HOMENAGEM | REPARAÇÃO
Ruas de Araraquara passam a homenagear personalidades negras da história da cidade
Antônio Angola, Damião de Souza, Carolina de Nação e outras três personalidades terão seus nomes eternizados em vias do Residencial Alamedas III

A Câmara de Araraquara aprovou, na terça-feira do dia 16 de junho, o Projeto de Lei nº 197/2026, que dá nomes de personalidades negras a seis vias públicas do Residencial Alamedas III. A proposta segue agora para sanção do prefeito. A iniciativa é da Frente Parlamentar Antirracista, formada pelos vereadores Alcindo Sabino (PT), presidente, João Clemente (Progressistas), Filipa Brunelli (PT),Aluisio Boi (MDB), Fabi Virgílio (PT), e Guilherme Bianco (PCdoB).
O objetivo é enfrentar o apagamento histórico da população negra nos espaços públicos da cidade.
O projeto foi aprovado na forma do Substitutivo nº 1, que ajustou descrições e nomenclaturas. Entre as mudanças, a Rua 8 passou a ser chamada de Avenida Damião de Souza, e a homenagem a Negro Veríssimo foi ampliada para incluir também o acesso de saída do loteamento.
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Reparação histórica em Araraquara
A proposta parte da crítica à ausência de homenagens a pessoas negras na memória oficial do município. A justificativa aponta que a medida busca reconhecer a contribuição e o sofrimento da população negra escravizada em Araraquara, especialmente no fim do século XIX.
Durante a discussão, vereadores defenderam que nomear ruas também é uma forma de declarar quais histórias a cidade escolhe preservar. João Clemente afirmou que “homenagem é gesto político” e que a escolha de quem será lembrado revela os valores de uma sociedade. Ele pontuou que "representatividade, produz pertencimento" e criticou a cidade como sendo, até então, racista institucionalmente
"Enquanto tiver pessoas comprometidas a história vai ser recontada... liberdade liberdade abre as asas sobre nós e que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz"

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A vereadora Filipa Bruneli afirmou que o projeto representa uma reparação histórica e defendeu que o enfrentamento das desigualdades passa pelo reconhecimento das questões raciais. Segundo ela, "o debate de classe só avança quando a gente reconhece gênero e raça".
"O que nós estamos fazendo hoje é uma reparação histórica para devolver esse lugar para um povo que foi usurpado por um sistema elitista"
A vereadora Fabi Virgílio destacou que o projeto representa “um novo marco sobre a identidade” de Araraquara, após anos de invisibilização de existências negras e memórias negras.
Personalidades negras homenageadas
As novas vias do Residencial Alamedas III homenageiam Antônio Angola, Damião de Souza, Belizário do Maranhão, Carolina de Nação, Guilherme Manuel Dias do Nascimento e Veríssimo Guilherme.
✅ Antônio Angola
Foi um homem negro escravizado e é citado como a única pessoa oficialmente condenada à morte por enforcamento em Araraquara, em 1845. Sua história é lembrada como símbolo da violência do período escravocrata.
✅ Damião de Souza
Foi reconhecido por sua importância na cultura popular negra. Ele organizava batuques no bairro São José, manifestações apontadas como origem do tradicional Baile do Carmo. Por sua relevância, a homenagem passou de rua para avenida.
✅ Carolina de Nação
Foi uma mulher escravizada que preservava, nos registros da época, a referência à sua “Nação”, termo ligado à origem étnica africana. A homenagem reforça a resistência identitária de mulheres negras apagadas da história oficial.
✅ Belizário do Maranhão
Teve sua trajetória resgatada por meio de registros históricos de venda de pessoas escravizadas, em 1875. O caso também ganhou força por conectar a ancestralidade negra documentada à Araraquara contemporânea.
✅ Guilherme Manuel Dias do Nascimento e Veríssimo Guilherme foram vítimas de um linchamento em 1889, um ano após a abolição da escravidão. O episódio é lembrado como expressão da violência racial no período pós-abolição.
Outras homenagens aprovadas
Na mesma sessão, também foram aprovadas homenagens a outras figuras da cidade. O PL nº 220/2026 reconhece Fernando Aparecido de Souza, o Fernandão, militante político, metalúrgico e defensor da igualdade racial, integrando o primeiro Conselho Municipal de Combate ao Racismo e sendo um dos fundadores do grupo Gana em Araraquara.
"Ele militava para melhorar a vida das pessoas; ele acreditava na política como uma forma de melhorar a vida das pessoas", ressaltou o vereador Alcindo Sabino.
Outra proposta homenageou Ana Augusta Mendes, a Dona Nica. Durante o debate, o nome foi ajustado para evitar o termo “Sinhá”, por sua associação ao período escravocrata. Dona Nica é descrita nas fontes como uma figura central na formação intelectual e na militância negra de Araraquara. Reconhecida por sua atuação fundamental na história e na construção da cidade.
Foi também aprovada homenagem a Olga Bonani Bento, lembrada por sua trajetória de fé, caridade e acolhimento.
Legado que ganha reconhecimento
Outras pessoas importantes para história negra da cidade foram homenageadas: Professora Maria Nazaré Salvador (baluarte intelectual), Seu Chiquinho (representando os ferroviários negros), e Dona Eva e Tia Joana, que apoiavam a militância.
Também houve menções a descendentes diretos de homenageados históricos, como o servidor público Júnior (bisneto de Damião de Souza) e o empresário Cláudio Claudino (trisaneto de Belizário do Maranhão)
A professora Maria Nazaré Salvador foi figura central na formação intelectual e na militância negra de Araraquara. Ela é reconhecida por sua atuação fundamental na história e na construção da cidade.
Vale lembrar que a iniciativa da Câmara integra um conjunto de homenagens da voltadas ao reconhecimento de personalidades negras que marcaram a história de Araraquara, reforçando a presença dessas trajetórias na memória oficial da cidade em um movimento de valorização e reparação histórica. Confira mais informações do projeto, AQUI.
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