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CRUELDADE

Cães são mortos a tiros em Boa Esperança do Sul e revolta moradores

Servidor público denuncia execução de animais comunitários no Clube das Piscinas; caso lembra tragédia do cão Orelha que comoveu o Brasil.

Geisa Ferreira da Silva|· 7 min de leitura
Cães são mortos a tiros em Boa Esperança do Sul e revolta moradores
Cães comunitários vivem sob ameaça em Boa Esperança do Sul após ataques a tiros que já mataram pelo menos dois animais.

Uma denúncia grave e revoltante revoltou moradores da cidade de Boa Esperança do Sul, cidade que fica na região Central do Estado de São Paulo. Cães de rua, que vivem nas dependências do Clube das Piscinas, estão sendo assassinados a tiros por pessoa ou pessoas ainda não identificadas. A barbárie foi denunciada por um servidor público que trabalha no local, que gravou imagens mostrando os ferimentos em um dos animais vítimas da violência.

"Ele atirou no pescoço do cachorro de um lado e saiu do outro", relatou o servidor em vídeo que circula nas redes sociais, demonstrando indignação e horror diante da cena. As imagens mostram claramente o ferimento de bala perfurante no animal, que luta pela sobrevivência apesar do ataque covarde. 

O servidor público explicou que os cães são animais comunitários cuidados por funcionários do clube e moradores da região. "A gente cuida das criações, dos animais que aparecem aqui, são animais de rua e a gente se depara com essa situação. Isso não pode acontecer", desabafou com a voz embargada pela emoção e pela revolta.

A reportagem conversou com o prefeito Manoel de Souza, de Boa Esperança do Sul, que tomou conhecimento do fato e ficou revoltado. "Eu estou indo lá agora, cuidar para que os outros cães não sofram e vamos à Polícia cobrar uma investigação, prisão e punição. Isso não pode ficar impune", disse ele. 

 

 

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Série de ataques revela padrão criminoso

A situação é ainda mais grave do que aparenta. Segundo o servidor, este já é o segundo cão encontrado morto nas mesmas circunstâncias, sugerindo que há um padrão de comportamento criminoso e sistemático. Os ataques não parecem ser aleatórios ou isolados, mas sim ações deliberadas de alguém que tem como alvo específico os animais que vivem no local.

Além da violência contra os animais, o Clube das Piscinas tem sido alvo de invasões constantes e vandalismo, que podem estar relacionadas a mesma pessoa. O servidor revelou que já precisou substituir duas portas destruídas por invasores e que vidraças também foram quebradas em diferentes ocasiões. 

Atualmente, existem mais três cães vivendo nas dependências do clube. Moradores e funcionários estão apavorados com a possibilidade de que novos ataques ocorram, deixando esses animais na mesma situação trágica. "São animais comunitários, cuidados pelos moradores e quem trabalha ali. São carinhosos, todo mundo gosta", explicou uma moradora que compartilhou o vídeo do servidor em suas redes sociais.

Caso do cão Orelha expõe epidemia de violência

O caso de Boa Esperança do Sul ganha contornos ainda mais dramáticos quando observado no contexto nacional de violência contra animais. O recente caso do cão Orelha, em Santa Catarina, mobilizou o Brasil inteiro e expôs uma realidade chocante: a crueldade contra animais comunitários tornou-se uma epidemia silenciosa que precisa ser combatida com urgência.

Orelha era um cão comunitário de aproximadamente 10 anos que vivia na Praia Brava, em Florianópolis. Durante cerca de uma década, o animal se tornou parte integral da comunidade, sendo querido e cuidado por moradores e frequentadores da região. No dia 4 de janeiro de 2026, Orelha foi vítima de agressões brutais cometidas por um grupo de quatro adolescentes.

O cão foi encontrado agonizando após receber pauladas violentas na cabeça e em outras partes do corpo. Moradores imediatamente socorreram o animal e o levaram para uma clínica veterinária, mas os ferimentos eram gravíssimos. O laudo médico revelou lesão contundente craniana compatível com pancadas repetidas. No dia 5 de janeiro, devido à gravidade do quadro e ao sofrimento extremo, os veterinários precisaram submeter Orelha à eutanásia.

Comoção nacional e mudanças legislativas

A morte de Orelha provocou uma onda de indignação que atravessou todo o país. A hashtag #JustiçaPorOrelha reuniu milhares de publicações nas redes sociais, transformando o caso em símbolo da luta contra a crueldade animal. Manifestações pacíficas foram realizadas em Florianópolis, com moradores portando cartazes e exigindo justiça.

A comoção foi tão profunda que figuras políticas de diferentes espectros ideológicos se manifestaram publicamente. A primeira-dama Janja Lula da Silva classificou o caso como um alerta sobre a banalização da violência e a impunidade. O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, afirmou que a sociedade não aceita mais a crueldade contra animais e garantiu que a lei seria cumprida rigorosamente.

A repercussão do caso levou à aprovação da Lei nº 19.726 em Santa Catarina, que institui a Política Estadual de Proteção e Reconhecimento do Cão e Gato Comunitário. A legislação garante proteção específica para esses animais, proibindo sua remoção, restrição de movimento ou transferência sem justificativa técnica e sem comunicação aos cuidadores identificados.

A Polícia Civil de Santa Catarina realizou operação com mandados de busca e apreensão nas residências dos adolescentes suspeitos. As investigações revelaram que o mesmo grupo teria atacado outro cão comunitário, conhecido como Caramelo, que conseguiu escapar e foi posteriormente adotado pelo delegado-geral da Polícia Civil do estado. Familiares dos adolescentes foram indiciados por tentativa de coação de testemunhas durante a investigação.

Maus-tratos a animais: crime com pena de até 5 anos

A crueldade contra animais é crime previsto no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98). Quando se trata especificamente de cães e gatos, a legislação brasileira se tornou ainda mais rigorosa desde 2020, estabelecendo penas de reclusão de dois a cinco anos para quem praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar esses animais.

A Lei Sansão, como ficou conhecida a legislação que endureceu as penas para crimes contra cães e gatos, representa um avanço significativo na proteção dos direitos animais no Brasil. Além da reclusão, o criminoso pode receber multa e ter sua pena aumentada se o crime resultar na morte do animal, como ocorreu em Boa Esperança do Sul.

Especialistas em direito ambiental ressaltam que a violência contra animais não deve ser tratada como um crime menor. Estudos científicos demonstram que pessoas que cometem crueldade contra animais frequentemente apresentam tendências para violência contra seres humanos. A escalada da violência começa muitas vezes com atos contra animais indefesos e pode evoluir para crimes mais graves.

A urgência de ações efetivas em Boa Esperança do Sul

O paralelo entre os casos de Orelha e dos cães de Boa Esperança do Sul é assustador e inaceitável. Em ambas as situações, animais comunitários que eram cuidados e amados por suas comunidades foram vítimas de violência gratuita e covarde. A diferença é que em Boa Esperança do Sul, aparentemente, há uso de arma de fogo, o que torna o crime ainda mais grave.

É fundamental que as autoridades municipais e estaduais ajam com rapidez e firmeza. A Polícia Civil precisa abrir investigação imediata para identificar o autor ou autores dos disparos. O Ministério Público deve acompanhar o caso de perto, garantindo que não haja impunidade.

Sociedade não pode mais tolerar a barbárie

A crueldade contra animais não é um crime menor que pode ser tratado com negligência pelas autoridades. É uma manifestação de desumanidade que precisa ser combatida com todo o rigor da lei. Pessoas capazes de atirar friamente em cães indefesos representam perigo para toda a sociedade.

O Brasil avançou significativamente na legislação de proteção animal nas últimas décadas, mas as leis só têm valor se forem efetivamente aplicadas. A impunidade alimenta a violência e encoraja novos criminosos. É fundamental que os responsáveis pelos ataques em Boa Esperança do Sul sejam identificados, processados e punidos exemplarmente.

Os três cães que ainda vivem no Clube das Piscinas merecem segurança e dignidade. A comunidade de Boa Esperança do Sul precisa se mobilizar para protegê-los e garantir que nenhum outro animal seja vítima dessa barbárie inaceitável. O silêncio e a omissão são cúmplices da crueldade.

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