OPINIÃO | POLARIZAÇÃO
A armadilha funcionou — e todos perderam
Charles Vinícius

Opinião
Há episódios que condensam, em poucas horas, contradições que levam anos para se acumular. O que aconteceu nos últimos dias em Araraquara é um desses episódios. Um político de Ribeirão Preto — identificado publicamente com a extrema direita e com campanha nacional em construção para 2026 — desembarcou na cidade, adentrou o campus da UNESP e foi direto ao confronto com estudantes em greve. Houve agressão física. Estudantes foram agredidos. No dia seguinte, eles foram à Câmara Municipal, usaram a tribuna popular e a sessão descambou em bate-boca entre vereadores. O circo estava montado. As câmeras registraram tudo. As redes sociais fizeram o resto.
Antes de qualquer análise, é preciso dizer o que realmente aconteceu: um adulto com segurança, atravessou cidades para entrar num campus universitário e agredir jovens estudantes. Isso não é provocação retórica. Não é embate intelectual. É violência — e precisa ser chamada pelo nome antes que qualquer outro argumento seja feito.
Dito isso, também é preciso dizer: a armadilha foi armada, e os dois lados pularam dentro.
O político e o produto
Não há ingenuidade possível em relação às intenções de quem atravessa cidades para aparecer em meio a uma greve estudantil. O playbook é conhecido e foi executado com precisão cirúrgica: chegar com câmeras, provocar a reação, escalar até o conflito físico, sair com o vídeo. Políticos desta cepa não vão a manifestações para construir diálogo — vão para obter corte de rede social, engajamento e conflito. A frase "eu pago a sua faculdade, seu vagabundo", dirigida a estudantes em greve por parlamentares da mesma corrente ideológica em São Paulo, no último dia 11, viralizou em horas e rendeu cobertura nacional. O raciocínio é simples: quanto maior a reação dos estudantes, melhor o conteúdo. Quanto mais caótico o confronto, mais visibilidade eleitoral.
O "político de Ribeirão Preto" — como já ficou conhecido — foi além da provocação verbal. Agrediu estudantes. Isso não pode ser relativizado, minimizado nem enterrado no meio de uma análise sobre comportamento do movimento estudantil. A violência física praticada por uma figura pública dentro de uma universidade pública é grave o suficiente para ser tratada com a seriedade que merece pelas instâncias competentes — da direção do campus ao Ministério Público. Que ele tenha calculado friamente a reação que provocaria não atenua a responsabilidade. Agrava.
O problema — e aqui começa a parte mais difícil de dizer — é que a estratégia só funciona se houver colaboração do outro lado. E houve.
A universidade caiu na armadilha
Espera-se de uma instituição que forma a elite intelectual do país uma capacidade analítica superior à da média. Espera-se que uma comunidade acadêmica, treinada em epistemologia, teoria política e sociologia, seja capaz de identificar uma provocação fabricada e não alimentá-la. Não foi o que ocorreu.
A resposta foi exatamente aquela que o roteiro precisava: confronto físico, palavras de ordem radicais, ocupação de tribuna, caos na sessão da Câmara. Cada grito devolvido, cada empurra-empurra, cada discurso inflamado na tribuna popular foi mais um segundo de conteúdo gratuito entregue a quem veio buscar exatamente isso. A universidade, que poderia ter escolhido a superioridade da inteligência e da frieza institucional, escolheu a emoção — e perdeu a batalha da narrativa antes mesmo de ela começar.
Há algo de paradoxalmente trágico nisso. Uma instituição que estuda poder, ideologia e comunicação política há décadas não soube reconhecer, em tempo real, a armadilha de poder, ideologia e comunicação política que lhe foi estendida.
O problema da linguagem e do endereçamento
A greve dos estudantes das universidades estaduais paulistas tem pautas legítimas. Não há dúvida sobre isso. A UNESP enfrenta processo permanente de precarização: é a universidade paulista que menos recebe recursos e investimentos, com déficit de professores, infraestrutura deteriorada, não equiparação salarial de técnicos-administrativos e insuficientes políticas de permanência estudantil. Em Araraquara, o problema tem rosto concreto: no curso de Pedagogia, o déficit chegou a seis docentes. As demandas, portanto, são reais. Mas o modo como são comunicadas cria um abismo entre quem reivindica e quem deveria apoiar.
A linguagem dos movimentos estudantis dominantes fala em "sucateamento e privatização", em "unidade da luta", em "classe trabalhadora" e "projetos neoliberais". São categorias internas ao universo ideológico de quem já está convencido. Para a mãe que trabalha em dois empregos para pagar o aluguel do filho em Araraquara, para o pai que acorda às cinco da manhã e que vê na UNESP a maior conquista da família, essa linguagem não diz nada — ou diz o errado. Quando esse pai lê "estudantes em greve" e vê imagens de confronto com um político que afirma "eu pago a sua faculdade", ele não pensa em precarização estrutural. Ele pensa: meu filho parou de estudar e foi brigar na rua.
A pesquisa sobre o Legislativo municipal de Itajubá, citada na edição anterior desta coluna (COUTO, 2021), documenta o baixo letramento político da população em relação às instituições. O mesmo fenômeno ocorre com a universidade pública: há uma lacuna enorme entre o que a UNESP significa para a cidade e o que a população compreende sobre ela — e o movimento estudantil, em vez de preencher essa lacuna, tem sistematicamente aprofundado-a.
A minoria que pauta a maioria
É preciso ter coragem para dizer o que muitos dentro da universidade pensam, mas evitam verbalizar: a greve não representa a totalidade dos estudantes. Representa uma fração — organizada, barulhenta e politicamente articulada — que consegue pautar a agenda pela força da mobilização, não pelo mandato da maioria.
Há um perfil conhecido nos campi brasileiros que poderíamos chamar de "estudante profissional": aquele cuja atividade principal não é o curso, mas a militância. Que conhece o regimento das assembleias melhor do que o conteúdo das disciplinas. Que sabe exatamente como construir maioria em um plenário esvaziado, como interpretar o quórum a seu favor, como transformar a abstenção dos desinteressados em voto implícito. Esse grupo tem conexões nacionais, pauta explicitamente eleitoral para 2026 e usa a universidade como plataforma — não como finalidade.
Ao mesmo tempo, existe uma maioria silenciosa: estudantes sérios, indignados com as condições da universidade, mas igualmente cansados de ver o semestre comprometido por paralisações repetidas, de ter aulas canceladas sem autorização individual, de descobrir que a assembleia que decidiu pela greve tinha dois décimos dos alunos matriculados. Essa maioria não aparece nos vídeos. Não vai à tribuna. Está na biblioteca, tentando estudar, pagando boleto atrasado, explicando à família por que o semestre ainda não acabou.
Confundir o movimento com a universidade é um erro analítico. Confundir a minoria organizada com os estudantes é desonestidade intelectual.
O paralelo com 1968 que os militantes preferem não fazer
Toda vez que se fala em greve estudantil no Brasil, a referência ao movimento de 1968 aparece — às vezes explicitamente, mais frequentemente como moldura implícita. Mas o paralelo, quando feito com rigor, revela mais diferenças do que semelhanças.
O movimento estudantil da ditadura militar tinha pautas que tocavam a totalidade da sociedade: liberdade de expressão, fim da tortura, anistia, eleições livres. Eram demandas que qualquer brasileiro entendia sem precisar de glossário. O estudante que descia às ruas em 1968 falava a língua do trabalhador da fábrica, do comerciante do bairro, da dona de casa. A UNE daquele período não precisava explicar por que estava nas ruas — todos sabiam, todos sentiam.
O movimento estudantil de 2026 tem pautas genuínas — financiamento universitário, permanência estudantil, condições de trabalho docente — mas as embala em narrativas identitárias e em categorias ideológicas que tornam difícil a identificação popular. Quando o discurso mais audível na greve é contra o "fascismo de Tarcísio" e pela "unidade revolucionária", o trabalhador que vota no mesmo Tarcísio não se sente representado na causa — mesmo que seu filho precise de moradia estudantil.
A greve que poderia ter a sociedade do seu lado escolheu ter apenas a militância do seu lado. E a extrema direita agradece.
O que os dados dizem sobre a permanência
Antes que alguém leia este artigo como uma defesa do status quo, é necessário ser preciso: as reivindicações materiais dos estudantes têm fundamento empírico robusto.
Em 2013, a ocupação da reitoria da UNESP foi o ponto de partida para a discussão estruturada das políticas de permanência. Antes disso, o orçamento para a área era de cerca de R$ 8 milhões. De lá para cá, houve avanços inegáveis: o orçamento destinado à permanência estudantil em 2026 alcança R$ 110 milhões, e em 2025 foram 7.746 estudantes de graduação atendidos com algum tipo de auxílio. No campus de Araraquara especificamente, a Faculdade de Ciências e Letras concentra 534 estudantes de graduação contemplados com políticas de permanência.
Mas os problemas estruturais persistem. A UNESP tem 34 unidades distribuídas em 24 cidades, e em apenas dez campi há restaurantes universitários; em apenas 13, moradia estudantil. As listas de espera afetam principalmente os veteranos, que enfrentam processo seletivo todos os anos — e muitos ficam sem benefícios por até três meses, porque o número de assistentes sociais é insuficiente para atender todos os campi simultaneamente.
Esses são dados que a sociedade deveria conhecer. Esses são os argumentos que deveriam estar nas tribunas e nas redes sociais. Mas, tragicamente, eles se perdem no barulho do confronto — que é exatamente o que a extrema direita quer que aconteça.
As eleições de 2026 chegaram em Araraquara
O que aconteceu nesses dias não foi um episódio isolado de má convivência entre um político provocador e estudantes reativos. Foi o ensaio local de um roteiro nacional. Em ano eleitoral, a universidade pública virou campo de disputa simbólica: a extrema direita precisa de imagens de "baderneiros financiados com dinheiro público" e a extrema esquerda precisa de imagens de "fascistas invadindo campus". Os dois lados constroem narrativas para seus respectivos eleitorados — e quem paga a conta é a maioria que está no meio: os estudantes sérios, os professores comprometidos, a cidade que depende da UNESP.
Araraquara sediou essa disputa sem ter pedido para isso. E os reflexos chegaram à Câmara Municipal, que, em vez de debater políticas concretas para a universidade, transformou a sessão em extensão do conflito.
O que deveria acontecer em vez disso
Esta coluna tem o compromisso de ser propositiva onde a política se contenta em ser ruidosa. Portanto, dois endereçamentos concretos.
Às unidades da UNESP — e especialmente ao campus de Araraquara: aproveitem as semanas acadêmicas para fazer algo que nunca foi feito com seriedade. Uma oficina sobre como falar com a sociedade. Como traduzir demandas legítimas em linguagem que o contribuinte compreenda. Como construir aliados fora dos muros da universidade. Como a excelência em pesquisa, ensino e extensão — que a UNESP de fato entrega — pode ser comunicada de forma que aproxime a população em vez de afastá-la. A universidade que forma comunicadores, sociólogos, administradores públicos, economistas e cientistas políticos não pode continuar sendo analfabeta funcional em comunicação pública. Isso não é capitulação ideológica — é inteligência estratégica.
À Câmara Municipal e ao Prefeito de Araraquara: a UNESP não é um problema da cidade. É seu maior ativo. Uma universidade que atende centenas de estudantes em vulnerabilidade socioeconômica, que participa ativamente do SUS municipal, que movimenta a economia local com empregos, compras e serviços, que forma os profissionais de que toda a região depende — essa universidade merece políticas públicas municipais à altura. Não militância. Não tribuna. Políticas. Uma parceria de extensão universitária formalizada. Um programa municipal de permanência complementar ao estadual. Uma agenda de diálogo permanente entre o campus e a gestão pública local. Esses instrumentos existem, funcionam em outros municípios e custam infinitamente menos — em dinheiro e em capital político — do que a sessão tumultuada que Araraquara assistiu esta semana.
Menos grito. Mais entrega. Isso vale para todos os lados.

Autor: Charles Vinícius é Administrador Público formado pela UNESP, Especialista em Gestão Pública pela FBMG, autor do Livro “50 Políticas para Início de Mandato” e atua a quase 10 anos como Consultor em Gestão Municipal.
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