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CÂMARA | POLÊMICA

Câmara aprova projeto que tira juros de dívida da Prefeitura com Daae; oposição critica

Medida aprovada pela Câmara elimina juros de mora em dívida estimada em R$ 14 milhões; oposição votou contra e pediu estudos sobre impacto financeiro no Daae

Cassiane Chagas|· 6 min de leitura
Câmara aprova projeto que tira juros de dívida da Prefeitura com Daae; oposição critica
Projeto aprovado pela Câmara altera regras de compensação financeira entre Prefeitura de Araraquara e Daae, excluindo a cobrança de juros de mora Imagem: Reprodução.

 

A Câmara de Araraquara aprovou, por 11 votos favoráveis e seis contrários, o Projeto de Lei nº 236/2026, de autoria do Poder Executivo, que altera as regras para a compensação de créditos e débitos entre a Prefeitura de Araraquara e o Departamento Autônomo de Água e Esgotos (Daae).

A principal mudança é a retirada da cobrança de juros de mora sobre os valores devidos entre os dois órgãos, mantendo, no entanto, a correção monetária das dívidas.

A proposta modifica o artigo 11 da Lei Municipal nº 1.697/1969, que regulamenta a compensação financeira entre o Município e a autarquia. Conforme o documento do Executivo, continuam válidas a apuração, a compensação dos créditos e a atualização monetária dos débitos, mas deixam de incidir os juros por atraso no pagamento. A nova redação estabelece apenas a atualização monetária dos valores até a data da compensação ou da quitação.

Segundo a justificativa apresentada pelo prefeito Lapena (PL), a cobrança de juros entre Prefeitura e Daae é considerada inadequada por envolver órgãos que integram a mesma administração pública municipal. O Executivo argumenta que ambos administram recursos públicos destinados à população e que a incidência de juros apenas transfere valores dentro da própria estrutura administrativa, sem gerar benefícios efetivos ao município ou aos cidadãos.

 

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Mudança busca facilitar acerto de contas

De acordo com o Executivo, o objetivo da alteração é dar mais racionalidade à gestão pública e facilitar a regularização de pendências financeiras acumuladas entre a Prefeitura e o Daae.

Durante a discussão do projeto, integrantes da base governista defenderam que a medida permitirá destravar o pagamento de uma dívida histórica estimada em aproximadamente R$ 15 milhões, valor que gira em torno de R$ 14,18 milhões em registros apresentados durante os debates.

O vereador Dr. Lelo (Republicanos), um dos defensores da proposta, afirmou que a alteração permitirá "viabilizar esse pagamento para o Daae", fortalecendo a saúde financeira da autarquia. Em outra manifestação, argumentou que "o Daae não é uma instituição financeira" e que a proposta retira apenas os juros de mora, preservando integralmente a correção monetária.

Segundo a base governista, a exclusão dos juros elimina um obstáculo para que a Prefeitura quite um passivo acumulado ao longo de aproximadamente dez anos, permitindo que o Daae receba os recursos devidos de forma mais rápida.

 

Oposição aponta possível renúncia de receita

Os vereadores contrários ao projeto defenderam o adiamento da votação por 30 dias para que fosse apresentado um estudo detalhado sobre o impacto financeiro da medida, mas o pedido foi rejeitado por 10 votos a 6. A vereadora Fabi Virgílio (PT) sustentou que a retirada dos juros representa uma possível renúncia de receita para a autarquia. "Nós estamos falando de renúncia fiscal porque isso compõe receita."

Ela também afirmou que seria necessário apresentar um estudo financeiro demonstrando quanto o Daae deixaria de arrecadar com a mudança.

Na mesma linha, o vereador Guilherme Bianco (PCdoB) classificou o projeto como "meio esquisito" e disse que não seria possível aprová-lo sem conhecer seus impactos completos sobre as finanças da autarquia.

Já o vereador Alcindo Sabino (PT) argumentou que a Prefeitura possui uma dívida significativamente maior com o Daae do que o contrário e afirmou que parte dos recursos poderia ser destinada a investimentos na infraestrutura de abastecimento de água.

 

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Correção monetária permanece

Embora os juros de mora tenham sido retirados, a proposta mantém integralmente a atualização monetária dos débitos. Na prática, isso significa que os valores continuarão sendo corrigidos pelos índices previstos na legislação tributária municipal, preservando seu poder de compra até a compensação ou o pagamento, mas sem aplicação da penalidade pelo atraso. Essa alteração está expressamente prevista na nova redação do artigo 11 da Lei nº 1.697/1969.

Vale lembrar que enquanto a correção monetária recompõe as perdas provocadas pela inflação, os juros de mora possuem caráter punitivo em razão do atraso no pagamento.

 

Como ficou a votação

O projeto foi aprovado em turno único por 11 votos favoráveis e seis contrários.

Votaram a favor:

  • Aluísio Boi;
  • João Clemente;
  • Balda;
  • Geani Trevisóli;
  • Marcelinho;
  • Coronel Prado;
  • Enfermeiro Delmiran;
  • Dr. Lelo;
  • Michel Kary;
  • Marcão da Saúde;
  • Cristiano da Silva.

 

Votaram contra:

  • Filipa Brunelli;
  • Guilherme Bianco;
  • Fabi Virgílio;
  • Paulo Landim;
  • Alcindo Sabino;
  • Maria Paula.

 

Presidente da Câmara, Rafael de Angeli, não participou da votação por ocupar a presidência da sessão
Presidente da Câmara, Rafael de Angeli, não participou da votação por ocupar a presidência da sessão

 

Sem estudo detalhado de impacto financeiro

A falta de um levantamento específico sobre quanto a autarquia deixaria de receber com a mudança foi um dos principais argumentos apresentados pela oposição. Fabi afirmou que a proposta representa uma possível renúncia de receita para o Daae e defendeu que o projeto deveria ter sido acompanhado de uma análise financeira detalhada. “Precisa vir com um impacto financeiro”, declarou a parlamentar, ao questionar o valor que a autarquia deixaria de arrecadar com a exclusão dos juros.

Guilherme Bianco destacou que o projeto não apresentava documentos suficientes para avaliar os efeitos da medida. Segundo ele, não havia “nenhum balanço financeiro” ou “planilha orçamentária” anexada ao texto encaminhado pelo Executivo.

Durante o debate, Bianco questionou a forma como os dados foram apresentados, citando que parte das informações teria sido demonstrada verbalmente durante a sessão, sem um detalhamento técnico sobre os valores envolvidos.

O valor apresentado pelo líder do governo, vereador Dr. Lelo, foi de R$ 14.186.936,00, referente ao montante da dívida registrada em favor do Daae. O número, porém, corresponde ao valor principal atualizado e não apresenta o cálculo de quanto a autarquia deixaria de receber com a retirada dos juros de mora.

Projeto que tira juros de dívida com Daae foi aprovado sem estudo detalhado de impacto financeiro
Projeto que tira juros de dívida com Daae foi aprovado sem estudo detalhado de impacto financeiro

 

O que muda na prática

 

Elemento

Regra Anterior (Lei 1.697/1969)

Nova Regra (PL 236/2026)

Correção Monetária

Incidência obrigatória.

Manutenção integral da atualização.

Juros de Mora

Incidência de juros punitivos pelo atraso.

Exclusão total nas compensações entre os entes.

 

Com a aprovação da proposta, a Prefeitura poderá realizar o acerto das pendências financeiras com o Daae considerando apenas o valor principal corrigido monetariamente, sem a incidência dos juros de mora.

Para o Executivo, a medida facilita a regularização de uma dívida histórica e melhora o fluxo financeiro entre os órgãos municipais. Já a oposição entende que a retirada dos juros reduz uma receita que poderia fortalecer investimentos futuros da autarquia, especialmente em obras de abastecimento de água e saneamento.

A partir da entrada em vigor da nova lei, as compensações financeiras entre a Prefeitura e o Daae passarão a seguir o novo modelo aprovado pela Câmara, mantendo a atualização monetária, mas excluindo definitivamente a cobrança de juros de mora nas operações internas entre os dois entes públicos.

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