ESQUECIDO NO TEMPO
Cemitério de crianças de Bueno de Andrada está desaparecendo aos poucos
Local guarda 387 sepulturas, mas abandono apaga memória de tragédia que marcou Araraquara no início do século 20

Quem passa pela Estrada Municipal Graciano da Ressurreição Affonso, no distrito de Bueno de Andrada, dificilmente imagina que ali, em meio a propriedades rurais e canaviais, existe um cemitério com quase 100 anos de história. O terreno cercado, com arame e uma grade capenga, sem qualquer identificação visível da estrada, guarda os restos mortais e a memória de pelo menos 387 pessoas — a maioria delas crianças que não resistiram às epidemias e à falta de assistência médica nas primeiras décadas do século passado.
O Cemitério Itaquerê, nome oficial do espaço, não recebe sepultamentos desde 1967. E agora, quase seis décadas depois do último enterro, o local vive um processo silencioso de apagamento. A cerca deteriorada, o cruzeiro solitário no centro do terreno, com uma única cruz ao do lado esquerdo e a ausência total de qualquer referência às sepulturas transformaram o que era um registro vivo da história local em um campo vazio que poucos sabem que existe.
Ao entrar no cemitério — o que exige transpor um portão que já não existe mais, o visitante encontra apenas o cruzeiro de granito preto, já bastante danificado, e algumas imagens de santos deixadas por praticantes de religiões afro-brasileiras que utilizam o espaço para celebrações. Não há lápides, há uma única cruz individual porém, não há nenhuma indicação de onde estão as quase 400 pessoas sepultadas. A memória está literalmente enterrada junto aos corpos.

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Uma história que o tempo está apagando
O cenário atual contrasta brutalmente com o papel que o cemitério desempenhou na comunidade durante mais de quatro décadas. O primeiro sepultamento registrado no livro oficial, que hoje se encontra no Cemitério São Bento, ocorreu em 5 de dezembro de 1925: um bebê de apenas 42 dias, chamado João. A partir dali, o pequeno terreno ao lado da linha férrea recebeu centenas de corpos, a maioria de crianças vitimadas por doenças que hoje são facilmente tratáveis.
Os números revelam a dimensão da tragédia que marcou aquele período. Dos 387 mortos registrados no livro do cemitério, 288 tinham menos de 18 anos — um índice de 87% de mortalidade infantojuvenil.
Crianças com menos de um ano representam a maioria absoluta: 154 sepultamentos, ou 46,8% do total. Foram também enterrados 84 fetos com mais de sete meses de gestação, o que corresponde a 25,5% dos registros.
Por muito tempo, o local foi conhecido pela população como Cemitério de Crianças — denominação carregada de tristeza que refletia a realidade brutal daqueles anos. A ausência de postos de saúde no distrito e em Araraquara, a distância do centro da cidade e a precariedade dos meios de transporte transformavam qualquer doença em sentença de morte, especialmente para os mais novos.

A realidade das colônias agrícolas
Para compreender os números alarmantes, é preciso entender o contexto em que viviam os moradores de Bueno de Andrada e das fazendas ao redor. O distrito nasceu a partir da Estação Ferroviária Itaquerê, inaugurada em 1º de outubro de 1898, no quilômetro 25,4 da linha tronco da Estrada de Ferro Araraquara. O pequeno povoado que se formou ao redor dos trilhos atendia principalmente trabalhadores das colônias agrícolas da região.
Sem assistência médica adequada e relativamente isolados, os colonos dependiam de remédios caseiros e da sabedoria popular para tratar enfermidades. Doenças como febre amarela, bronquite, pneumonia e toxicose ceifavam vidas antes que as famílias conseguissem buscar ajuda na cidade. Muitos atestados de óbito da época trazem a sigla S.A.M. — Sem Assistência Médica —, indicando que as mortes ocorriam sem qualquer acompanhamento profissional.
Essa situação era comum em toda a região naquele período. A mortalidade elevada não era exclusividade de Bueno de Andrada, mas refletia as condições precárias de saúde pública em áreas rurais do interior paulista nas primeiras décadas do século 20.
O ano mais trágico
O pico de mortalidade no Cemitério Itaquerê ocorreu em 1926, quando foram registrados 30 sepultamentos. Desse total, 15 eram crianças menores de um ano, além de seis fetos e três crianças entre um e cinco anos. Um único ano concentrou quase 8% de todas as mortes registradas ao longo de mais de quatro décadas de funcionamento do cemitério.
A situação começou a mudar na década de 1930, quando os automóveis se tornaram mais comuns e o acesso a Araraquara ficou mais fácil. A possibilidade de chegar rapidamente ao centro da cidade para buscar atendimento médico reduziu drasticamente o número de mortes evitáveis. Em 1938, pela primeira vez, o cemitério registrou menos de dez sepultamentos no ano.
A partir daí, o Cemitério Itaquerê foi gradualmente perdendo sua função. Em 1947, apenas duas pessoas foram enterradas ali. Entre 1952 e 1954, não houve nenhum sepultamento. O último registro é de 18 de julho de 1967, quando Sandra Regina Lourenço foi sepultada no local — encerrando 42 anos de história.
A memória roubada
O processo de apagamento que hoje ameaça a história do cemitério teve um marco decisivo em 1994. Um ato de vandalismo destruiu o que restava de referência visual sobre as sepulturas: mais de 300 cruzes que demarcavam os túmulos foram furtadas e, segundo relatos de moradores, vendidas como sucata.
A situação do Cemitério de Bueno de Andrada não é única no Brasil. Cemitérios históricos abandonados representam um problema recorrente em diversos estados, especialmente em áreas rurais onde as comunidades diminuíram ou desapareceram ao longo do tempo. A falta de manutenção, o vandalismo e o desinteresse do poder público transformam espaços de memória em terrenos baldios.
Diferentemente de grandes necrópoles urbanas — como o Cemitério da Consolação, em São Paulo, ou o São João Batista, no Rio de Janeiro, que recebem visitas guiadas e são tratados como patrimônio cultural —, cemitérios rurais como o Itaquerê carecem de qualquer reconhecimento oficial. Não há tombamento, não há proteção legal, não há projeto de preservação.
O que resta são os registros documentais. O livro de sepultamentos do Cemitério Itaquerê, que contém a identificação das 387 pessoas enterradas no local, permanece sob guarda da Prefeitura de Araraquara no Cemitério São Bento. Está velho e também em breve pode não resistir ao tempo. Ele é hoje a única prova material de que aquelas vidas existiram e de que aquele terreno abriga muito mais do que um cruzeiro solitário.
Um patrimônio invisível
Bueno de Andrada vive hoje uma realidade completamente diferente daquela dos anos 1920 e 1930. O distrito, que tem cerca de menos de 2 mil habitantes se tornou conhecido por suas famosas coxinhas douradas, eternizadas em crônica do escritor Ignácio de Loyola Brandão em 2001. Festivais gastronômicos como o do Pastel e Caldo de Cana atraem turistas de diversas regiões.
A estação ferroviária, inaugurada em 1898, ganhou melhorias e faz parte de um projeto de turismo que inclui ciclismo e lazer rural. A praça central, a igreja, os bares tradicionais — tudo isso compõe um cenário bucólico que atrai visitantes em busca de tranquilidade e boa comida.
Mas o cemitério permanece invisível. Não faz parte de nenhum roteiro turístico, não recebe visitantes, não conta sua história a ninguém. O terreno está lá, às margens da vicinal, guardando 387 corpos que um dia foram crianças, jovens e adultos desta comunidade. E a cada dia que passa, está mais perto de virar apenas mais um pedaço de terra sem história.
A pergunta que fica é: até quando? A preservação de cemitérios históricos não é apenas uma questão de respeito aos mortos. É uma forma de manter viva a memória coletiva, de entender de onde viemos e quais desafios nossos antepassados enfrentaram.
O Cemitério Itaquerê conta a história de uma época em que morrer era muito mais fácil do que sobreviver. Apagar essa memória é apagar parte da própria identidade de Bueno de Andrada.
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