Pular para o conteúdo
Quinta-feira, 08 de outubro de 2026
Araraquara Agora
Publicidade

Se aconteceu AGORA, é notícia aqui!

PublicidadeGrupo de WhatsApp do portal
Publicidade
MRV — Residencial Flora (2)
Publicidade

COMPILADO HISTÓRICO 1

23 vezes que Araraquara moldou a história do Brasil e do mundo

A Lava Jato que prendeu Lula, a Vaza Jato que "anulou" a Lava Jato e o 8 de janeiro que pode prender Bolsonaro, são os mais recentes

Willian Oliveira|· 16 min de leitura
23 vezes que Araraquara moldou a história do Brasil e do mundo
Araraquara é o centro do mundo? O que acha?

Araraquara, carinhosamente apelidada de "Morada do Sol", é um município no interior de São Paulo que, apesar de seu porte médio, com aproximadamente 240 mil habitantes, se tornou um palco recorrente de eventos que ressoaram por todo o Brasil e até mundo a fora. De operações policiais que desvendaram esquemas bilionários de corrupção a episódios decisivos da política contemporânea, passando pela vanguarda cultural, acadêmica, científica e social, a cidade surpreende por seu protagonismo em momentos cruciais da história nacional.

O portal Araraquara Agora reuniu de forma inédita 23 momentos ou circunstâncias, e personalidades de Araraquara que estiveram no epicentro dos acontecimentos que ajudaram a escrever a história do Brasil e até do mundo. O conteúdo especial está dividido em três partes. Confira a parte 1. Ao final do texto tem o link para as demais reportagens:

1. O Início da Lava Jato (2013–2021)

A maior investigação de corrupção da história do Brasil, a Operação Lava Jato, teve seu ponto de partida improvável em Araraquara. Em 21 de novembro de 2013, cinco policiais rodoviários do Tático Ostensivo Rodoviário (TOR) de Araraquara apreenderam 698 quilos de cocaína escondidos em uma carga de palmitos no quilômetro 265 da Rodovia Washington Luís. 

Era a materialidade que os investigadores da Força Tarefa do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal de Curitiba precisavam. Foram eles que alertaram os policiais de Araraquara da suspeita do transporte de droga.

A equipe TOR era formada pelo subtenente Valdinei Antônio de Carvalho, o sargento Gilson José Bessegatto, ambos já reformados, o sargento Flávio Henrique Fazan, o cabo Eduardo Alexandre Morales e o soldado Rodrigo Mitsuo Assagra. Aqui é importante fazer justiça. 

O que parecia ser apenas mais uma apreensão de drogas se tornaria o gatilho para desvendar um esquema bilionário de corrupção que abalou as estruturas políticas e empresariais do país.

A partir do flagrante, foram descobertas pistas que levaram ao doleiro Alberto Youssef, que se tornaria o principal delator da Lava Jato, desvendando o esquema de corrupção na Petrobras. 

O caso passou por um doleiro libanês ligado ao tráfico internacional, até chegar aos desvios bilionários que resultariam em prisões de executivos, empresários e políticos.

Em 2014, o sargento Fazan, um dos policiais envolvidos na apreensão, prestou depoimento por videoconferência ao então juiz Sérgio Moro. O militar revelou que só descobriu a conexão de sua apreensão com a Lava Jato ao fazer uma busca no Google. 

Apesar de a informação constar na denúncia oficial da força-tarefa, nunca houve comunicação oficial à Polícia Rodoviária de Araraquara sobre o papel fundamental que desempenharam no início da maior operação anticorrupção do país. 

A Lava Jato resultou na prisão de diversas figuras políticas e empresariais, incluindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

No ano de 2021, o STF declarou que o então Juiz Sérgio Moro não tinha competência para julgar Lula. A Corte entendeu que o magistrado, então titular na 13ª Vara Federal de Curitiba, foi parcial no julgamento de Lula e declarou sua suspeição.

O STF também entnedeu que os casos envolvendo Lula não estavam diretamente relacionados com a Petrobras, que era o foco da Operação Lava-Jato, assim, Moro não teria a competência legal para julgar o petista. Com isso todos os processos que levaram Lula à cadeia foram considerados nulos. Ele deixou a prisão, disputou a presidência e foi eleito.

Presidente Lula chegou a ser preso por causa das denúncias da Lava Jato
Presidente Lula chegou a ser preso por causa das denúncias da Lava Jato

 

 

2 - Vaza Jato e a invasão de celulares

A história da Lava Jato deu uma reviravolta complexa com a Vaza Jato. Walter Delgatti Neto, nascido em 23 de março de 1989 em Araraquara, tornou-se nacionalmente conhecido por invadir celulares de autoridades brasileiras. 

Conhecido como "Vermelho" devido aos cabelos e barba ruivos, ou simplesmente "Hacker de Araraquara", o personagem araraquarense usou técnicas comuns como clonagem de chip e recuperação de conta via número de telefone para cometer os crimes.

Com antecedentes criminais desde 2013, Delgatti foi o responsável por repassar ao site The Intercept Brasil, em 2019, conversas privadas de procuradores e do então juiz Sérgio Moro.

Os diálogos divulgados apontavam possíveis violações dos princípios da imparcialidade, independência e equidistância entre defesa e acusação. 

Em mensagens, Sérgio Moro, segundo a denúncia, orientava a promotoria, sugerindo modificações nas fases da operação, em combinação com procurador Deltan Dallagnol. Delgatti foi descrito pela imprensa como "o hacker que sepultou a Lava Jato".

Em 21 de agosto de 2021, o Hacker de Araraquara foi condenado a 20 anos de prisão, em decorrência das investigações da Operação Spoofing. Mas sua trajetória criminosa não parou aí. Em depoimento à Polícia Federal, ele afirmou ter sido contratado pela deputada federal Carla Zambelli para prestar serviços ilícitos — segundo ele, Zambelli desejava a invasão do celular do ministro Alexandre de Moraes e das urnas eletrônicas. Na CPMI que investiga a invasão à Praça dos Três Poderes (ocorrida em 8 de janeiro de 2023), Delgatti declarou ter se encontrado com Jair Bolsonaro em 10 de agosto de 2022, na presença de Carla Zambelli. Bolsonaro teria solicitado que o hacker comprometesse o sistema de votação eletrônica para gerar desconfiança sobre o processo eleitoral brasileiro. 

Hacker de Araraquara durante depoimento no Congresso
Hacker de Araraquara durante depoimento no Congresso

Em 14 de maio de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou, por unanimidade, Walter Delgatti a 8 anos e 3 meses de prisão pela invasão aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça, junto com a deputada Carla Zambelli. Ele teria tentado emitir um mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF.

O desdobramento final da Lava Jato ocorreu quando o STF anulou as condenações de Lula, por considerar que a Justiça Federal do Paraná não tinha competência para julgar os casos. 

A decisão, que devolveu os direitos políticos ao ex-presidente, foi vista por muitos como consequência direta das revelações da Vaza Jato. 

Assim, Araraquara está ligada tanto ao início da operação que levou à prisão de um ex-presidente, quanto ao escândalo que culminou na anulação de suas condenações e soltura e até uma pontinha nas ações que desencadearam o 8 de janeiro, que falaremos logo abaixo.

 

3. O Lockdown mais rigoroso do Brasil durante a pandemia (2021)

Apontada por epidemiologistas como a única cidade do Brasil a ter realizado um lockdown de fato, Araraquara entrou na fase mais rígida de isolamento em 21 de fevereiro de 2021. 

Na ocasião, a ocupação de leitos de UTI e enfermaria chegou a 100%, e a curva de casos e internações crescia rapidamente devido à circulação da então nova variante do coronavírus, a P.1 (também conhecida como cepa de Manaus, mais transmissível e que agravava pacientes mais jovens).

O lockdown total, com funcionamento apenas de farmácias e unidades de saúde de urgência e emergência, valeu a partir das 12h do domingo, 21 de fevereiro, até as 23h59 de terça-feira, 23 de fevereiro. Nesse período, ficou proibida a circulação de veículos e de pessoas na cidade. 

Durante dez dias de medidas restritivas, o transporte público foi suspenso; supermercados operaram apenas por delivery durante seis dias; e a fiscalização rigorosa garantiu que a população permanecesse em casa. Araraquara foi notícia no mundo todo devido a isso.

Cidade foi a primeira do Brasil e uma das únicas a fechar praticamente tudo, até mercados. Foto: Tetê Viviani/Prefeitura de Araraquara
Cidade foi a primeira do Brasil e uma das únicas a fechar praticamente tudo, até mercados. Foto: Tetê Viviani/Prefeitura de Araraquara

Os números demonstraram o impacto positivo da medida extrema. Em fevereiro de 2021, Araraquara registrou 51 óbitos por COVID-19, sendo 21 apenas na semana do lockdown. Para comparação, no ano de 2020 inteiro, morreram 92 pessoas na cidade pela doença. 

O colapso do sistema de saúde era iminente diante de 100% de ocupação dos leitos hospitalares. Após o lockdown, os casos de COVID-19 caíram sensivelmente. 

Na semana epidemiológica imediatamente anterior ao lockdown (15 a 21 de fevereiro), houve 1.327 novos casos; na semana de 22 a 28 de fevereiro, 1.120 casos; e de 1º a 7 de março registraram-se 945 casos — uma queda de 28,7% em relação ao início do confinamento.

A medida corajosa e controversa do prefeito da época, Edinho Silva (PT) dividiu opiniões no país, mas serviu de referência para debates sobre políticas públicas de saúde durante a pandemia. 

O modelo de Araraquara foi estudado por especialistas e gestores como exemplo de ação efetiva no controle da disseminação viral.

4. Lula em Araraquara no dia dos atentados de 8 de Janeiro (2023)

Em 8 de janeiro de 2023, enquanto apoiadores radicalizados de Jair Bolsonaro invadiam e depredavam as sedes dos Três Poderes em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava em Araraquara. 

Lula havia viajado ao interior paulista para avaliar os danos causados por enchentes que atingiram a cidade no final de 2022. Uma tragédia em particular chocou a população: uma família de seis pessoas foi tragada por uma cratera que se abriu na Avenida 36, resultando na morte de todos; o último corpo, de uma menina, só foi encontrado no início de janeiro.

Enquanto estava na Prefeitura de Araraquara, o presidente recebeu as primeiras notícias da invasão em Brasília. Lula relatou posteriormente que assistiu, pela TV no gabinete do prefeito Edinho Silva, às cenas chocantes dos vândalos destruindo o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. 

Imediatamente, dali mesmo em Araraquara, Lula assinou o decreto de intervenção federal na segurança do Distrito Federal, tomando as rédeas para reestabelecer a ordem em Brasília. Foi em Araraquara também que Lula decidiu não decretar uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem). 

A coincidência de Lula estar longe da capital, justamente em Araraquara, no dia dos ataques golpistas, tornou-se um detalhe marcante daquele episódio histórico. 

Do interior de São Paulo, o presidente comandou as primeiras respostas à afronta à democracia brasileira. Naquele dia, Araraquara figurou simbolicamente como sede provisória do poder executivo nacional.

De novo, um fato que passa por Araraquara pode culminar na prisão de um presidente já que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF por crimes relacionados a tentativa de golpe de estado que tiveram como ponto final o 8 de janeiro.

 

5. O gênese do modernismo: Mário de Andrade e Macunaíma (1927)

Araraquara tem um lugar de destaque na história da literatura brasileira por ter sido o berço de uma das obras mais importantes do Modernismo: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. 

O escritor Mário de Andrade (1893–1945), um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, escreveu o romance em Araraquara, na Chácara Sapucaia (hoje um centro cultural), que pertencia ao seu tio-avô, Pio Lourenço Correa.

Mário de Andrade passou um período de descanso na chácara entre dezembro de 1926 e janeiro de 1927, e foi nesse retiro que a obra-prima foi concebida e escrita em apenas seis dias, segundo o próprio autor, embora a revisão tenha levado mais tempo. 

A obra, publicada em 1928, é um marco por sua linguagem inovadora e por sintetizar a busca pela identidade nacional, misturando lendas indígenas, folclore e a realidade brasileira. 

A Chácara Sapucaia, em Araraquara, é, portanto, o local de nascimento físico de um dos maiores mitos literários do Brasil.

Macunaíma foi idealizada na Chácara Sapucaia, em Araraquara
Macunaíma foi idealizada na Chácara Sapucaia, em Araraquara

 

6. O Cientista que fez Chover: Frederico de Marco (1940)

Araraquara foi palco de um feito científico inédito no Brasil: a primeira tentativa bem-sucedida de provocar chuva artificial. O responsável pela façanha foi o cirurgião, cientista e inventor Frederico de Marco (1885–1960), que realizou a experiência por volta de 1940.

A técnica de De Marco, que ele desenvolveu e patenteou, consistia em lançar substâncias aglutinadoras (como cloreto de sódio) por meio de um avião sobre as nuvens, estimulando a formação de gotas de chuva. 

A experiência, realizada em um dia ensolarado, foi noticiada na época e demonstrou o pioneirismo científico que florescia no interior paulista. 

Frederico de Marco fez chover em uma tarde ensolarada de 1940
Frederico de Marco fez chover em uma tarde ensolarada de 1940

Embora a técnica tenha evoluído, o princípio da semeadura de nuvens de Frederico de Marco, realizado em Araraquara, é um precursor das tecnologias modernas de controle climático, sendo comparado a métodos usados em locais como Dubai, por exemplo.

O feito histórico está eternizado em uma placa de bronze no Aeroporto Estadual de Araraquara Bartolomeu de Gusmão, no pequeno monumento, idealizado pelo artista plástico Sidney Rodrigues, junto também com a relação das todas as pessoas que acompanharam o feito. Está escrito: “Perpetua, este marco, como testemunho do povo araraquarense às primeiras experiências de chuva artificial realizadas em 1940 pelo professor doutor Frederico de Marco que, com avião pilotado por Edmundo Lupo, entraram nas nuvens provocando chuva. A fim de firmar a prioridade à posteridade o município de Araraquara colocou no lugar do acontecimento este símbolo histórico”.

 

7. Jean-Paul Sartre e a conferência que abalou o Brasil (1960)

Em 2 de setembro de 1960, Araraquara viveu um dos capítulos mais inusitados de sua história intelectual: a visita do filósofo francês Jean-Paul Sartre e de sua companheira, a escritora Simone de Beauvoir. 

Sartre veio ao Brasil a convite do escritor Jorge Amado e, após passar por Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Brasília, aceitou um pedido especial para proferir uma palestra em Araraquara – a única cidade do interior paulista em seu roteiro. O evento ocorreu na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (atual Casa da Cultura), diante de aproximadamente 100 pessoas.

A conferência de Sartre atraiu personalidades de peso, entre elas Ruth Cardoso (socióloga e futura primeira-dama do Brasil) que também é araraquarense, Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e futuro presidente da República), Bento Prado Jr. (filósofo da USP) e Antonio Candido (crítico literário). 

Simone de Beavouir (esqueda), Sartre (centro) e Jorge Amado (direita) na FFCL (acervo FCLAr)
Simone de Beavouir (esqueda), Sartre (centro) e Jorge Amado (direita) na FFCL (acervo FCLAr)

A presença de Sartre no interior do Brasil, em pleno contexto da Guerra Fria, causou furor. O filósofo havia apoiado a revolução cubana e criticava o colonialismo francês na Argélia, posições que desagradavam setores conservadores.

O motivo da visita de Sartre à cidade também é curioso. Meses antes, durante um congresso em Recife, o professor araraquarense Fausto Castilho enviara por escrito uma pergunta a Sartre sobre a conciliação entre existencialismo e marxismo. 

Sartre respondeu que só poderia esclarecer devidamente em pessoa. Assim nasceu o convite para Araraquara, resultando na palestra que mais tarde daria título ao livro "Sartre no Brasil: A Conferência de Araraquara". A conferência consolidou a fama da cidade como polo intelectual de vanguarda.

Como nota pitoresca, no mesmo dia da visita de Sartre, Araraquara sediou uma partida de futebol pelo Campeonato Paulista: a equipe local, a Ferroviária, enfrentou o Santos de Pelé. Talvez energizada pelo clima cultural do dia, a Ferroviária surpreendeu e venceu por 4 a 0.

8. O cronista da perplexidade: Ignácio de Loyola Brandão

Ignácio de Loyola Brandão, um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, nasceu em Araraquara em 31 de julho de 1936. 

Filho de um ferroviário e de uma dona de casa, Loyola desde cedo demonstrou vocação para as letras. Seu primeiro trabalho como jornalista, ainda informal, foi uma crítica de cinema no jornal Folha Ferroviária, em 1952. De Araraquara, partiu para construir uma carreira brilhante que já ultrapassa seis décadas, com cerca de 50 livros publicados.

Entre seus romances mais conhecidos estão Bebel que a Cidade Comeu, Zero, Não Verás País Nenhum, O Beijo Não Vem da Boca, Dentes ao Sol e O Anônimo Célebre. 

Ignácio de Loyola Brandão. Foto: Reprodução Instagram
Ignácio de Loyola Brandão. Foto: Reprodução Instagram

"Zero" (1975) talvez seja sua obra mais emblemática: escrito sob a ditadura, o romance teve de ser publicado primeiro na Itália (1974) depois que editoras brasileiras recusaram o original. Em 1976, a censura do regime militar proibiu oficialmente Zero no Brasil, sob a alegação de conter material "atentatório à moral e aos bons costumes". A proibição transformou o livro em símbolo da resistência cultural contra a repressão.

Loyola recebeu diversos prêmios literários, incluindo cinco Jabutis (2000, 2008, 2015, 2017 e 2021) e o Prêmio Machado de Assis (2016) pelo conjunto da obra. 

Em 2019, tomou posse na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 11, que já pertencera ao poeta modernista Menotti Del Picchia. Araraquara o homenageou com o projeto "Caminhos de Loyola", que espalha placas pela cidade marcando locais associados à vida e obra do escritor.

9. O revolucionário do teatro: Zé Celso Martinez Corrêa

José Celso Martinez Corrêa, mundialmente conhecido como Zé Celso, nasceu em Araraquara em 30 de março de 1937. Ainda jovem, mudou-se para São Paulo e ingressou na tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP) em 1955 – curso que nunca chegaria a concluir, pois seu destino estava nos palcos. Foi na universidade que Zé Celso fundou, em 1958, o histórico Teatro Oficina, ao lado de colegas como Renato Borghi e Amir Haddad.

Zé Celso tornou-se um dos diretores e dramaturgos mais importantes e transgressores do teatro brasileiro. Em 1967, sua montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, foi um dos marcos do Tropicalismo e revolucionou a estética teatral do país, com linguagem pop, deboche político e interação anárquica com o público. 

No ano seguinte, Zé Celso e o elenco do Teatro Oficina enfrentaram a violência da ditadura: durante uma apresentação da peça Roda Viva (texto de Chico Buarque) em São Paulo, em julho de 1968, o teatro foi invadido por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que destruíram cenários e espancaram atores – entre eles a atriz Marília Pêra.

Zé Celso no Teatro Oficina de São Paulo. Foto: Reprodução Instagram
Zé Celso no Teatro Oficina de São Paulo. Foto: Reprodução Instagram

Perseguido, Zé Celso exilou-se após 1974, passando por Portugal (onde filmou O Parto durante a Revolução dos Cravos) e Moçambique (onde registrou a independência do país africano em 1975). 

Retornou ao Brasil em 1978, reabrindo o Teatro Oficina – agora rebatizado Oficina Uzyna Uzona – como um espaço de vanguarda contínua. 

Ele faleceu tragicamente em julho de 2023, aos 86 anos, após um incêndio acidental em seu apartamento em São Paulo. Deixou um legado único de irreverência, criatividade e luta política no teatro.

10. A voz da representatividade: Liniker

Liniker de Barros Ferreira Campos nasceu em Araraquara em 3 de julho de 1995. Cantora, compositora, atriz e artista visual, Liniker despontou na música brasileira em meados da década de 2010 trazendo não apenas talento musical, mas também uma expressão inédita de representatividade. 

Seu prenome é uma homenagem inusitada ao jogador de futebol inglês Gary Lineker (artilheiro da Copa de 1986), mas foi ouvindo samba, soul e MPB em casa que ela formou sua identidade artística.

Liniker ganhou projeção nacional à frente da banda Liniker e os Caramelows, fundada em 2015 em Araraquara. Com os Caramelows, lançou o EP Cru (2015) e o aclamado álbum Remonta (2016), que trouxe o sucesso "Zero" – música cujo videoclipe viralizou e se tornou um hino soul contemporâneo. 

Em 2020, já reconhecida como uma potência vocal e performática, Liniker partiu para carreira solo, coincidentemente no mesmo período em que assumiu publicamente sua identidade como mulher trans.

Musicalmente, Liniker continuou a brilhar. Em 2021, lançou seu primeiro álbum solo, Indigo Borboleta Anil, e entrou para a história ao vencer, em 2022, o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira – tornando-se a primeira artista transgênero a conquistar um Grammy Latino. 

Na mesma edição, ganhou também o prêmio de Melhor Canção em Língua Portuguesa por "Baby 95". Em 2023, recebeu outra honraria inédita: tornou-se a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na recém-criada Academia Brasileira de Cultura.
O sucesso de Liniker atingiu um novo patamar em 2024. Com o álbum Caju (lançado em agosto), ela se firmou de vez no mainstream: no Prêmio Multishow 2024, conquistou quatro troféus (Capa do Ano, Música MPB do Ano, Álbum do Ano e Artista do Ano). 

Ao mesmo tempo, Caju rendeu a Liniker sete indicações ao Grammy Latino 2025 – incluindo nas categorias principais de Álbum do Ano, Gravação do Ano e Canção do Ano, feito que a colocou como a brasileira mais indicada daquela edição.

CLIQUE AQUI PARA A CONTINUAÇÃO - PARTE 2

CLIQUE AQUI PARA A CONTINUAÇÃO - PARTE 3

CompartilheWhatsAppFacebookXTelegramE-mail

Leia também

Comentários

O comentário passa por aprovação antes de aparecer. Guardamos apenas o nome e o texto que você escrever.

Publicidade
MRV — Residencial Flora