ATENDIMENTO | QUESTIONADO
‘O que fizeram com a minha mãe é desumano’, diz filha após atendimento em Santa Casa de Araraquara
Paciente relata dores, sangramento e secreção após procedimento; hospital orienta família a procurar a Ouvidoria

Uma família de Araraquara busca esclarecimentos sobre o atendimento recebido por uma paciente de 45 anos após um procedimento para tratamento de hemorroidas realizado na Santa Casa de Misericórdia de Araraquara. Segundo a filha da paciente, nos dias seguintes à cirurgia, a mãe passou a apresentar dores intensas, sangramento e, posteriormente, secreção na região operada.
De acordo com o relato apresentado ao Araraquara Agora, a paciente procurou atendimento novamente diante da persistência dos sintomas. A família afirma que ela passou por uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, depois da avaliação, foi encaminhada novamente à Santa Casa.
Os familiares questionam a assistência recebida durante esse retorno, os exames realizados, os critérios utilizados para a alta e a alteração da data de uma consulta de acompanhamento. A reportagem procurou a Santa Casa para esclarecer os pontos apresentados pela família e encaminhou sete perguntas específicas à instituição. Em resposta, o hospital não respondeu individualmente aos questionamentos, mas informou que orienta a família a procurar a Ouvidoria para que a situação seja formalmente registrada e apurada.
Dores começaram dois dias após o procedimento
Segundo a filha, os sintomas mais fortes começaram em 16 de setembro, dois dias depois do procedimento realizado na Santa Casa. A familiar afirma que percebeu alterações na região operada e que a paciente passou a apresentar sangramento. Ainda segundo o relato, ela teria permanecido cerca de quatro dias sem evacuar. Quando conseguiu ir ao banheiro, a filha afirma que houve piora da dor e também do sangramento.
Diante da persistência do quadro, a família procurou uma Unidade de Pronto Atendimento. Segundo a filha, a médica que atendeu a paciente decidiu encaminhá-la novamente para a Santa Casa. A família afirma que, durante o atendimento na UPA, teria sido informado que um determinado exame ou procedimento necessitaria de estrutura disponível no centro cirúrgico. Segundo a filha, entretanto, esse procedimento não teria sido realizado posteriormente no hospital.
Essa informação é um relato da família e não foi confirmada pela Santa Casa na resposta encaminhada ao portal.
Família questiona avaliação na Santa Casa
A filha relata que, ao retornar ao hospital, a paciente permaneceu na chamada Emergência 2, junto de outros pacientes. Segundo o relato, a mulher enfrentava dificuldades para permanecer em pé e teria tido problemas para se deslocar até o local onde seria examinada.
A família afirma que um profissional, que segundo a filha não era um médico, avaliou a região operada e teria feito uma fotografia para encaminhamento ao profissional responsável pelo procedimento realizado anteriormente. Ela, porém, afirma que o médico responsável pela cirurgia não teria feito uma avaliação presencial naquele momento.
O Araraquara Agora questionou a Santa Casa sobre quais profissionais participaram do atendimento, se houve avaliação presencial por médico e/ou pelo cirurgião responsável e quais procedimentos foram realizados durante o retorno. Esses questionamentos não foram respondidos individualmente pela instituição.
Documentos apresentados registram complicações
A família apresentou à reportagem documentos relacionados ao atendimento realizado na Santa Casa. Entre eles está um Resumo de Alta referente a uma internação iniciada em 21 de setembro e com alta registrada em 22 de setembro. Na documentação apresentada, consta como diagnóstico inicial e de alta o código I84.4 — “hemorroidas externas com outras complicações”.
O documento também registra a solicitação de exames laboratoriais, incluindo hemograma completo, sódio sérico, tempo de tromboplastina parcial ativada, tempo de protrombina e potássio sérico.
Em outra parte do resumo, aparece o registro de “PO de hemorroidectomia à Ferguson + plicomectomia 14/09/26”, além de referência à queixa de dor na região perianal. O exame físico descrito na documentação aponta cicatriz cirúrgica, leve sangramento local e dor à palpação.
Entre as condutas registradas estão controle da dor, uso de ácido tranexâmico e realização de exames laboratoriais. O documento também registra “sangramento cirúrgico geral” entre os riscos e prevê reavaliação.
Posteriormente, outra documentação registra a alta hospitalar e indica que a paciente estaria em condições clínicas consideradas seguras para deixar a unidade. Também foram registradas orientações para procurar imediatamente um serviço de saúde em caso de sinais de alerta, como dor intensa ou progressiva, sangramento ativo, hematomas extensos ou piora dos sintomas.
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Família afirma que dor continuou após alta
Apesar da alta, a filha afirma que a paciente continuou apresentando dores intensas. Segundo a familiar, mesmo utilizando medicamentos para controle da dor, a paciente continuaria sentindo desconforto significativo. A família decidiu então procurar também atendimento médico particular. Conforme o relato, o profissional teria realizado um procedimento com o objetivo de tentar reduzir a dor. A filha também afirma que a paciente passou a apresentar secreção na região anal, além da persistência da dor.
Consulta de retorno teria sido remarcada
Outro ponto questionado pela família é a data da consulta de retorno. Segundo a filha, inicialmente o acompanhamento estava marcado para 2 de outubro. Diante da situação da paciente, o retorno teria sido antecipado para 25 de setembro.
No entanto, segundo a família, no dia 24 de setembro foi recebida uma comunicação informando que o atendimento voltaria a ocorrer em 2 de outubro.
A mudança causou preocupação aos familiares, especialmente diante da afirmação de que a paciente continuava apresentando dor e secreção. A reportagem questionou a Santa Casa sobre o motivo pelo qual o retorno teria sido antecipado e posteriormente remarcado. A instituição não apresentou explicação específica sobre a alteração da data em sua resposta ao portal.
Família também questiona documentos de alta
Outro ponto apresentado pelos familiares envolve os documentos relacionados à alta hospitalar. Segundo a filha, a paciente teria recebido inicialmente um documento e posteriormente foi recolhido e substituído por outro. Os dois documentos foram encaminhados à reportagem pela família.


Por isso, a Santa Casa também foi questionada sobre eventual substituição ou retificação do documento de alta, além de possíveis alterações nos registros referentes ao retorno da paciente. Esse questionamento também não foi respondido individualmente pela instituição.
As perguntas enviadas pelo Araraquara Agora
Diante dos relatos e documentos apresentados, a reportagem encaminhou à Santa Casa uma demanda formal, deixando claro que as informações recebidas até então eram relatos da filha da paciente e ainda não estavam confirmadas pela instituição.
Foram encaminhadas as seguintes perguntas:
- A unidade também pode explicar por que o retorno, que teria sido antecipado para 25 de setembro, foi posteriormente remarcado para 2 de outubro?
- Qual procedimento foi efetivamente realizado na paciente em 14 de setembro e quais profissionais fizeram sua avaliação quando ela retornou à Santa Casa com queixas de dor e sangramento?
- Houve avaliação presencial por médico e/ou pelo cirurgião responsável pelo procedimento?
- A família afirma que a paciente foi encaminhada pela UPA à Santa Casa para uma avaliação ou exame que necessitaria de estrutura hospitalar, mas que esse procedimento não teria sido realizado. A Santa Casa confirma essa informação?
- Quais exames e avaliações foram realizados e quais critérios médicos fundamentaram a alta, considerando as queixas de dor e sangramento registradas no atendimento?
- A instituição pode esclarecer o diagnóstico de “hemorroidas externas com outras complicações” registrado na documentação apresentada pela família, eventual substituição ou retificação do documento de alta e as alterações na data do retorno da paciente?
- Considerando que a família relata persistência de dor intensa e secreção, existe orientação para reavaliação antes da consulta agendada?
A reportagem também deixou o espaço aberto para que a instituição acrescentasse outras informações ou esclarecimentos sobre o atendimento e o procedimento.
Santa Casa orienta família a procurar Ouvidoria
Em resposta enviada ao Araraquara Agora em 24 de setembro de 2026, a Santa Casa de Misericórdia de Araraquara não respondeu individualmente às perguntas encaminhadas pela reportagem.
A instituição informou que orienta a família a procurar a Ouvidoria da Santa Casa para que a situação relatada seja formalmente registrada e possa ser devidamente apurada.
Na íntegra, o posicionamento enviado ao portal afirma:
“A Santa Casa de Misericórdia de Araraquara solicita à família que procure a Ouvidoria da instituição para que a situação relatada possa ser formalmente registrada e devidamente apurada.
A instituição permanece à disposição para ouvir a família, esclarecer eventuais dúvidas e prestar as orientações necessárias. O atendimento da Ouvidoria ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.”
Assim, até a publicação desta reportagem, não houve resposta específica da Santa Casa sobre os sete questionamentos apresentados pelo portal. A instituição, por meio da nota, afirma estar disponível para ouvir a família e prestar orientações, mas direcionou a apuração do caso para sua Ouvidoria.
Família cobra respostas sobre o atendimento
Enquanto busca esclarecimentos, a família afirma que pretende entender o que aconteceu durante o atendimento e quais foram as razões para a permanência dos sintomas após a cirurgia.
A filha diz que o objetivo é obter respostas sobre a assistência prestada à mãe e entender quais medidas devem ser tomadas diante da continuidade das dores e da secreção relatadas. Ao falar sobre a situação, a filha encerra seu relato cobrando explicações:
“O que fizeram com a minha mãe é desumano.”
O Portal Araraquara Agora acompanha o caso.
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