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'Criança ficou sem café até 10h30': crise das merendeiras expõe colapso nas escolas de Araraquara
Deficit de profissionais, afastamentos e condições de trabalho precárias colocam em risco o funcionamento das unidades

A crise enfrentada pelas merendeiras da rede municipal de Araraquara voltou ao debate na Câmara Municipal. Servidoras e representantes sindicais apontaram déficit de funcionários, adoecimento da categoria e a necessidade de avanços na regulamentação do PCCV.
Representando o Sindicato dos Servidores Municipais de Araraquara e Região (Sismar), Bernadete Ferreira de Couto apresentou durante a sessão da última terça-feira (22), um panorama considerado preocupante sobre a falta de profissionais, o adoecimento da categoria e o atraso na regulamentação de direitos previstos no Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV), instituído pela Lei nº 9.801, de 2019.
Segundo o sindicato, a situação no município tem provocado impactos diretos no funcionamento das escolas e na qualidade do atendimento prestado aos alunos. A falta de reposição de servidores aposentados ou desligados da rede tem gerado sobrecarga de trabalho e levado profissionais ao limite físico e emocional. Durante sua manifestação, Bernadete foi enfática ao descrever a realidade enfrentada pelos trabalhadores.
“O pessoal desse setor tá adoecido, são funcionários mal remunerados, negligenciados e estão sendo ignorados com demandas que se arrastam há muitos anos”, afirmou.
Atualmente, o município possui 325 vagas criadas por lei para o cargo de Merendeiro Escolar. Porém, levantamento realizado pelo Sismar aponta a existência de pelo menos 17 postos vagos sem reposição. Quando são considerados afastamentos pelo INSS, licenças-maternidade e licenças sem remuneração, o déficit chega a aproximadamente 25 profissionais.
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Déficit afeta cerca de 40% das escolas
De acordo com os dados apresentados, cerca de 40% das unidades escolares da rede municipal operam com equipes incompletas. A consequência imediata é a necessidade de remanejamento constante de funcionários para suprir ausências em diferentes escolas.
A prática tem gerado desgaste adicional para as trabalhadoras, que frequentemente precisam se deslocar para unidades distantes de sua lotação original. Ao comentar essa situação, Bernadete criticou a estratégia adotada para minimizar o problema. “Não dá para descobrir um santo para cobrir outro”, declarou, referindo-se ao deslocamento de merendeiras para outras escolas devido à falta de pessoal.
O sindicato também denuncia que, em diversos casos, as servidoras acabam arcando com custos de transporte para atender às demandas emergenciais da administração. A preocupação com o quadro de pessoal também foi compartilhada pelo presidente da Câmara Municipal, Rafael de Angeli (Republicanos), que reconheceu a gravidade do problema. Segundo ele, a reposição de profissionais na área da educação está atrasada entre 40% e 50%, índice considerado preocupante para o funcionamento adequado da rede.
O parlamentar declarou que a falta de profissionais e as condições de trabalho serão as primeiras pautas a serem tratadas com o novo secretário de educação.
Adoecimento cresce entre trabalhadores
Outro ponto amplamente discutido foi o elevado número de afastamentos por problemas de saúde. O sindicato afirma que as merendeiras estão entre os profissionais que mais adoecem dentro da estrutura municipal. As causas apontadas incluem jornadas exaustivas, movimentos repetitivos e condições inadequadas de trabalho. Entre os problemas mais recorrentes estão lesões nos braços, punhos, joelhos e coluna, além de casos de LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e bursite.
O vereador Guilherme Bianco (PCdoB), neto de merendeira, destacou que muitas cozinhas escolares possuem estruturas incompatíveis com a rotina dos trabalhadores. Segundo ele, pias muito baixas e fogões instalados em alturas inadequadas acabam contribuindo para o surgimento de doenças ocupacionais que afastam profissionais da atividade.
"A merenda é o coração das escolas. Sem a merenda a gente não consegue dar prosseguimento no processo”, disse.
Além dos impactos físicos, o desgaste emocional também foi tema do debate. O sentimento de abandono por parte do poder público e a demora na resolução das reivindicações históricas da categoria agravam o quadro de sofrimento psicológico.
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Merenda é considerada essencial para o funcionamento das escolas
Durante a sessão, vereadores ressaltaram que a discussão vai muito além das condições de trabalho dos servidores. Para eles, a crise também afeta diretamente os estudantes.
O alerta ganha ainda mais relevância diante dos relatos apresentados pelo sindicato. Em algumas unidades, a falta de profissionais já teria provocado atrasos significativos na distribuição das refeições.
Houve casos em que o café da manhã foi servido horas depois do horário previsto. Para muitas crianças, especialmente em regiões mais vulneráveis, a alimentação oferecida na escola representa uma parte fundamental da nutrição diária.
"O pessoal desse setor tá adoecido, são funcionários mal remunerados, negligenciados e estão sendo ignorados com demandas que se arrastam há muitos anos”, declarou.

Categoria cobra cumprimento da Lei nº 9.801
Além da contratação de novos servidores, as merendeiras reivindicam o cumprimento de dispositivos previstos no Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos da Educação. Entre as principais demandas está a regulamentação do Artigo 212 da Lei nº 9.801, de 2019, que prevê a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais. Embora a medida estivesse prevista para ser implementada até 2022, ela ainda não foi colocada em prática.
O sindicato também defende a discussão sobre uma jornada de 30 horas semanais, além da criação de mecanismos que garantam melhores condições ergonômicas nas cozinhas escolares.
Outro ponto defendido pela categoria é a consolidação da readaptação funcional de profissionais lesionadas, permitindo que elas exerçam atividades compatíveis com suas restrições médicas fora do ambiente das cozinhas.
Vereadores defendem concursos e rejeitam terceirização
A vereadora Felipa Brunelli (PT) defendeu que o caminho para solucionar a crise não passa pela terceirização do serviço.
“Tá na hora da gente parar de romantizar trabalhadores da educação. São trabalhadores, merecem dignidade, merecem respaldo e inclusive melhoras nos seus salários”, afirmou.
Ela também reforçou que a alternativa mais adequada é a abertura de novos concursos públicos e a melhoria das condições de trabalho, se apresentando contrária a terceirização, “a saída não é terceirizar as merendas... é você dar condições salubres de trabalho e contratar mais pessoas"
Já o vereador Alcindo Sabino (PT) argumentou que a redução da jornada pode representar economia para os cofres públicos, uma vez que servidores menos sobrecarregados tendem a apresentar menor índice de afastamentos médicos.
A vereadora Fabi Virgílio (PT) lamentou a estagnação das pautas de valorização da categoria e afirmou que a Câmara carrega o "fardo" e o "peso de responsabilidade" por ainda não ter conseguido avançar na regulamentação dos direitos das merendeiras e agentes educacionais.
Audiência pública será próximo passo
Embora não tenha ocorrido votação de projeto específico durante a sessão, os debates resultaram em encaminhamentos importantes. Entre eles está a proposta de realização de uma audiência pública para reunir representantes do Sismar e da Secretaria da Educação, buscando construir soluções concretas para o impasse.
Também ficou estabelecida a intensificação da cobrança ao Executivo para o cumprimento dos dispositivos previstos na legislação e para a abertura de novos concursos públicos. Para o sindicato, a situação já ultrapassou o limite do aceitável.
A avaliação é de que a crise das merendeiras representa um reflexo da falta de valorização de profissionais que desempenham papel fundamental na educação municipal. "As merendeiras são, entre os mais de 7 mil funcionários da prefeitura, os profissionais que mais adoecem, que mais têm problemas sérios de saúde", reforçou a representante do Sismar.
Veja a participação da Eunice:
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