Escândalo do Banco Master
Exclusivo: advogado de Vorcaro é transferido para Penitenciária de Araraquara
Apuração do Araraquara Agora revela transferência sigilosa de Daniel Monteiro à penitenciária da cidade em meio ao colapso da delação de Vorcaro

O advogado Daniel Monteiro, apontado pela Polícia Federal como peça central do esquema bilionário investigado no chamado caso Banco Master, foi transferido na tarde de ontem para a Penitenciária Regional de Araraquara.
A informação é uma apuração exclusiva do Araraquara Agora, através do repórter Flávio Fernandes e confirmada junto a fontes ouvidas pela reportagem. Ainda segundo o apurado, o advogado chegou na tarde desta quarta-feira (20), na unidade e está em uma cela individual, separado do convívio com outros detentos.
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Apenas policiais penais e os advogados podem ter acesso a ele e inclusive mais câmeras de segurança, estão sendo instaladas da Penitenciária. A movimentação ocorreu sob total sigilo até então, Monteiro estava custodiado na superintendência da Polícia Federal em São Paulo, na capital paulista, onde permanecia desde o dia 16 de abril, quando foi preso durante a quarta fase da Operação Compliance Zero.
A escolha de uma unidade do interior paulista, distante do epicentro político e midiático do caso, em Brasília e São Paulo, chamou a atenção de fontes ligadas à investigação. “É algum sinal da PF, que a gente não sabe. Esse tipo de procedimento não é comum”, disse a fonte.
Segundo apurou o portal, a transferência pode ter relação direta com o momento mais delicado vivido pela defesa do empresário. Vorcaro, dono do Banco Master é o principal alvo da operação.
A proximidade temporal entre os dois fatos, a remoção do advogado e o revés na negociação de Vorcaro com a Justiça, é vista com atenção por quem acompanha o desdobramento das apurações.
A DELAÇÃO DE VORCARO QUE TRAVOU
O contexto que cerca a chegada de Monteiro a Araraquara não é casual. Na quarta-feira (20), a Polícia Federal comunicou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que rejeitou a proposta de delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, por considerar que as informações apresentadas não eram inéditas e não justificavam a assinatura do acordo.
Preso desde março, Vorcaro começou a negociar um acordo de colaboração em 19 de março e, após cerca de 45 dias de trabalho, sua defesa entregou aos investigadores uma proposta.
O documento, no entanto, frustrou os investigadores. A avaliação foi de que o dono do Banco Master teria omitido fatos e personagens considerados relevantes, além de não admitir integralmente situações que já apareciam em materiais sob análise.
A negociação, contudo, ainda não está sepultada. A Procuradoria-Geral da República decidiu manter as conversas mesmo após a Polícia Federal rejeitar a proposta inicial, e a estratégia da defesa agora é reformular o acordo com a equipe do procurador-geral Paulo Gonet, numa tentativa de evitar o fracasso definitivo da colaboração. Pela legislação brasileira, um acordo de colaboração premiada pode ser firmado apenas com a PGR, sem participação da PF.
Foi justamente após a entrega da proposta considerada insuficiente que a pressão sobre o banqueiro aumentou. A PF deflagrou duas novas fases da Operação Compliance Zero, uma delas contra o senador Ciro Nogueira e outra que resultou na prisão do pai de Vorcaro, Henrique Vorcaro. É nesse cenário de aperto que se insere a figura de Daniel Monteiro, um nome que, para os investigadores, pode conhecer detalhes que o próprio Vorcaro teria preferido não revelar.
QUEM É O ADVOGADO PRESO TRANSFERIDO PARA ARARAQUARA
Daniel Monteiro não é descrito pela investigação como um consultor jurídico comum. Para a Polícia Federal, ele atuava como operador jurídico-financeiro do esquema. Segundo as apurações da PF, Monteiro funcionava como "arquiteto jurídico" da estrutura, tendo facilitado, organizado e providenciado as assinaturas necessárias para legitimar a compra e venda de imóveis que teriam sido oferecidos como vantagem indevida a autoridades. Ele nega.
A investigação aponta que o advogado teria criado um "compliance paralelo", um sistema informal que operava à margem dos controles oficiais de fiscalização. Esse arranjo permitia validar operações por meio de documentos produzidos em série, contratos, extratos, planilhas e procurações, que conferiam aparência regular a carteiras de crédito posteriormente negociadas com o BRB.
O advogado também possuía trânsito institucional relevante, segundo a PF. Em dezembro de 2024, ele recebeu o título de Cidadão Baiano na Assembleia Legislativa, honraria proposta pelo deputado Rosemberg Pinto, do PT, e havia atuado na privatização da Empresa Baiana de Alimentos e na criação do Credcesta, cartão de benefícios que operava sob o Banco Master.
A dimensão financeira atribuída ao advogado também impressiona os investigadores. O Banco Master declarou pagamentos de R$ 109 milhões a empresas ligadas a Daniel Monteiro, cujo telefone e e-mail cadastrados coincidiam com os de seu escritório de advocacia. A apuração ainda indica que investigadores identificaram registros de pagamentos a companhias vinculadas indiretamente ao advogado, administradas por familiares, como irmão e cunhado.
O PARALELO ENTRE ADVOGADO E BANQUEIRO
A defesa de Monteiro rejeita as acusações. O advogado, preso na 4ª fase da Operação Compliance Zero, afirma que não pode ser responsabilizado, sem provas, pelo uso indevido de empresas abertas por ele e diz confiar no esclarecimento dos fatos. Em nota, sua defesa sustenta que a atuação dele sempre se deu de forma estritamente técnica, na condição de advogado do Banco Master e de diversos outros clientes.
A ligação entre os dois nomes, porém, é o ponto que move as apurações. Enquanto Vorcaro tenta, na PGR, reconstruir uma delação que pode aliviar sua situação processual, Monteiro surge como alguém que, segundo os investigadores, deteria conhecimento detalhado da engenharia jurídica das operações.
A coincidência entre a rejeição da proposta de Vorcaro e a discreta remoção do advogado para o interior de São Paulo é, para fontes ouvidas pelo Araraquara Agora, um movimento que merece acompanhamento.
Nenhum dos dois foi condenado. As investigações seguem em curso sob a relatoria do STF, e o que pesa sobre Monteiro até o momento são indícios apontados pela Polícia Federal e descritos em decisão judicial, não uma sentença. A reportagem segue acompanhando os desdobramentos do caso na região.
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