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É MUITO SANGUE

‘A gente sangra para trabalhar’: merendeiras expõem rotina de sobrecarga em Araraquara

Última Audiência Pública reuniu relatos emocionantes sobre jornada exaustiva, adoecimento, falta de estrutura e descumprimento de direitos das merendeiras da rede municipal

Cassiane Chagas|· 6 min de leitura
‘A gente sangra para trabalhar’: merendeiras expõem rotina de sobrecarga em Araraquara
Merendeiras da rede municipal lotaram a Câmara de Araraquara para denunciar condições de trabalho e cobrar valorização da categoria Imagens: Câmara Araraquara.

 

A rotina das merendeiras da rede municipal de Araraquara ganhou voz na noite da última quinta-feira (23), durante a Audiência Pública "Valorização das merendeiras da rede municipal: condições de trabalho, saúde ocupacional e direitos funcionais", realizada no Plenário da Câmara Municipal. Convocado pelo vereador Guilherme Bianco (PCdoB), o encontro reuniu trabalhadoras, representantes do Sindicato dos Servidores Municipais de Araraquara e Região (Sismar), do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) e dezenas de servidoras que transformaram o plenário em um espaço de denúncias, desabafos e reivindicações.

Ao longo de mais de duas horas de debates, as merendeiras relataram uma situação marcada por sobrecarga física, adoecimento, falta de funcionários, deficiência na estrutura das cozinhas, ausência de equipamentos de proteção individual (EPIs), jornadas consideradas excessivas e pouca valorização por parte do poder público.

 

O encontro terminou com o compromisso de construção de uma agenda permanente de mobilização para cobrar providências da Prefeitura.

 

As principais reivindicações incluem a implantação da jornada de 7 horas e 12 minutos prevista no Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) desde 2020, contratação de novos profissionais, melhorias na infraestrutura das cozinhas escolares, fornecimento adequado de equipamentos e maior reconhecimento da categoria, considerada essencial para a educação pública.

 

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‘Nós sangramos para trabalhar’

Entre os momentos mais marcantes da audiência estiveram os depoimentos das próprias merendeiras. Em um dos discursos mais emocionantes da noite, Pâmela Bertin resumiu o sentimento da categoria.

 

"A verdade é uma só: chega de exploração. Nós somos, sim, uma categoria que sangra para trabalhar. Nós somos exploradas mesmo."

 

Ela também criticou a romantização da profissão.

 

"Chega de tratar a gente como super-heroínas. Nós não somos. Estão transformando as cozinhas das escolas em verdadeiras linhas de produção extenuantes enquanto a nossa saúde é destruída silenciosamente."

 

 

Outro relato que emocionou o público foi o de Gislene Gonçalves, que descreveu as consequências físicas da profissão. "Não é muito amor, não. É muito sangue. Não é amor, é muito sangue, porque depois que você trabalha de merendeira, você não é mais aceita para trabalhar de mais nada porque você se destrói."

Ela ainda comparou a responsabilidade das profissionais à de outras áreas da saúde.

 

"A gente trabalha com a responsabilidade de hospital, com o estresse e a pressão de como se a gente fosse médico... e na parte física como se fosse máquina. Isso é impossível de viver."

 

Adoecimento e condições de trabalho preocupam

Durante a audiência, foram apresentados relatos sobre o elevado número de servidoras afastadas ou readaptadas por problemas de saúde relacionados ao trabalho. As merendeiras descreveram uma rotina de levantamento de peso, calor intenso, movimentos repetitivos, permanência em pé durante toda a jornada e falta de equipamentos ergonômicos, fatores que contribuem para doenças como hérnias de disco, tendinites, bursites, problemas de coluna, lesões nos ombros e joelhos, além de transtornos emocionais decorrentes da pressão diária.

A merendeira Elaine Vieira da Rocha Siqueira fez um convite aos gestores para conhecerem a realidade das cozinhas.

 

"A forma que a gente está trabalhando é desumano. Quem falar que não é, então vai um dia ou fica uma semana numa cozinha e vê a rotina como é cansativa e o calor."

 

Já Larissa Perre relatou o impacto que viu dentro da própria família. "Eu só vi a minha mãe dependente de anti-inflamatório na época que ela foi merendeira. Ela chegava em casa arrastando corrente, destruída, parecia que tinha sido atropelada."

 

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Denúncia sobre armazenamento de alimentos gera indignação

Uma das denúncias que mais repercutiu durante a audiência envolveu problemas estruturais nas cozinhas das escolas. Segundo relatos, algumas unidades permaneceram meses sem geladeiras funcionando, obrigando o armazenamento de alimentos em locais inadequados, como lavanderias.

A situação foi considerada contraditória pelas profissionais. Renata Barbosa chamou atenção para o risco sanitário da prática.

 

"A gente estava guardando legumes na lavanderia... não tem perigo de contaminação cruzada? Mas pegar a comida e colocar na lavanderia não dá contaminação cruzada?"

 

As servidoras afirmaram que, ao mesmo tempo em que são orientadas a seguir rigorosos protocolos sanitários, convivem com a falta de manutenção de equipamentos essenciais para garantir a segurança alimentar dos estudantes.

 

Jornada de trabalho e falta de servidores

Outro ponto central do debate foi a jornada de oito horas cumprida atualmente pelas merendeiras. Segundo as representantes da categoria, o Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) dos profissionais da educação do Município, a Lei nº 9.801/2019 prevê a redução da jornada para 7 horas e 12 minutos, mas a medida ainda não foi regulamentada pela administração municipal.

A representante do Sismar, Bernadete Couto, questionou a demora.

 

"A pandemia terminou há anos. A categoria não está pedindo favor. Está cobrando um direito garantido por lei."

 

Ela também apresentou dados de um levantamento realizado pelo sindicato indicando déficit de profissionais em metade das unidades escolares pesquisadas. Para Bernadete, trata-se de uma categoria historicamente invisibilizada.

 

"É triste ouvir e constatar que é uma categoria invisível, quase invisível, mas de extrema importância. Existem crianças que o único alimento do dia é aquela refeição que fazem na escola."

 

Guilherme Bianco defende valorização da categoria

Autor da audiência pública, o vereador Guilherme Bianco afirmou que a discussão vai muito além das condições de trabalho. Segundo ele, a merenda escolar desempenha papel fundamental para a educação e para a segurança alimentar das crianças.

 

"Muitas vezes, por trabalharem na cozinha, são invisibilizadas. As pessoas visitam as escolas, olham tudo que é lugar e não passam na cozinha para perguntar como está a situação."

 

Bianco também defendeu a regulamentação imediata da jornada prevista no PCCV e reforçou a necessidade de contratação de novos servidores. "Não existe educação de qualidade sem merenda de qualidade. E não existe merenda de qualidade sem profissionais valorizadas."

Ao encerrar a audiência, o vereador classificou o encontro como um ponto de partida para novas mobilizações. "Esse é um convite à luta. Se a gente não lutar por nós, ninguém vai fazer."

 

 

Mobilização continua

Ao final da audiência, ficou definido que representantes das merendeiras, do Sismar e demais participantes elaborarão um calendário de mobilizações para cobrar da Prefeitura medidas concretas voltadas à valorização da categoria.

Entre as prioridades estão a regulamentação da jornada de 7h12, realização de concurso público para reduzir o déficit de servidores, melhorias estruturais nas cozinhas escolares, fornecimento adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e ampliação das ações de vigilância em saúde do trabalhador por meio do Cerest.

Para as profissionais, o encontro representou um passo importante para romper o silêncio em torno de uma categoria que alimenta milhares de estudantes diariamente, mas que, segundo elas próprias, continua lutando para ter seus direitos, sua saúde e seu trabalho reconhecidos.

🟡 Esta notícia foi publicada originalmente no grupo do portal Araraquara Agora do WhatsApp. Não está nele? Clique aqui e entre agora: https://encurtador.com.br/EVkIm

 

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