REPERCUSSÃO
"A Bíblia é o cacete! Puta livrinho idiota": falas de Magdalena geram críticas e reações em Araraquara
Declarações no Jornal da EP provocaram onda de repúdio de fiéis, vereadores e da Diocese de São Carlos; comunicador diz que crítica é às religiões, não à fé

O jornalista José Carlos Magdalena, âncora do Jornal da EP, na Rádio EP FM 95.7, provocou mais uma polêmica em Araraquara nesta terça-feira (7). Durante o programa matutino ao vivo, o comunicador disparou uma série de ataques a religiões e à Bíblia Sagrada, utilizando termos de baixo calão que desencadearam uma avalanche de manifestações de repúdio entre fiéis, líderes religiosos, vereadores e ouvintes de toda a região.
As declarações, proferidas com veemência no ar, tomaram proporções enormes nas redes sociais e ultrapassaram os limites da cidade, alcançando toda a Diocese de São Carlos, que emitiu nota oficial de repúdio. Na Câmara Municipal de Araraquara, vereadores dedicaram parte da sessão desta terça para condenar as falas.
O episódio é mais um na longa lista de polêmicas do jornalista que há mais de quatro décadas de um dos comunicadores mais influentes do interior paulista, que construiu sua reputação justamente pela opinião forte e sem meias palavras.
O que Magdalena disse no programa
As declarações aconteceram em sequência durante a edição desta terça-feira do Jornal da EP, em meio à discussão de temas que, segundo testemunhos de ouvintes e a própria nota da Diocese, não tinham qualquer relação com religião. O jornalista se exaltou e passou a atacar frontalmente as instituições religiosas e a Bíblia Sagrada.
Magdalena iniciou a série de ataques afirmando: "A religião é um demônio que infelizmente está no meio social. A religião é demoníaca".
Na sequência, mirou diretamente o livro sagrado dos cristãos: "A Bíblia está errada. A Bíblia está errada, a Bíblia é uma bosta se você quiser saber. Ali tem um monte de criação, cada um colocou ali uma coisinha a mais".
Ao ser alertado pelo colega de bancada, o comentarista Luís Antônio, sobre a possibilidade de estar praticando intolerância religiosa, Magdalena não recuou. Pelo contrário, reagiu de forma ainda mais enfática: "A religião é demoníaca! Tinha que ser banida."
O comunicador tentou fundamentar sua posição recorrendo a exemplos internacionais: "A religião é demoníaca porque ela prende você. Ela causa temor. Agora, você vai no Oriente Médio, aquela guerra há milhares de anos em função da religião. As pessoas se matam, elas morrem."
Magdalena também direcionou ataques a líderes religiosos de expressão nacional, mirando especificamente o pastor Silas Malafaia: "Gente como esse Malafaia, canalha, ordinário, vagabundo, demoníaco. São os deturpadores do tempo. Vendilhões do tempo. A religião é demoníaca. Tinha que acabar com isso. Deus é único. Não tem que ter católico, espírita, evangélico, o cacete. É Deus. Deus é liberdade."
O ápice das declarações veio em seguida, no trecho que mais viralizou nas redes e gerou maior indignação: "A Bíblia é o cacete! Puta livrinho idiota. Um livrinho idiota. Eu li muito, eu falei: tudo besteira isso daí. Tudo palhaçada. Idiotice", concluiu o jornalista no ar.
Magdalena se defende em live e mantém posição
Diante da enxurrada de críticas que tomou as redes sociais em questão de horas, José Carlos Magdalena recorreu a uma live para se pronunciar. O jornalista, no entanto, não pediu desculpas e fez questão de reafirmar suas convicções. Ressaltou que a opinião manifestada é estritamente pessoal e que não reflete a posição da Rádio EP nem do Grupo EP.
Sobre a possibilidade de rever suas palavras, foi taxativo: "Sabe quando eu vou mudar de opinião? Só quando alguém me convencer do contrário… ninguém vai mudá-la sem o convencimento."
Na tentativa de contextualizar as declarações que causaram tamanha comoção, Magdalena buscou fazer uma distinção entre fé individual e o papel institucional das religiões: "Eu não critico e jamais vou criticar a fé alheia, a fé das pessoas. Sabe o que eu critico, o que eu critico mesmo é a função muitas vezes das religiões, que são verdadeiros anestésicos, que consolam oprimidos aliviando a dor da miséria, deu para entender?", justificou.
A explicação, porém, não convenceu a maioria dos ouvintes e internautas que acompanharam a polêmica. Para muitos, os termos utilizados ao vivo — como "livrinho idiota", "bosta" e "palhaçada" — ultrapassaram qualquer possibilidade de serem interpretados como crítica intelectual e configuraram ofensa direta à fé de milhões de pessoas.
Vereador Coronel Prado rebate nas redes sociais
Um dos primeiros a se manifestar publicamente foi o vereador Coronel Prado, que publicou em suas redes sociais uma resposta direta às palavras do jornalista. O parlamentar escreveu:
"Não é um livrinho idiota, não é besteira, não é b***a. A Bíblia Sagrada é o livro mais lido, traduzido e influente da história da humanidade. Para os cristãos, como eu, ela é a Palavra de Deus inspirada, fundamento da fé, da moral e da vida espiritual."
A publicação do vereador foi amplamente compartilhada e recebeu apoio massivo de seguidores de diferentes denominações religiosas, que enxergaram nas palavras de Coronel Prado uma defesa firme e respeitosa das Escrituras Sagradas.
Repercussão na Câmara Municipal
O caso reverberou também no plenário da Câmara Municipal de Araraquara. Na sessão desta terça-feira, diversos vereadores subiram à tribuna para manifestar repúdio às falas do jornalista. Uma nota de repúdio foi lida durante os trabalhos legislativos, demonstrando que a indignação ultrapassou fronteiras partidárias e uniu parlamentares de diferentes espectros políticos em defesa da liberdade religiosa e do respeito à fé.
Ouvinte histórico cobra responsabilidade do jornalista
Entre as manifestações que mais circularam nas redes sociais está a do internauta Márcio Servino, que se declarou admirador de longa data de Magdalena e leitor de seus livros. Em texto publicado online, Servino começou reconhecendo a trajetória do comunicador: "Sempre tive e tenho muito respeito e admiração pelo senhor e por seu trabalho. E como já lhe falei, até já li alguns de seus livros."
Servino disse que não estava ouvindo a rádio no momento das declarações, mas foi informado por outras pessoas: "Não estava ouvindo a rádio, mas muitos que se sentiram ofendidos me enviaram e comentaram sobre sua fala."
O internauta, mesmo mantendo o tom respeitoso, não poupou a crítica: "Considero sua fala de hoje no mínimo desnecessária, e extremamente infeliz por vários fatores, mas principalmente por usar de um poder que a rádio e o microfone lhe concede."
Servino ainda questionou se o gesto havia valido a pena diante do cenário atual: "Trazendo para o momento que vivemos hoje de generalizada intolerância religiosa extrema, ao criticar a Bíblia da forma que fez, eu lhe pergunto: valeu a pena? Pelo tão falado direito da expressão e livre pensamento."
O ouvinte finalizou com um alerta pragmático e um apelo pessoal: "Creio que todos perdemos muito e a rádio mais ainda, pois muitos que se sentiram ofendidos podem fazer valer sua escolha de não mais querer ouvir. Espero de coração que possa rever não somente suas palavras, mas sua atitude enquanto marido, pai, avô e um dos maiores comunicadores de nossa cidade. Que Deus lhe abençoe sempre e a todo momento."
O que diz a legislação brasileira sobre intolerância religiosa
A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso VI, garante a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto.
O artigo 208 do Código Penal tipifica como crime escarnecer publicamente de alguém por motivo de crença ou função religiosa, prevendo detenção de um mês a um ano, ou multa. Além disso, a Lei 7.716/89, com as alterações trazidas pela Lei 9.459/97, prevê reclusão de um a três anos e multa para quem praticar, induzir ou incitar discriminação por motivo de religião — e quando o crime é cometido por intermédio de meios de comunicação social, a pena sobe para dois a cinco anos de reclusão.
O STF já firmou o entendimento de que a incitação ao ódio público não está amparada pela cláusula constitucional que assegura a liberdade de expressão.
A liberdade de opinião é pilar da democracia, mas encontra limites quando atinge direitos fundamentais de terceiros — entre eles, a dignidade e a crença religiosa.
Até o fechamento desta reportagem, não havia informação sobre eventuais providências judiciais formais contra o jornalista.
Diocese de São Carlos emite nota oficial
A Diocese de São Carlos, que representa canonicamente a região de Araraquara, publicou uma extensa nota oficial assinada por Dom Luiz Carlos Dias, bispo diocesano. No documento, a instituição manifesta "profundo pesar e veemente repúdio" às declarações de Magdalena.
A nota aponta que o jornalista "proferiu manifestações altamente agressivas a todas as religiões, ignorando que elas têm papel preponderante de iluminar a vida e o caminhar das pessoas e da sociedade". Destaca ainda que suas palavras "soaram ofensivas aos cristãos e a sua fé" e demonstraram "falta de civilidade e desconhecimento da responsabilidade que o exercício da comunicação pública exige".
Em tom firme, a Diocese afirma que "tratar com escárnio as religiões e um livro tão relevante é um ato de absoluto desrespeito que fere, além dos fiéis, a Constituição Federal (Artigo 5º, inciso VI) e a própria sã convivência social". O documento recorda ainda as palavras do saudoso Papa Francisco, que pediu aos comunicadores "palavras certas para dissipar as sombras de um mundo fechado e dividido e construir uma civilização melhor do que aquela que recebemos".
A nota conclama jornalistas e meios de comunicação à reflexão sobre o respeito e a ética, manifesta solidariedade a todas as religiões atingidas e reafirma o compromisso da Igreja com o anúncio do Evangelho "guiados pelo amor e pelo respeito, certos de que a luz da verdade e da fraternidade sempre prevalecerão sobre a intolerância".
Quem é José Carlos Magdalena
José Carlos Magdalena é jornalista, escritor e um dos comunicadores mais influentes do interior paulista, com mais de 40 anos à frente de programas jornalísticos matutinos em Araraquara. Autor de "Um Século de Silêncio" (Prêmio Jabuti) e "Bandoleira" (Prêmio Biblioteca Nacional), também acumula passagens por veículos de alcance nacional como o Estadão e o Jornal da Tarde.
Conhecido por sua postura polêmica, opinião forte e incisiva, Magdalena lidera as audiências do rádio em Araraquara por décadas. Em 2024, deixou a Rádio Morada do Sol, onde permaneceu por quase quatro décadas, e migrou para a EP FM do Grupo EP, onde comanda o Jornal da EP das 7h às 11h.
Leia a nota da Diocese de São Carlos na íntegra
NOTA DA DIOCESE DE SÃO CARLOS
Dom Luiz Carlos Dias, bispo diocesano, presbíteros, diáconos, religiosos, religiosas e todo o povo fiel, manifestam seu profundo pesar e veemente repúdio às declarações proferidas pelo jornalista José Carlos Magdalena na manhã desta terça-feira, 07 de abril de 2026, no Jornal da EP Fm.
Nas tratativas de assuntos importantes em nada relacionados à religião, o jornalista se exaltou e proferiu manifestações altamente agressivas a todas as religiões, ignorando que elas têm papel preponderante de iluminar a vida e o caminhar das pessoas e da sociedade, segundo a justiça, a fraternidade e em paz, e à Bíblia, livro sagrado para os judeus e os seguidores de Jesus Cristo. Em particular, suas palavras soaram ofensivas aos cristãos e a sua fé, como a todos os integrantes da Diocese de São Carlos.
Suas considerações desprezam o legado de serviço e anúncio cristão do amor e esperança para milhões de pessoas, assim como o fato de a Bíblia ser fundamento para a vida espiritual de inúmeras comunidades, e um dos pilares da cultura do Ocidente. Deste modo, o jornalista demonstrou uma falta de civilidade e desconhecimento da responsabilidade que o exercício da comunicação pública exige.
Tratar com escárnio as religiões e um livro tão relevante, é um ato de absoluto desrespeito que fere, além dos fiéis, a Constituição Federal (Artigo 5º, inciso VI) e a própria sã convivência social, que deve ser pautada pelo reconhecimento da dignidade de cada pessoa e respeito por suas convicções, como as religiosas. E a defesa de alguma causa, mesmo que justa, não justifica atacar um grupo, sobretudo uma imensa coletividade, com o agravante de utilizar afirmações injustificáveis, como ocorreu.
A palavra comunicação provém do latim com·munus, aquilo que é compartilhado, ou seja, um dom pessoal ofertado a outro ou um dever recíproco entre membros de uma sociedade. A sadia comunicação deve propiciar a comunhão, estabelecer vínculos de relações, promover o bem comum, o serviço e o diálogo na comunidade (CNBB. Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. n. 14).
O saudoso Papa Francisco exortou várias vezes a uma comunicação que promova a paz. E pediu sobretudo aos comunicadores: "Palavras certas para dissipar as sombras dum mundo fechado e dividido e construir uma civilização melhor do que aquela que recebemos". (Mensagem para o 57º Dia Mundial das Comunicações Sociais. 24/01/2023).
Conclamamos o jornalista, sua equipe e todos os meios de comunicação a uma reflexão sobre a importância do respeito e da ética na construção de um diálogo que promova a paz e não a divisão. A liberdade de expressão, pilar fundamental da sociedade, deve ser exercida com responsabilidade e respeito aos direitos de todos, incluindo a liberdade de crença e a honra das instituições e dos fiéis.
Manifestamos nossa total solidariedade a todas as religiões que foram atacadas neste episódio, reconhecendo sua dignidade (Cf. Papa Francisco. Fratelli Tutti, n. 279) e que sentiram-se ofendidos em sua fé e valores.
Continuaremos empenhados na missão de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, guiados pelo amor e pelo respeito, certos de que a luz da verdade e da fraternidade sempre prevalecerão sobre a intolerância.
São Carlos, 07 de abril de 2026. Dom Luiz Carlos Dias Bispo Diocesano de São Carlos
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