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Setor citrícola pode quebrar com taxa dos EUA? Governo tenta negociar até 1º de agosto

Produtores de suco de laranja temem colapso e pedem cautela

Geisa Ferreira da Silva|· 6 min de leitura
Setor citrícola pode quebrar com taxa dos EUA? Governo tenta negociar até 1º de agosto
Citrosuco e Cutrale, gigantes do suco de laranja em Araraquara e região, podem sofrer perdas bilionárias com nova tarifa de 50% imposta pelos EUA Foto ilustrativa: Portal do Governo SP.

 

 

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Produtores brasileiros enfrentam dias de incerteza após o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que, a partir de 1º de agosto, será aplicada uma tarifa de 50% sobre todas as exportações do Brasil para o mercado norte-americano. A decisão colocou diversos setores em alerta, sobretudo aqueles dependentes das vendas externas para os EUA.

 

Na região de Araraquara, a apreensão é ainda maior entre os produtores de suco de laranja, segmento importante para a economia local e nacional. A cidade abriga a Cutrale, enquanto a vizinha Matão sedia a Citrosuco, duas gigantes globais do setor. Segundo a Forbes Brasil, a Citrosuco é considerada a maior processadora de suco de laranja do mundo, posição conquistada após a fusão, em 2010, entre Fischer e Citrovita. Juntas, Cutrale e Citrosuco dominam mais da metade da produção global de suco de laranja.

 

Atualmente, a Cutrale destina 98% de sua produção para exportação, com presença consolidada em mais de 90 países, incluindo mercados estratégicos como Estados Unidos, Europa e Ásia.

 

Mesmo diante da ameaça tarifária, o setor mantém as atividades dentro da normalidade. “Mas, temos que ter cautela”, afirmou Antonio Carlos Simonetti, presidente da Câmara Setorial da Citricultura do Estado de São Paulo e vice-presidente da Associação Brasileira de Citros de Mesa.

 

 

“Essa tarifa é para o dia 1º de agosto. Temos que deixar o governo fazer as ações, fazer a defesa e negociar. Acho que uma boa conversa é muito melhor do que uma má discussão”, ressaltou em entrevista à Agência Brasil.

 

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Cítricos de Araraquara podem perder mercado nos EUA

 

O Brasil é atualmente o maior fornecedor mundial de suco de laranja para os EUA, mercado responsável por cerca de 40% das exportações brasileiras do produto. No cenário geral, aproximadamente 95% da produção nacional de suco cítrico é direcionada ao exterior. A Europa absorve cerca de 52% desse volume, destacando países como Alemanha, França e Reino Unido.

 

Se implementada, a tarifa extra poderá gerar grandes severos. Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR (Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos), explica que, com o aumento, o imposto representaria 70% do valor da tonelada de suco exportada, resultando em um custo de US$ 2.500 sobre o preço total de US$ 3.500 negociados.

 

 

“A matemática é simples: de cada US$ 3.500 por tonelada, apenas US$ 1.000 restaria para remunerar toda a cadeia produtiva. Isso torna inviável a venda para os EUA”, declarou Netto.

 

Estudos do setor apontam que a tarifa, hoje em 5,9%, pode saltar para 15,9%, elevando os custos e provocando perdas superiores a R$ 1 bilhão no segmento de suco cítrico.

 

 

Setor de pescados já sofre impactos imediatos

 

A preocupação, no entanto, não é exclusiva do setor de cítricos. O mercado brasileiro de pescados também foi diretamente atingido. Segundo a Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescados), 58 contêineres, carregados com 1.160 toneladas de pescado, perderam compradores nos EUA e precisarão retornar ao Brasil.

 

 

“Os embarques que seriam feitos agora chegariam em agosto. Pelo timing do translado dos contêineres, eles já estariam sujeitos à nova tarifa. Então, os compradores de lá suspenderam as compras, suspenderam os embarques”, explicou Jairo Gund, diretor-executivo da Abipesca.

 

Os Estados Unidos representam cerca de 70% do mercado externo brasileiro de pescado. No caso específico da tilápia, 90% do que o Brasil exporta tem como destino os EUA. No momento, apenas o mercado de produtos frescos, enviado via transporte aéreo, segue operando normalmente.

O maior impacto, segundo Gund, atinge diretamente pequenos produtores, sobretudo na pesca artesanal.

 

 

“O principal item de exportação é a lagosta. A lagosta é vista como produto de luxo, mas quem produz é gente pobre. É peça artesanal. O impacto nesse público é direto. Quem vai sofrer não é quem vai comer lagosta, mas quem produz, geralmente pessoas de baixa condição social, de comunidades tradicionais”, destacou Gund.

 

A Abipesca participará nesta terça-feira (15) de uma reunião com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, buscando soluções emergenciais. A principal demanda do setor é adiar a entrada em vigor da taxação em pelo menos 90 dias, para permitir o escoamento da produção já contratada.

 

A entidade também pedirá a exclusão dos pescados da lista de produtos tarifados, argumentando que o Brasil representa menos de 1% das importações americanas de pescados.

 

 

“Estamos no meio da safra das principais espécies. Que a gente consiga sensibilizar o governo americano para tirar o pescado da tarifa. É pouco para eles, mas muito para nós”, finalizou Gund.

 

 

Indústria teme colapso de investimentos

 

O setor industrial brasileiro também demonstra grande apreensão. Em nota oficial divulgada nesta segunda-feira (14), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) declarou que o momento requer “ações enérgicas e contundentes”, tanto no campo interno quanto no externo, para reverter o quadro.

 

 

“Nas relações exteriores, precisamos de moderação e equilíbrio para contornar a política tarifária dos EUA. Devemos negociar a revogação da taxação na condição de país parceiro e de nação soberana. Cabe ao governo brasileiro defender os interesses da sociedade, evitando as armadilhas da polarização política que o episódio coloca no caminho”, ressaltou a CNI.

 

A entidade destaca que a medida de Trump gera insegurança jurídica, ameaça contratos de longo prazo e compromete não apenas fábricas brasileiras, mas também plantas industriais localizadas nos EUA, que dependem de insumos brasileiros para manter linhas de produção e postos de trabalho.

 

 

“A taxação põe fim à previsibilidade que sustenta milhares de contratos, elevando o risco de retrocesso e prejudicando a competitividade de ambos os lados, além de lançar incerteza sobre planos de investimento e negócios em andamento”, alerta o comunicado.

 

 

Governo brasileiro articula reação

 

Como resposta à ameaça tarifária, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta segunda-feira a criação do Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais. O grupo será instituído através de decreto regulamentando a Lei de Reciprocidade Econômica (Lei 15.122/25), sancionada em abril deste ano.

 

O comitê terá como foco ouvir setores produtivos e estudar medidas de defesa, além de contramedidas econômicas e comerciais contra países que adotem barreiras prejudiciais às exportações brasileiras.

 

 

As primeiras reuniões ocorrem nesta terça-feira (15), às 10h, com representantes da indústria e, posteriormente, do agronegócio.

 

Ainda está prevista a publicação do decreto que regulamenta a Lei de Reciprocidade Econômica, estabelecendo critérios para suspensão de concessões comerciais, investimentos ou direitos de propriedade intelectual, sempre que outro país ou bloco econômico aplicar restrições capazes de prejudicar a competitividade brasileira no mercado internacional.

 

Com informações: Agência Brasil.

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