21/08/2021 às 18h00min - Atualizada em 21/08/2021 às 18h00min

Usina Tamoio: da importância econômica aos capacetes coloridos

Conheça histórias de quem vivenciou as alegrias e agruras da maior usina sucroalcooleira da América do Sul

Cassiane Chagas

A Usina Tamoio tem relação direta com o desenvolvimento econômico de Araraquara. Com a astúcia e os recursos financeiros, o imigrante italiano Pedro Morganti, elevou a Usina ao patamar de maior indústria sucroalcooleira do País e da América do Sul, batendo recorde de produção de açúcar. Morganti construiu, entre 1917 e 1941, um Império. A Usina obteve tamanha expansão que contava com uma ferrovia particular, para o transporte da cana, além de Igreja, estádio de futebol e escolas.

 

Os trabalhadores também foram peças importantes para o sucesso da Usina. Eles trabalhavam e moravam no local. Para isso, a família Morganti construiu uma infraestrutura parecida com uma cidade.

 

Construções como o Estádio Comendador Freitas e a Igreja de São Pedro, foram destaques no auge da Usina. A Tamoio ainda abrigava um ambulatório de saúde, escolas e os conhecidos empórios e mercearias em que a compra era feita pela “caderneta”.

 

O sistema que fazia tudo funcionar era a base da força de trabalho em troca da subsistência das famílias, uma forma bastante polêmica se discutida nos dias atuais, porém, na época foi um movimento que refletiu no desenvolvimento da Usina e vista como positiva do ponto de vista dos empregados.

 

A família Morganti trocava a mão de obra por esse acolhimento aos trabalhadores. Lógico que tem muita crítica desse modelo, mas eu prefiro ficar com a parte boa. Eu passei minha infância e minha adolescência ali”, explica Donizete Simioni.

 

Donizete nasceu na Usina Tamoio em 1960. Seus pais eram descendentes de imigrantes italianos. Eles se casaram na Usina e tiveram quatro filhos, uma mulher e três homens. Ele ficou na Usina até os 24 anos.

 

De 1917 até 1969 era um modelo perfeito de trabalho que se pensava na época, esse modelo patriarcal de acolhimento em troca da mão de obra. Se você perguntar para os ex-trabalhadores da Tamoio, eles falam com alegria desse período, não falam de tristeza. Nós começamos a ter essa consciência política de exploração da mão de obra, durante o movimento grevista, depois da década de 80”.

 

Simioni lembra do papel de Pedro Morganti, fundador da Usina. “Ele construiu tudo aquilo lá. Teve a construção da Igreja, da Praça de Esporte. Tinha toda uma estrutura para que a gente permanecesse na Usina. Era como se fosse uma cidade, então você não precisava sair. Eu estudei lá, fiz o grupo escolar e o ginásio na Usina, mas tinha até o ensino médio”, conta.

 

As famílias que moravam na Usina eram divididas em setores. Os mais afastados, próximos das lavouras, eram chamadas seções. As casas eram menores e longe da sede. As casas mais próximas da sede eram situadas nas colônias.

 

A dona Iraci Ferreira Santos, de 79 anos, grande figura da história da Tamoio, morava com a família na seção Jacaré. Também filha da Usina, passou por muitas dificuldades e precisou trabalhar desde cedo. Cortava cana junto com a mãe.

 

“Minha infância foi de muito trabalho. Eu fiquei na escola até o terceiro ano porque tive que ajudar minha mãe na lavoura. Minha mãe saía de casa às 4h da madrugada para cortar cana. Antes de sair da escola eu ainda ajudava minha mãe amarrando a cana. Chegava em casa correndo, tomava banho para poder ir para escola”.

 

Dona Iraci lembra também dos apertos que a família passava para adquirir mantimentos. “Minha mãe comprava na caderneta. Chegava no fim do mês não tinha pagamento e a gente ficava devendo para Usina”.

 

 

Era muito corrido e sofrido, mas valeu a pena. Eu tenho saudade daquele tempo. Apesar de tudo, eu tenho saudade. Tudo é uma aprendizagem. Quando a gente sofre, a gente começa a dar valor para as coisas que a gente aprendeu. Foi um aprendizado”, explica.

 

Ela ficou na seção Jacaré até os 19 anos, quando se casou e passou a morar na colônia Bela Vista, que era próxima da sede da Usina, momento em que a vida ficou melhor.

 

Essa questão da exploração da mão de obra foi muito debatida pelo cientista social e dono de uma inquietação justificável e uma inteligência aguçada, o escritor Hélvio Mori de Jesus, mais conhecido por Hélvio Tamoio, por conta da sua trajetória na Usina.

 

Hélvio era da colônia Barreiro, morava com os três irmãos, a mãe dona Nica e o pai, senhor Tata, que trabalhou na Usina durante 46 anos.

 

Quando criança, ele já exercia a profissão de cantor de balango. “As mulheres ficavam lavando roupa e eu ia para o balanço e cantava as músicas que elas escolhiam. Acho que essa foi minha primeira profissão”.

 

Com uma inteligência inquieta, não demorou muito para observar e entender, ainda na juventude, o que se passava ao seu redor.

 

Era fantástico como todo mundo diz. Era uma comunidade, então tinha a história de socorrer, de trocar. Tinha o lado bom e o lado ruim. A Usina passa a querer controlar a sua vida e talvez tenha sido esse motivo que eu resolvi sair de lá logo cedo. Lá se você nascia X você morreria X, sem perspectivas”.

 

Capacetes Coloridos

 

Na trajetória de vida de Hélvio Tamoio, ele recorda das cores dos capacetes dos trabalhadores da Usina. Da maneira que é apresentada, parece uma forma hierárquica de trabalho, porém para Hélvio, era uma visão bastante segregadora.

 

Pela cor do capacete você já sabia qual colônia a pessoa pertencia e qual seria sua relevância. As pessoas mais importantes usavam capacetes brancos e azuis, que eram os trabalhadores com cargos mais altos dentro da Usina”, lembra.

 

Segundo Hélvio, eram os capacetes amarelos, utilizados pelos trabalhadores da lavoura, capacetes marrons, para trabalhadores da indústria, os capacetes azuis que eram gerentes e chefes e os capacetes brancos, para os cargos superiores. Para cada capacete, era uma colônia diferente onde as famílias habitavam.

 

As colônias eram divididas. Não existia essa união que os memorialistas do centro e do entorno da casa grande pregam. Para eles era bom. A gente não ia muito para sede, para o centro. Você sabia do seu lugar. Tinha essa separação, era segregado”, explica.

 

Entrega de pão na colônia

 

Donizete Simioni ressalta que transitava em todas as colônias durante sua vivência na Tamoio. Ele morou em quatro locais diferentes na Usina. Nasceu na seção Morro Azul e ficou lá até os 6 anos. Uma infância de pescaria nos rios, de nadar nas represas, de caçar passarinho e colher frutas nos pomares.

 

Na própria Usina tinha muita fruta. Eu morei em uma casa em que o quintal era um pomar. Eu tenho umas imagens muito positivas desse período”.

 

Ele também morou na colônia Jacaré, até os 8 anos de idade. Após esse período, se mudou para outras duas casas, nas colônias. 


Donizete começou a trabalhar cedo e foi nesse período que conheceu todas as colônias. Ele era entregador de pão.

 

As colônias eram muito grandes e a gente passava com uma perua entregando o pão nas casas. Era pão e leite de casa em casa, a gente conhecia todo mundo”.

 

Depois foi trabalhar como garçom em uma pensão dentro da Usina. Ele ainda trabalhou na indústria, carimbando sacos de açúcar.

 

Trabalhava numa máquina que carimbava os sacos de açúcar. Eu me lembro que era muita tinta e pouco álcool para limpar a mão, então ficavam bem sujas as mãos”, disse carregando um sorriso.

 

 

Como gostava de ser independente, começou a fazer bicos na Usina. “Eu fazia uns biquinhos. Vendia pipoca no campo, vendia verduras nas casas. Eu sempre estava me virando”.

 

O primeiro registro de trabalho de Donizete foi em 1976, tinha 16 anos, como já tinha feito datilografia começou a trabalhar no escritório da Usina. Aos 17 anos perdeu o pai precocemente, com apenas 47 anos.

 

“Minha família era muito humilde, meu pai era enfermeiro na Usina. Conseguiu fazer um curso técnico e se formou enfermeiro, mas o salário não era muito. A gente vivia da própria subsistência da Usina. Depois que meu pai morreu, minha mãe e minha irmã mais velha foram o esteio da minha vida. Devo muito a essas mulheres fortes”.

 

Pedro Morganti

 

O cientista social Hélvio Tamoio buscou escrever cientificamente sobre a Usina, no período de 1917 a 1940, na época de Pedro Morganti.

 

Era uma monografia de conclusão de curso de Ciências Sociais: “Não consegui porque para estudar a Usina seria necessário ser da área de sociologia rural, mas na minha opinião não é. Tamoio tem uma história que ultrapassa essa questão do rural e do urbano. Eu tentei, só que tinha que buscar uma outra linha metodológica. Eu acabei me afastando da universidade por esse motivo”.

 

Ele ainda buscou escrever sobre a Usina na sua tese de mestrado. A tese tratava do desenvolvimento do capitalismo no interior de São Paulo, pela UNICAMP, no curso de Engenharia Agrícola.

 

Eu tentei fazer academicamente na UNESP daqui. Não consegui. Tentei fazer na UNICAMP e também não consegui. Então desisti”.

 

Nas suas pesquisas, Hélvio lembra que Morganti era intitulado, pelo seu próprio biógrafo como senhor feudalmente liberal. “Você via essas estruturas, você não sabia se aquilo ali era um capitalismo moderno, se aquilo era um feudo. Ele era bom para as pessoas. A casa tinha luz, água encanada e as pessoas não pagavam diretamente. Ele queria realmente ser a maior indústria e foi”.

 

 

Nada foi construído a toa ou porque ele era uma pessoa boa. Ele tinha um objetivo de se tornar a maior agroindústria de açúcar do mundo. Ele sabia onde queria chegar”.

 

Eram tantas informações e disposição para descrevê-las, que a partir daí nasceu o livro “O nó da cana também dá Garapa”. Hélvio recebeu críticas porque conta também a história da greve que ocorreu na Usina em 1980.

 

Vale lembrar que Pedro Morganti morreu em 22 de agosto de 1941. Os filhos assumiram a Usina até o ano de 1969, quando foi vendida para o Grupo Silva Gordo, colocando fim àquele modelo de trabalho.

 

Até o ano de 1990 a Usina apresentou diversas dificuldades, até ser vendida para o Grupo Corona onde foi revendida para o Grupo Cosan.

 

Nó da cana também dá Garapa”, histórias retratadas

 

Tem um pessoal que briga muito comigo porque é um livro que conta a história da Usina, e um dos fatos foi a greve. Foi uma coisa extremante importante. Foi a greve que acabou literalmente com a Usina”.

 

Hélvio Tamoio ainda enfrenta desafios por apresentar vivências diferentes na Usina. “As pessoas me criticam muito. O nó da cana sou eu, mas é o nó que mantém a cana de pé. No nó que brota a cana”.

 

 

Ele explica que quando escreveu o livro não tinha a pretensão de retratar a história oficial da Usina Tamoio. “O livro foi um desabafo. Eu o chamo de “livrozine”, na verdade eu comecei a fazer um fanzine”.

 

Ele foi lançado em 2008, e muita gente não gostou do que foi escrito. “As pessoas que relatam que a Usina era um paraíso, sabem que não era”.

 

A Usina tem uma importância na história de Araraquara que é fundamental. O papel civilizatório em relação a cidade. Tamoio tinha uma importância. Apesar de ser da área rural, foi a mais importante agroindústria da América Latina, da década de 40”.

 

A greve histórica na Tamoio

 

A greve retratada no livro “O nó da cana também dá Garapa”, ocorreu na década de 80, quando grande parte dos moradores da Usina já haviam deixado o local. De cerca de 12 mil habitantes, haviam apenas 2 mil naquela época.

 

Donizete Simioni foi membro importante do movimento que ocorreu em dezembro de 1981.
 


“Foi a primeira greve da história da região, deflagrada, que eu participei. Naquela época, a gente não fazia greve para conseguir melhores condições de trabalho ou melhorar o salário. Na verdade, a gente fazia greve para receber os salários. Estávamos com salário atrasado e a gente não recebia 13º”

 

Após esse movimento de greve a Usina não conseguiu se reerguer diante dos problemas financeiros. Os trabalhadores foram os que mais sofreram. Com o atraso nas remunerações, eles começaram a passar dificuldades de subsistência. Foi necessário criar uma Comissão de Fábrica para arrecadar alimentos na cidade e levar para os trabalhadores. “Nós fizemos um movimento muito forte na época, que foi um movimento que inclusive repercutiu nacionalmente”, explica Simioni.

 

A Comissão de Fábrica conseguiu arrecadar alimento em Araraquara, mas encontrou dificuldades com as proteínas para alimentar os trabalhadores. “Houve um momento que fomos para os pastos da Usina e nós mesmos matamos os bois para levar a carne para casa”, explica.

 

Houve um momento em que os funcionários começaram a gerenciar a Usina. “Depois desse movimento grevista, nós jovens, saímos com uma consciência política muito grande. A gente participou de movimentos sindicais, de assembleias, de discussões”.

 

A vontade de mudar que foi manipulada

 

Hélvio Tamoio lembra que os donos da Usina manipularam os trabalhadores durante a greve de 80. Ele tinha 20 anos na época e era ajudante de mecânico.

 

Estávamos empolgados com os movimentos grevistas realizados no ABC Paulista. Não recebíamos há seis meses, o que já era uma prática comum. Então o grupo de jovens puxou a greve, mas sem saber a gente acabou fazendo o que eles queriam. Acabamos fazendo o serviço sujo de expulsar as pessoas de lá, sem perceber. A gente pensava que estava fazendo uma grande transformação na sociedade. Foi um momento pesado. Os movimentos grevistas acabaram fechando a Usina”.

 

A gente já falava em assentamento e em cooperativa e a Usina derrubou as casas para impedir esse movimento”. Hélvio morou na Usina por cerca de 20 anos.

 

Simioni deixou o lugar em 1984, com 24 anos. Sobre a greve, ele acredita que fez o possível em benefício dos trabalhadores.

 

Foi uma estratégia também do proprietário, porque ele queria parar a produção e queria que a gente saísse da Usina. Então nos encurralou para que a gente pudesse procurar outras coisas, o que de fato aconteceu”.

 

 

Foram momentos difíceis, porque como a Usina tinha muitos processos trabalhistas e esses processos resultavam na retirada de algum patrimônio da Usina, então quando tinha determinação de retirada de algum maquinário a gente não deixava. Então, teve alguns momentos ali de enfrentamento com a polícia. Eu lembro de uma vez que nós enfrentamos a tropa de choque que queria entrar para pegar as máquinas e nós não queríamos deixar. Foram momentos tensos”, relembra Simioni. 

 

Solidariedade de quem vivia na Tamoio

 

Apesar dos momentos de tensão, os três filhos da Usina Tamoio, em conversa com o Portal Araraquara Agora, ressaltaram a solidariedade, marcando suas passagens pelo lugar.

 

Eu me lembro dos mutirões entre os empregados mais necessitados. Quem matava porco distribuía. Não passava fome. Tudo era trocado e doado, minha colônia era muito solidária” relembra Hélvio.

 

Dona Iraci sabe bem sobre a divisão das partes do porco. “Eu matava porcos de todo mundo. A gente dividia com a comunidade, às vezes sobrava pouco para gente, mas era muito bom”.

 

Ela trabalhou na Usina por cerca de 16 anos. Era conhecida por cozinhar com afeto. Era merendeira da escola, mas confessa que fazia de tudo um pouco. Tanto que não demorou muito para auxiliar no ambulatório de saúde da Usina. “Dava injeção, fazia curativos”.

 

Na Usina ela ganhou seus três filhos, mas na Usina ela também perdeu. Na lavoura da família, o marido morreu. “Ele tinha 44 anos. Foi buscar milho e não voltou. Tive o apoio de muitas pessoas que me acolheram no momento de dor. As pessoas eram muito solidárias”.

 

Dona Iraci deixou a Usina em 1983. “Hoje as minhas filhas me falam como sinto saudades de uma época de sofrimento. Eu digo que sim, sinto saudades”.

 

Donizete Simioni também carrega saudades do lugar que viveu por 24 anos. "Toda a minha história, a minha memória. Todas as imagens da infância e da adolescência estão cravadas ali naquele pedaço de chão. Então tudo isso que eu carrego na minha história foi por conta da minha passagem pela Usina Tamoio. É algo que eu trago mais com alegria do que com tristeza e sofrimento”.
 

Muitas histórias, minha morada: Araraquara.





Veja a galeria de fotos atuais da Usina Tamoio/ Por Cristiano Silva


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