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A guerrilheira Tuca

Luiza Garlippe: conheça a história da araraquarense que virou guerrilheira

Nascida na Morada do Sol, Luiza Garlippe trocou o hospital pela selva do Araguaia e se tornou uma lenda quase esquecida da resistência

Willian Oliveira|· 5 min de leitura
Luiza Garlippe: conheça a história da araraquarense que virou guerrilheira
Luiza Garlippe, a araraquarense conhecida como "Tuca", tornou-se comandante-médica da Guerrilha do Araguaia. Imagem restaurada com uso de IA

Luiza Garlippe é uma araraquarense que pouca gente ouviu falar, mas tem uma enorme importância na luta pela nossa democracia. A jovem abandonou a rotina de enfermeira em um grande hospital para pegar em armas na floresta amazônica.

A história parece roteiro de cinema, mas é real. Uma moça criada na pacata e ensolarada Araraquara dos anos 1940, terminou seus dias como comandante-médica de uma guerrilha no coração do Brasil, sob o codinome "Tuca". Poucos conterrâneos sabem que uma das protagonistas da célebre Guerrilha do Araguaia aprendeu a ler e a sonhar nas ruas do centro araraquarense.

Nesta matéria, o Araraquara Agora resgata a trajetória inusitada dessa filha da terra: da infância na cidade, às trilhas lamacentas do Pará, onde ela virou parteira, líder e, por fim, uma das grandes ausências da nossa história. Conheça quem foi Luiza Garlippe.

Quem foi Luiza Garlippe

Luiza Augusta Garlippe nasceu em 16 de outubro de 1941, em Araraquara, filha de Armando Garlippe e Durvalina Santomo Garlippe. A vida cedo lhe reservou perdas: ficou órfã de mãe aos 10 anos, quando o pai se casou novamente e a família cresceu com mais quatro irmãos.

Como boa parte da juventude araraquarense da época, Luiza estudou no tradicional Instituto de Educação Bento de Abreu (IEBA), onde concluiu o curso científico. Foi ali, entre livros e colegas, que começou a se formar a mulher determinada que marcaria época. Seu irmão, Saulo Garlippe, também trilharia caminhos de militância política.

Em 1960, com a bagagem de quem queria mais, ela deixou a cidade natal rumo à capital paulista. O destino era ambicioso: cursar enfermagem na Universidade de São Paulo (USP).

Da enfermagem à clandestinidade

Formada enfermeira, Luiza não era uma profissional qualquer. Chegou ao posto de enfermeira-chefe do Departamento de Doenças Tropicais do Hospital das Clínicas, em São Paulo, uma especialização que a levava a viagens pelo interior do Norte do país.

Foram esses contatos com a realidade brasileira, somados ao endurecimento da ditadura militar instalada em 1964, que empurraram a araraquarense para a militância. Filiada ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ela passou a organizar colegas, distribuir panfletos e participar de manifestações contra o regime.

No começo dos anos 1970, deu o passo mais radical de sua vida: despediu-se da família e partiu, na clandestinidade, para a região do rio Araguaia. Ia, segundo confidenciou a um irmão, "fazer um trabalho político no Norte do país".

Parteira e comandante na selva do Araguaia

Aqui a história ganha seu contorno mais inusitado. Na região de Xambioá, entre os moradores ribeirinhos, a enfermeira araraquarense colocou seu conhecimento a serviço da população: virou parteira, ajudando a trazer ao mundo os filhos do sertão amazônico.

Dentro da Guerrilha do Araguaia, movimento do PCdoB que reuniu cerca de 180 pessoas para tentar uma revolução inspirada em Cuba e na China, Luiza integrou o Destacamento B. Com a morte em combate do médico João Carlos Haas Sobrinho, em setembro de 1972, ela assumiu uma função de enorme responsabilidade: tornou-se comandante-médica da guerrilha, cuidando da saúde dos companheiros em meio à mata fechada.

Da menina do IEBA à líder na floresta, a trajetória de Luiza Garlippe desafia qualquer estereótipo sobre o interior paulista.

O trágico fim e o mistério que permanece

A resposta do Estado à guerrilha foi implacável. A partir de 1972, as Forças Armadas cercaram e desbarataram o movimento. Dos cerca de 180 guerrilheiros, menos de 20 sobreviveram.

Luiza foi uma das últimas a ser capturada com vida. Em 1974, aos 33 anos, caiu em uma emboscada montada por uma patrulha comandada pelo então capitão Sebastião Moura, o temido Major Curió, às margens do rio Sororó. Levada a bases militares e depois à cidade de Bacabal, foi executada em um ponto desconhecido da selva.

Seu corpo nunca foi encontrado. Até hoje, Luiza Garlippe é oficialmente uma desaparecida política, um dos casos investigados pela Comissão da Verdade. Décadas se passaram até que a população pudesse conhecer o que realmente aconteceu no Araguaia.

O que dizem as Comissões da Verdade sobre Luiza Garlippe

O caso de Luiza Garlippe não caiu no esquecimento oficial. Ele foi formalmente investigado tanto pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) quanto pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva". Em 7 de março de 2013, a comissão paulista dedicou sua 18ª audiência pública aos casos de cinco mulheres de São Paulo desaparecidas no Araguaia, entre elas, a araraquarense "Tuca".

O reconhecimento também veio da esfera internacional. Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado brasileiro no caso "Gomes Lund e Outros (Guerrilha do Araguaia) vs. Brasil", que trata do desaparecimento de 62 pessoas na região, Luiza incluída. A sentença obriga o Brasil a investigar os fatos, julgar e, se cabível, punir os responsáveis, além de localizar os restos mortais das vítimas.

Com base nisso, as comissões recomendaram medidas concretas no caso de Luiza: dar continuidade às investigações, localizar e identificar seus restos mortais, retificar sua certidão de óbito, identificar todos os agentes envolvidos e responsabilizá-los. Até hoje, por não terem sido devolvidos os restos à família, ela permanece oficialmente como desaparecida política, sem que seu corpo pudesse ser sepultado.

Há ainda um capítulo sombrio ligado à autoria. Em entrevista à revista Playboy, em dezembro de 2006, o Major Curió (Sebastião Rodrigues de Moura) chegou a admitir ter assassinado as guerrilheiras Dinalva Teixeira e Luiza Garlippe, versão que ele depois modificaria, afirmando tê-las entregue vivas a outro oficial. As próprias datas de sua morte são incertas: o Exército registra o desaparecimento desde maio de 1974; a Marinha aponta junho; e o Ministério Público, 16 de julho de 1974.

Como Araraquara lembra Luiza Garlippe

Ainda que sua história seja pouco difundida, a memória da araraquarense resiste. Em homenagem à sua luta, a Comissão de Direitos Humanos de Araraquara leva o seu nome. Fora daqui, cidades como Campinas, além de bairros de São Paulo e do Rio de Janeiro, batizaram ruas com "Luiza Augusta Garlippe".

Recentemente, a Câmara Municipal de Araraquara também aprovou a criação da Semana de Direitos Humanos "Luiza Augusta Garlippe", garantindo que o nome e a memória da conterrânea sigam presentes no calendário e no debate público da cidade.

Reconhecida como símbolo de coragem e resistência, ela é lembrada em memoriais dedicados aos mortos e desaparecidos da ditadura. Para os araraquarenses, fica o convite a olhar de novo para uma conterrânea que transformou uma vida comum em história extraordinária.

Da sombra dos oitis à selva do Araguaia, Luiza Garlippe é a prova de que a Morada do Sol também é berço de gente que enfrentou tempos sombrios com uma bravura de arrepiar.

Fonte: araraquaraagora.com

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