JUSTIÇA POR MARIA APARECIDA
Passeata neste domingo pede o fim da violência contra mulheres em Boa Esperança
Ato político marca despedida de Maria Aparecida, assassinada ao separar uma briga

Uma passeata contra o feminicídio mobiliza Boa Esperança do Sul neste domingo (1º) em manifestação carregada de dor, revolta e esperança por dias mais seguros para as mulheres da região.
O ato político, convocado por movimentos sociais e pela comunidade local, vai acontecer logo após o sepultamento de Maria Aparecida Siqueira Ferraz, de 56 anos, que não resistiu aos ferimentos após ser agredida ao tentar impedir uma cena de violência doméstica no último domingo (25). A concentração está marcada para as 9h, com saída do cemitério municipal.
O velório de Maria Aparecida aconteceu durante toda a tarde e noite deste sábado (31) no Velório Municipal de Boa Esperança do Sul, vai se estender por toda noite até a manhã de domingo.
O clima era de profunda comoção entre familiares, amigos e moradores que acompanharam de perto a luta da vítima pela vida durante seis dias na Santa Casa de Araraquara. A despedida oficial acontece às 9h deste domingo, antes do cortejo fúnebre que será seguido pela manifestação popular contra a violência de gênero.
Karol Trindade foi uma das moradoras que convocou a população através das redes sociais com mensagens contundentes sobre a necessidade de união comunitária contra o feminicídio.
"Cada mancha de sangue que vemos é uma vida interrompida. Cada nome que lembramos é uma história que não teve final feliz. Marchamos por elas. Marchamos para que nenhuma outra seja a próxima", declarou em publicação que viralizou entre moradores da cidade e região.
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Crime chocou a comunidade regional
O crime que vitimou Maria Aparecida aconteceu na tarde do último domingo (25), na Rua Vitório Govoni, no Jardim Maria Tannuri, bairro residencial de Boa Esperança do Sul. Segundo o boletim de ocorrência registrado pela Polícia Civil, a violência teve início quando o agressor, Luiz Fernando Corrêa da Costa, de 30 anos, conhecido como "Zoi de Gato", iniciou uma discussão violenta com sua companheira, de 31 anos.
O caso apresenta elementos típicos da violência doméstica que assola o Brasil: o agressor estaria embriagado e teria impedido a companheira de sair de casa. Segundo o relatório policial, o homem partiu para agressões físicas enquanto a mulher segurava o filho no colo. Durante a confusão, a criança caiu e precisou de atendimento médico, embora não tenha apresentado lesões aparentes conforme registro policial.
Maria Aparecida, que era vizinha do casal, ouviu os gritos desesperados e tomou a atitude que custaria sua vida: tentou intervir para cessar a violência. O agressor desferiu um soco na cabeça da mulher, que caiu no chão e sofreu traumatismo craniano grave. Um adolescente que presenciou a cena também foi agredido ao tentar defender a mãe e a avó, configurando um episódio de múltiplas vítimas da brutalidade masculina.
Agressor segue foragido e é procurado pela polícia
Luiz Fernando fugiu de bicicleta antes da chegada da Polícia Militar e permanece foragido até este sábado. O homem possui passagens policiais anteriores e estava sendo investigado por tráfico de drogas na região. A companheira do agressor solicitou e obteve medida protetiva de urgência, um dispositivo legal previsto na Lei Maria da Penha para proteger mulheres em situação de risco.
O caso, que inicialmente foi registrado como violência doméstica, ameaça, injúria e lesão corporal, foi reclassificado como homicídio após a morte de Maria Aparecida na manhã deste sábado.
A Polícia Civil informou que solicitará à Justiça a prisão preventiva do agressor, considerado de alta periculosidade pela combinação de violência extrema, histórico criminal e fuga deliberada das autoridades.

Passeata reforça luta contra violência de gênero
A manifestação convocada para este domingo carrega um simbolismo profundo para Boa Esperança do Sul. Os organizadores pedem que todos os participantes vistam roupa branca manchada de vermelho, simbolizando o sangue de mulheres que tiveram seus sonhos arrancados pela violência machista. "Que nosso corpo fale o que muitas não puderam mais dizer", afirmou Karol Trindade na convocação.
O movimento ganhou força nas redes sociais e deve reunir dezenas de pessoas em um ato silencioso mas extremamente poderoso. "Nossa presença é um grito. Nosso silêncio não é mais opção", destacou a organizadora, enfatizando que a passividade diante da violência contra a mulher equivale a cumplicidade com os agressores.
A passeata pretende percorrer as principais ruas da cidade, passando pelo local onde aconteceu a agressão, em um trajeto simbólico que busca conscientizar a população sobre a gravidade do feminicídio e a necessidade de denúncias imediatas em casos de violência doméstica.
Brasil enfrenta epidemia de feminicídio
Os números nacionais revelam uma realidade alarmante. Segundo o Mapa da Segurança Pública de 2025, divulgado pelo Governo Federal, o Brasil registrou 1.459 feminicídios em 2024, o que representa quatro mulheres assassinadas por dia pela simples condição de serem mulheres. A taxa se manteve estável em 1,34 caso a cada 100 mil mulheres pelo segundo ano consecutivo.
O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apresenta dados ainda mais preocupantes: em 2024, foram registrados 1.492 feminicídios, batendo o recorde da série histórica iniciada em 2015, quando o crime foi tipificado no Brasil. Além disso, as tentativas de feminicídio explodiram 19% no último ano, com 3.870 casos em que mulheres sobreviveram às agressões.
O perfil das vítimas é consistente em todo território nacional: 63,6% são mulheres negras, 70,5% têm entre 18 e 44 anos, e 64,3% dos crimes acontecem dentro da própria casa da vítima. Em aproximadamente 80% dos casos, o agressor é o companheiro ou ex-companheiro, e quase a totalidade (97%) dos agressores é do sexo masculino.
São Paulo lidera casos na região Sudeste
No estado de São Paulo, a situação também preocupa as autoridades. Segundo levantamento do Monitor de Feminicídios no Brasil, São Paulo registrou aumento significativo de casos, passando de 101 feminicídios em 2023 para 132 em 2024. A capital paulista sozinha viu os números saltarem de 43 para 53 casos, elevação de 23,3% em apenas um ano.
O interior paulista, onde está localizada Boa Esperança do Sul, registrou 114 casos de feminicídio em 2024, conforme dados do Instituto Sou da Paz. A região concentra problemas estruturais que facilitam a violência contra mulheres, incluindo dependência econômica, isolamento geográfico em áreas rurais e cultura patriarcal ainda fortemente enraizada.
As armas brancas, como facas e objetos perfurantes, continuam sendo os instrumentos mais utilizados nos feminicídios, presentes em 48,4% dos casos. A residência das vítimas permanece como o local mais perigoso para as mulheres brasileiras, concentrando seis em cada dez casos de violência doméstica registrados no estado de São Paulo.
Prefeitura lamenta e cobra justiça
Em nota oficial divulgada neste sábado, a Prefeitura de Boa Esperança do Sul manifestou profundo pesar pelo falecimento de Maria Aparecida e classificou o crime como feminicídio.
"A perda de Maria Aparecida representa não apenas uma dor imensurável para seus familiares e amigos, mas também um alerta grave para toda a sociedade sobre a violência que continua vitimando mulheres", afirmou o comunicado oficial.
A administração municipal se solidarizou com os familiares e expressou indignação diante de qualquer forma de violência contra a mulher, reafirmando o compromisso com a defesa da vida, da dignidade e com o fortalecimento das políticas públicas de prevenção e enfrentamento à violência de gênero no município.
"Que a justiça seja feita. Que esse crime não fique impune. Que nenhuma outra mulher tenha sua vida interrompida pela agressão. Feminicídio não é tragédia. É crime", concluiu a nota da prefeitura, ecoando o sentimento de revolta que tomou conta da população local.
Como denunciar violência doméstica
As autoridades reforçam que qualquer pessoa pode e deve denunciar casos de violência doméstica. O número 190 da Polícia Militar atende 24 horas por dia e deve ser acionado em situações de emergência. O disque-denúncia 180 é específico para casos de violência contra a mulher e funciona em todo território nacional.
Em Boa Esperança do Sul, a população pode procurar a Delegacia de Polícia local para registrar boletins de ocorrência e solicitar medidas protetivas de urgência. A Patrulha Maria da Penha, programa da Polícia Militar, realiza rondas preventivas nas residências de mulheres que possuem medidas protetivas vigentes.
A passeata deste domingo representa mais um capítulo na luta histórica das mulheres brasileiras por segurança e dignidade. Maria Aparecida será lembrada não apenas como vítima, mas como símbolo da coragem feminina ao enfrentar a violência masculina, mesmo sabendo dos riscos. "Venha por quem não pode mais vir. Venha por justiça. Venha por todas nós", convocou Karol Trindade aos moradores de Boa Esperança do Sul e região.
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