Saída surpresa
José Carlos Magdalena deixa o comando do Jornal da EP após polêmica
Jornalista anuncia afastamento por tempo indeterminado após repercussão de ataques à Bíblia e às religiões no ar da EP FM

O jornalista José Carlos Magdalena anunciou, na manhã desta sexta-feira (10), seu afastamento por tempo indeterminado do comando do Jornal da EP, programa que apresentava de segunda a sexta das 7h às 11h na Rádio EP FM 95.7. A decisão foi comunicada ao vivo, logo nos minutos iniciais da edição, pegando de surpresa colegas de bancada, ouvintes e a própria diretoria da emissora, segundo ele.
O anúncio ocorre três dias após a polêmica envolvendo José Carlos Magdalena por declarações de forte teor contra a Bíblia Sagrada e as religiões, feitas no ar durante a edição da última terça-feira (7). As falas desencadearam uma avalanche de manifestações de repúdio que rapidamente ultrapassaram os limites de Araraquara, mobilizando fiéis, líderes religiosos, vereadores, anunciantes e parlamentares em toda a região (Veja Vídeo Abaixo).
Ao comunicar a decisão, o comunicador fez questão de blindar a emissora e afirmou que a iniciativa partiu exclusivamente dele. Segundo apurado pelo portal Araraquara Agora, nos bastidores houve enorme pressão social, de anunciantes e, principalmente, de parlamentares de direita para que a direção do Grupo EP tomasse providências.
O anúncio ao vivo: "Essa decisão é minha"
Na abertura do Jornal da EP desta sexta, Magdalena agradeceu publicamente a postura da emissora diante do episódio e destacou o que chamou de tratamento ético recebido nos bastidores:
"A rádio EP FM é uma rádio muito ética. Tratou desse meu conflito que eu tive aí com a bíblia, com as religiões, e tratou da forma muito ética, muito respeitosa com a condição. Tanto é que a única coisa que pediram foi que, nós vamos fazer uma nota porque nós (Rádio EP) não concordamos com seu ponto de vista", explicou.
Em seguida, o jornalista formalizou sua saída do comando do programa matutino, reforçando o caráter pessoal da decisão e deixando claro que pretende continuar se manifestando, mas fora do microfone da emissora:
"Essa decisão é minha, eu vou dar um tempo. Estou pegando meus companheiros de surpresa. E eu vou para as redes sociais, porque eu não quero envolver a emissora, nos meus pontos de vistas, e naquilo que eu penso a respeito da igreja católica, da igreja evangélica e de tudo aquilo que está ligado a religião."
Magdalena também avisou que pretende manter o tom combativo em suas plataformas pessoais e mirou diretamente lideranças evangélicas:
"Eu, com a consciência que eu tenho, eu não quero envolver a rádio nos meus comentários, nas minhas opiniões, então eu vou para as redes sociais, falar tudo que eu penso sobre esse assunto. Falar sobre esses canalhas, pastores, que estão apodrecendo a bíblia, transformando a bíblia naquilo que eu falei para vocês. É uma opinião minha. Eu não vou me acovardar em hipótese alguma, mas eu não quero prejudicar meus companheiros de trabalho, não quero prejudicar a rádio."
Relembre o caso que levou à saída
A crise começou na manhã da última terça-feira (7), quando Magdalena, em meio à discussão de temas que, segundo testemunhos de ouvintes e nota oficial da Diocese de São Carlos, não tinham qualquer relação com religião, passou a atacar frontalmente as instituições religiosas e a Bíblia Sagrada.
"A religião é um demônio que infelizmente está no meio social. A religião é demoníaca", disparou o jornalista, em uma das primeiras falas. Na sequência, mirou o livro sagrado: "A Bíblia está errada. A Bíblia está errada, a Bíblia é uma bosta se você quiser saber. Ali tem um monte de criação, cada um colocou ali uma coisinha a mais".
Alertado ao vivo pelo comentarista Luís Antônio sobre a possibilidade de estar praticando intolerância religiosa, Magdalena não recuou: "A religião é demoníaca! Tinha que ser banida." O comunicador ainda citou conflitos internacionais para tentar sustentar sua tese e atacou pessoalmente o pastor Silas Malafaia: "Gente como esse Malafaia, canalha, ordinário, vagabundo, demoníaco. São os deturpadores do tempo. Vendilhões do tempo."
O trecho que mais viralizou, no entanto, foi o desfecho da sequência: "A Bíblia é o cacete! Puta livrinho idiota. Um livrinho idiota. Eu li muito, eu falei: tudo besteira isso daí. Tudo palhaçada. Idiotice", concluiu no ar.
Diocese, Câmara e políticos reagiram
A repercussão foi imediata. A Diocese de São Carlos, que representa canonicamente a região de Araraquara, divulgou extensa nota oficial assinada pelo bispo diocesano Dom Luiz Carlos Dias, manifestando "profundo pesar e veemente repúdio" e afirmando que as palavras "soaram ofensivas aos cristãos e a sua fé" e demonstraram "falta de civilidade e desconhecimento da responsabilidade que o exercício da comunicação pública exige".
Na Câmara Municipal de Araraquara, vereadores de diferentes espectros políticos subiram à tribuna na mesma terça para condenar as falas, e uma nota de repúdio foi lida em plenário. O vereador Coronel Prado foi um dos primeiros a se manifestar publicamente: "Não é um livrinho idiota, não é besteira, não é bosta. A Bíblia Sagrada é o livro mais lido, traduzido e influente da história da humanidade."
Bastidores: pressão de anunciantes e contrato com a Alesp
Segundo apuração do portal Araraquara Agora, a pressão sobre o Grupo EP foi crescente ao longo da semana. Anunciantes manifestaram desconforto, ouvintes ameaçaram deixar de sintonizar a emissora e parlamentares de direita mobilizaram articulações nos bastidores cobrando providências.
Um dado do cenário econômico pesou no processo: a EP, responsável pela rádio e pela EPTV (afiliada Globo), venceu no ano passado a licitação para gerir a TV Alesp e produzir conteúdo para as redes sociais da Assembleia Legislativa de São Paulo, em contrato anual de R$ 26,9 milhões. A Assembleia e o Governo paulista são comandados por forças políticas de direita. Fontes ouvidas pela reportagem indicam que o contrato com a Alesp chegou a ser colocado na mesa como instrumento de pressão pela saída de Magdalena.
Quem é José Carlos Magdalena
José Carlos Magdalena é jornalista, escritor e um dos comunicadores mais influentes do interior paulista, com mais de 40 anos de carreira à frente de programas matutinos em Araraquara. Autor de "Um Século de Silêncio" (Prêmio Jabuti) e "Bandoleira" (Prêmio Biblioteca Nacional), acumula passagens por veículos de alcance nacional como o Estadão e o Jornal da Tarde.
Em 2024, deixou a Rádio Morada do Sol, onde permaneceu por quase quatro décadas, e migrou para a EP FM do Grupo EP, onde passou a comandar o Jornal da EP das 7h às 11h — posto do qual agora se afasta por tempo indeterminado. Até o fechamento desta reportagem, não havia informação sobre eventuais providências judiciais formais contra o jornalista, nem definição sobre quem assumirá o comando do programa matutino.
Fonte: araraquaraagora.com
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