16/09/2022 às 12h21min - Atualizada em 16/09/2022 às 12h21min

Escola Municipal de Dança desenvolve projeto para recriar figurinos e adereços

Artista Muca Rangel foi convidada para reorganizar vestuários com base no tema proposto e ao mesmo tempo aproveitar o material que já compõe o acervo

A Escola Municipal de Dança Iracema Nogueira (EMD) comemora em 2022 duas décadas de existência e, ao longo desse tempo, foi reunido um grande acervo de figurinos e adereços. Periodicamente, a escola realiza um tipo de "curadoria" para organizar esse material e fazer uma análise de peças que podem ser aproveitadas, doadas ou descartadas. A ação visa reutilizar e recriar os figurinos do acervo, de modo a aproveitar e economizar com compras de tecidos.

Dessa vez, com apoio da Secretaria Municipal da Educação, a EMD conta com uma colaboração especial. Trata-se de Muca Rangel, figurinista, artista visual, e CEO da marca de @dircefashion.eco, que desenvolve pluralidades manuais a partir de práticas que interseccionam eco-design e transmutação têxtil. Muca tem graduação em Design de Moda pela Universidade de Araraquara (2015-2017) além de especialização em Cenografia e Figurino pela SP Escola de Teatro (2018-2019). Atualmente seu trabalho é pautado na construção de plasticidades e aproximações a partir do reaproveitamento têxtil e suas aplicabilidades em moda, arte, sustentabilidade e design.

Geórgia Palomino, coordenadora artística da EMD Iracema Nogueira, falou sobre o projeto. "Este ano vimos novamente esta necessidade de recriar nossos figurinos, porém pensamos em como otimizar nosso acervo, observando também a questão da sustentabilidade, pois é sabido que a indústria têxtil é uma das que mais poluem o meio ambiente. Senti a necessidade de ter alguém como Muca para nos orientar na escola e trazer novas ideias e propostas", explicou.

Segundo Geórgia, além de organizar, conceber e confeccionar figurinos, Muca vem com uma proposta de oficina para os estudantes e equipe da escola. "No dia 5 de setembro, Muca realizou duas oficinas, de duas horas cada, com as turmas da manhã e da tarde, onde os participantes colocaram a 'mão na massa' e a partir de figurinos pré-selecionados, puderam criar seus próprios figurinos, instigados pelas provocações de Muca. Todos amaram", relatou a coordenadora.

Desenvolvimento do tema

Neste ano, o estudo anual da EMD aborda a Semana de Arte Moderna de 1922 e conta com o tema "Inverso-Reverso: reverberações modernistas na contemporaneidade". Segundo Geórgia, a ideia é fazer uma ligação com "Macunaíma", famosa obra do escritor Mário de Andrade. "Não podemos apagar isso da nossa escola, pois somos frutos do Macunaíma, que foi escrito aqui em Araraquara, na Chácara Sapucaia. Através do Macunaíma e do conceito de reantropofagia do Denilson Baniwa, que é um artista indígena, pensamos em formas de trazer essa reantropofagia para o nosso espetáculo. Também cheguei ao Jaider Esbell, que é um gênio, artista também indígena, infelizmente falecido, que traz o conceito do Makunaimã, que é um dos mitos que inspiraram Mário de Andrade a escrever Macunaíma. Gostaríamos de fazer essa ponte entre Macunaíma e Makunaimã e o que isso reverbera em nós hoje, diante de todas as questões indígenas, do desmatamento, das atrocidades que estão acontecendo no Brasil e no mundo e quais são as perspectivas para o futuro, o que faremos, o que podemos fazer para 'reantropofagizar' um futuro melhor. Essa é a questão principal do tema da nossa escola", esclareceu.

Para ela, Muca Rangel chega para fazer essa reantropofagia nos figurinos da escola, onde o estudante também será protagonista e co-criador no processo. "Ela entra aqui vendo o nosso roteiro, pesquisando em cima das nossas referências que temos pesquisado desde março, pensando junto com os professores e principalmente com os alunos. Entendemos que o processo artístico deve ser horizontal e dialógico, então não dá para nós, professores, impormos as nossas ideias, mas sim mostrarmos como podemos fazer o nosso processo de ensino e aprendizagem de modo totalmente democrático. Então essas crianças também estão contribuindo com ideias e, em algumas dessas turmas, estão inclusive ajudando a compor esse figurino", apontou Geórgia.

Processo de criação

Muca Rangel falou sobre sua atuação no projeto. "Minha participação na Escola de Dança é de propor dinâmicas que aproximem os aprendizes dos processos de criação e confecção manual de figurinos a partir da ressignificação e transmutação de peças têxteis para além do seu percurso atual. Ao propor diferentes possibilidades de reuso e reintegração, construiremos figurinos ressignificados que aproximem o vestir e o viver, transmutando, assim, nossa identidade a partir das singularidades sobre a forma que nos vestimos e nos expressamos no mundo", salientou.

Segundo ela, a primeira etapa do processo de criação visual é a concepção de figurinos, que envolve a pesquisa e desenvolvimento de referências visuais a respeito do tema 'Semana de Arte Moderna de 1922/2022'. A segunda etapa é a organização do material, que é um processo de separação e readequação de resíduos têxteis já disponíveis na instituição com o intuito de enfatizar e valorizar a vivência têxtil percorrida ao longo dos 20 anos da escola, a fim de propor, a partir do entorno, novas perspectivas através da caracterização visual e processos criativos sustentáveis. Por fim, vem a montagem de figurinos, onde a confecção é realizada a partir das técnicas de upcycling e transmutação têxtil, as quais evidenciam e propõem construções criativas e não usuais, dialogando com reaproveitamento, sustentabilidade e desenvolvimento criativo.
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