", afirma trecho da decisão assinada pelo ministro do STF.

Até julho de 2025, Walter Delgatti havia cumprido um ano, onze meses e cinco dias de detenção, correspondente aos 20% necessários para pleitear a mudança de regime. Além do requisito temporal objetivo, o atestado de conduta carcerária emitido pela unidade prisional confirmou o bom comportamento do detento durante o período de reclusão, fator determinante para a concessão do benefício.

O que muda com o regime semiaberto

A progressão para o regime semiaberto não significa que Walter Delgatti estará em liberdade total. Sob as novas condições prisionais, ele poderá exercer atividades laborais durante o dia, mas terá obrigação de recolhimento noturno obrigatório na unidade prisional. Nos finais de semana e feriados, também permanecerá recluso na penitenciária.

O araraquarense ainda precisa cumprir o restante da sentença de oito anos e três meses. Com a progressão de regime, ele ganha a possibilidade de trabalhar e desenvolver atividades externas durante o período diurno, retornando ao estabelecimento prisional nos horários estipulados pela Justiça. Por determinação judicial, ele deve continuar em Potim até segunda ordem.

Trajetória nacional: da Vaza Jato às invasões ao CNJ

Walter Delgatti Neto ganhou notoriedade nacional em 2019, quando se revelou responsável por divulgar conversas trocadas entre integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato. As mensagens expostas revelaram diálogos entre o então juiz Sergio Moro e procuradores, especialmente Deltan Dallagnol, coordenador da operação em Curitiba.

Os conteúdos divulgados pelo hacker de Araraquara mostraram que membros da acusação e o magistrado responsável pelo julgamento mantinham conversas sobre estratégias processuais e combinavam os próximos passos que definiriam o destino dos investigados. O episódio ficou conhecido como Vaza Jato e teve repercussões significativas no sistema judiciário brasileiro.

As revelações feitas a partir das mensagens hackeadas foram utilizadas posteriormente em recursos que questionaram a imparcialidade de Sergio Moro nos processos da Lava Jato. O Supremo Tribunal Federal declarou o então juiz suspeito para julgar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, resultando na anulação de diversas condenações por corrupção que haviam sido proferidas pela operação.

Walter Delgatti responde judicialmente pelos vazamentos relacionados à Lava Jato, mas este processo está em fase de recursos e ainda não transitou em julgado. Ele foi condenado a 20 anos de prisão pelo caso Vaza Jato, porém a sentença ainda não é definitiva.

Envolvimento com Carla Zambelli e tentativa de fraude eleitoral

Durante o mandato de Jair Bolsonaro na presidência da República, o araraquarense foi procurado pela então deputada Carla Zambelli. Segundo as investigações, ela ofereceu valores em dinheiro para que ele invadisse os sistemas do Conselho Nacional de Justiça, com objetivo de demonstrar supostas vulnerabilidades do sistema eleitoral brasileiro.

A estratégia de Zambelli visava reforçar a tese, amplamente desmentida por especialistas e autoridades eleitorais, de que as urnas eletrônicas não seriam confiáveis. Esse argumento foi constantemente levantado pelo ex-presidente Bolsonaro e seus aliados, servindo de base para a tentativa de golpe que culminou nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.

Walter Delgatti admitiu ter invadido o sistema do CNJ e inserido documentos falsos no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP), incluindo um mandado de prisão fictício contra o ministro Alexandre de Moraes. Os crimes foram cometidos entre os dias 4 e 6 de janeiro de 2023, dias antes da tentativa de golpe em Brasília.

Condenação e prisão ao lado de Zambelli

A ex-deputada Carla Zambelli foi condenada a 10 anos de prisão pela participação no esquema de invasões aos sistemas do Poder Judiciário. Ela perdeu o mandato parlamentar em dezembro de 2025, após a confirmação da sentença. Os dois foram julgados juntos pelo envolvimento nas fraudes digitais contra o CNJ.

As investigações da Polícia Federal comprovaram que Zambelli contratou o hacker de Araraquara para executar as invasões e que havia pagamentos de assessores da parlamentar destinados a Delgatti. O araraquarense chegou a administrar as redes sociais e o site da então deputada, atividade que também violou medidas cautelares às quais estava submetido.

O plano de Zambelli envolvia demonstrar fragilidades no sistema eleitoral para alimentar a narrativa bolsonarista de fraude nas eleições. A estratégia buscava criar pretextos para questionar a legitimidade do processo democrático brasileiro, contribuindo para o ambiente que culminou nos ataques aos Três Poderes em janeiro de 2023.

Histórico de prisões e liberdades condicionais

A trajetória criminal de Walter Delgatti é marcada por idas e vindas ao sistema prisional. Ele foi preso pela primeira vez em julho de 2019, durante a Operação Spoofing da Polícia Federal, que investigou as invasões aos celulares de autoridades relacionadas à Lava Jato. Na ocasião, mais de mil pessoas tiveram suas comunicações acessadas ilegalmente.

Em outubro de 2020, o araraquarense conquistou o direito ao regime semiaberto, com uso de tornozeleira eletrônica. Entretanto, voltou a ser preso em junho de 2023 por descumprir ordem judicial que o proibia de acessar a internet. Investigações identificaram que ele mantinha contas de e-mail ativas e administrava sites, violando as restrições impostas pela Justiça.

A Polícia Federal descobriu selfies armazenadas em contas eletrônicas vinculadas ao hacker de Araraquara com datas posteriores à proibição, facilitando a associação dele aos perfis digitais. Após nova detenção, ele foi novamente liberado em 2023, mas com medidas cautelares mais rígidas.

Papel das mensagens na revisão de condenações

O material divulgado por Walter Delgatti teve impacto direto em processos judiciais de grande repercussão nacional. As conversas entre Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato evidenciaram coordenação entre acusação e julgador, prática vedada pelo sistema judicial brasileiro que exige imparcialidade absoluta do magistrado.

O Supremo Tribunal Federal utilizou as mensagens como elemento de prova ao analisar pedidos de suspeição de Moro nos processos contra o ex-presidente Lula. A Segunda Turma do STF concluiu que o então juiz agiu de forma parcial, determinando a anulação de todas as condenações proferidas por ele contra Lula, incluindo o caso do tríplex no Guarujá.

As revelações do Vaza Jato mostraram ainda que procuradores da operação compartilhavam informações sigilosas com a imprensa de forma estratégica, visando pressionar investigados e influenciar a opinião pública. Diálogos divulgados também expuseram comentários inadequados de membros da força-tarefa sobre eventos pessoais de investigados.

Manifestação da Procuradoria-Geral da República

Antes da decisão de Alexandre de Moraes, a Procuradoria-Geral da República (PGR) já havia se manifestado favoravelmente à progressão de regime do araraquarense. Em dezembro de 2025, o procurador-geral Paulo Gonet emitiu parecer destacando que todos os requisitos legais estavam cumpridos.

"O atestado de conduta carcerária emitido pela unidade prisional confirma que o reeducando Walter Delgatti Neto possui um bom comportamento. Portanto, todos os critérios objetivos e subjetivos necessários para a progressão de regime prisional foram atendidos", afirmou Gonet no documento enviado ao STF.

A manifestação da PGR foi solicitada pelo próprio ministro Alexandre de Moraes, relator do processo de execução penal e do pedido de progressão apresentado pela defesa do hacker de Araraquara. O parecer favorável da Procuradoria reforçou os argumentos da defesa sobre o direito de Delgatti à mudança de regime prisional.

Próximos passos e cumprimento da pena

Com a autorização da progressão para o regime semiaberto, Walter Delgatti terá oportunidade de reconstruir sua rotina com maior autonomia durante o dia, embora permaneça sob custódia do Estado. A possibilidade de trabalhar representa não apenas uma flexibilização da pena, mas também uma etapa importante no processo de ressocialização previsto pela legislação penal brasileira.

O araraquarense ainda tem pela frente vários anos de cumprimento de pena até conquistar a liberdade plena. Além da condenação relacionada à invasão do CNJ, ele enfrenta processos judiciais pelo caso Vaza Jato, que se encontram em fase recursal e podem resultar em acréscimo significativo ao tempo de reclusão.

A defesa de Delgatti não se pronunciou publicamente sobre a decisão do STF até o fechamento desta reportagem. Também não há informações se ele já possui emprego definido para o período diurno ou se buscará oportunidades no mercado de trabalho após a efetivação da mudança de regime.

O caso do hacker de Araraquara permanece como um dos mais emblemáticos da política brasileira recente, envolvendo questões sobre segurança digital, limites da atuação judicial, tentativas de golpe e a própria credibilidade do sistema eleitoral nacional. A história de Walter Delgatti Neto ilustra a complexidade dos desafios contemporâneos relacionados à tecnologia, privacidade e democracia.

CompartilheWhatsAppFacebookXTelegramE-mail

Leia também

Comentários

O comentário passa por aprovação antes de aparecer. Guardamos apenas o nome e o texto que você escrever.

Publicidade
MRV — Residencial Flora