Há algo de melancólico em caminhar pela Rua 9 de Julho nesse final de ano. O que deveria ser um corredor de encantamento, com vitrines disputando a atenção de famílias que tradicionalmente faziam o "rolê do Natal", tornou-se um retrato do abandono coletivo. Algumas lâmpadas piscam solitárias aqui e ali, esforços individuais de comerciantes que ainda insistem em acreditar. O resto é silêncio. E vazio. Falta o coletivo, a união de esforços pela magia que sempre nos encantou. Essa não é uma crítica aos políticos, aos comerciantes, às entidades de classe, é uma crítica a todos nós que assistimos passivamente isso acontecer.
Araraquara, que um dia foi referência de Natal na região, assiste passivamente sua luz se apagando. Não é uma morte súbita. É lenta, gradual, quase imperceptível para quem não quer ver. É a desistência travestida de normalidade, o conformismo disfarçado de crise.
A poucos quilômetros dali, Ibaté acaba de inaugurar a que promete ser a maior iluminação de Natal de sua história. Presépio em tamanho real, o tradicional presépio artesanal de Ângelo Perruci — cinquenta anos de dedicação que a pequena cidade de 35 mil habitantes faz questão de preservar —, shows todas as noites até 6 de janeiro, praça de alimentação, música, vida. A prefeitura investiu muito na restauração das peças decorativas. Para uma cidade que cabe inteira em alguns bairros de Araraquara.
Boa Esperança do Sul, a 35 quilômetros de Araraquara, também ilumina nesta sexta-feira a Praça Santo Antônio com 500 mil lâmpadas. Quinhentas mil. Uma árvore de 18 metros de altura domina o cenário, e a programação de shows vai de 19 a 31 de dezembro, com músicos locais, bandas, DJs. O diretor de Cultura da cidade fala em "expectativa de público grande, não apenas da cidade, mas da região". Da região. Leia-se: de Araraquara também.
Gavião Peixoto, uma das menores da região, também tem feito sua parte. E não é preciso ir longe para encontrar exemplos do que é possível fazer quando existe vontade. Basta olhar para o lado e perceber que, enquanto Araraquara se acomoda no discurso da crise, suas vizinhas menores, com orçamentos infinitamente menores, conseguem criar algo que se pareça com a magia do Natal.
Não estamos falando de Gramado, com seus meses de programação e milhões de turistas. Não estamos falando de Curitiba, que em 2024 recebeu 2,2 milhões de visitantes e injetou quase R$ 400 milhões na economia local com seu Natal. Estamos falando de Ibaté. De Boa Esperança do Sul. De cidades que cabem na palma da mão de Araraquara, mas que parecem ter descoberto algo que nós perdemos em algum momento do caminho: a coragem de tentar.
Ah se esses exemplos não bastam, tem uma cidade ainda menor, Trabiju, a segunda menor do estado que dia 10 de dezembro também inaugura sua iluminação com agenda de teatro e shos de Hugo e Tiago e Sambapop na programação.
É curioso observar o comportamento do comércio local. Os lojistas da Rua 9 de Julho reclamam dos shoppings. Dizem que o Shopping Jaraguá e o Shopping Lupo roubam clientes, que é desleal, que é injusto. Mas os shoppings fazem sua parte. O Jaraguá inaugurou seu espetáculo de Natal em 16 de novembro, com decoração temática, chegada do Papai Noel em cortejo pelos corredores, programação que vai até a véspera de Natal. Encantamento. É isso que eles vendem: a experiência de estar em um lugar que se preparou para receber as pessoas.
E o que o comércio de rua oferece em contrapartida? Calçadas sem graça. A mesma paisagem cinzenta de todos os outros meses do ano, com a diferença de algumas luzes que mais parecem um pedido de desculpas do que um convite. A celebração precisa ter nome, atrações, agenda, publicidade, encantamento. Nada disso existe na região central.
O Sincomercio tentou mobilizar. Lá em fevereiro, ainda com o Natal distante, criou uma comissão junto com a ACIA e o Sinhores para buscar melhorias. O diagnóstico já estava dado: Araraquara não decora suas ruas para o Natal há quase uma década. Quase uma década. Dez anos em que a cidade foi desistindo, ano após ano, de competir consigo mesma.
A campanha premiada do Sincomercio existe, é verdade. Mas os prêmios não são mais o carro zero ou a moto que faziam os olhos das famílias brilharem. Agora são televisores, celulares, algumas Alexas, um notebook. Nada contra. Mas é muito pouco para uma cidade como Araraquara. É o mínimo disfarçado de esforço. E aqui não minimizo o trabalho das entidades de classe não, sei o que eles fazem para manter o mínimo de união em prol do bem maior.
E a Prefeitura? A Prefeitura de Araraquara parece ter decidido que Natal não é prioridade. Não é de agora. Edinho Silva pouco fez pela magia do final de ano. Lapena, menos ainda. A decoração oficial se resume a algumas intervenções pela cidade. O básico do básico. Árvores de seis metros de altura que, em qualquer outra cidade minimamente ambiciosa, seriam consideradas vergonhosas.
A programação do DAAE, a única que ainda resiste como referência de encantamento na cidade, mas dessa vez, começa tarde demais. As atrações estão marcadas para o período entre 16 e 21 de dezembro. Quando a maioria das cidades já está encerrando suas festividades, Araraquara está começando. E termina antes do Natal. É como organizar uma festa de aniversário e ir embora antes de cantar parabéns.
A Praça do DAAE, com sua iluminação nos chafarizes e coqueiros, é bonita. É genuinamente bonita. Mas é uma gota de encantamento em um oceano de indiferença. É o esforço de uma autarquia tentando compensar a omissão de toda uma cidade.
Houve um tempo em que o Natal em Araraquara significava alguma coisa. As famílias se arrumavam para ir ao Centro. As crianças corriam entre as vitrines iluminadas. Os adultos se permitiam voltar a ser crianças por algumas noites. Havia magia no ar. Não a magia fabricada de Gramado ou Campos do Jordão, com suas festas consolidadas e ingressos caros. Era uma magia simples, caseira, que nascia do esforço coletivo de uma comunidade que acreditava que valia a pena.
Hoje, o que resta são fantasmas dessa época. Comerciantes que ainda se arriscam a decorar suas fachadas, sozinhos, enquanto os vizinhos de porta mantêm tudo apagado.
Moradores como Lígia Celli, na Vila Xavier, que há mais de vinte anos monta sua decoração na garagem porque "não pode deixar essa tradição morrer". Ivete Corodato, no Jardim Tabapuã, que espalha 20 mil lâmpadas em sua casa e recebe mais de 300 pessoas na inauguração. São duas pessoas fazendo mais que a cidade inteira.
São esforços individuais tentando preencher um vazio coletivo. São pessoas que ainda acreditam, remando contra uma correnteza que parece ter engolido o restante da cidade.
O problema de Araraquara não é dinheiro. Não é apenas dinheiro. Ibaté não é mais rica que Araraquara. Boa Esperança do Sul não tem orçamento maior. O que essas cidades têm — e Araraquara perdeu — é vontade política e mobilização social.
É a compreensão de que o Natal não é apenas uma festa religiosa ou uma data comercial. É uma oportunidade de criar memórias, de atrair visitantes, de movimentar a economia, de fazer as pessoas se sentirem parte de algo maior.
Curitiba entendeu isso. Investiu em seu Natal e hoje colhe os frutos: milhões de visitantes, centenas de milhões de reais injetados na economia, artistas locais empregados, hotéis lotados, restaurantes cheios. Não é caridade. É inteligência.
Araraquara, ao contrário, parece ter decidido que é melhor não tentar. Que é mais fácil culpar a crise, os shoppings, a internet, a mudança de hábitos. Que é mais confortável assistir passivamente enquanto cidades menores e mais pobres fazem o que nós desistimos de fazer.
O esvaziamento do Centro de Araraquara no período natalino é, hoje, uma onda. Ainda dá para surfar, ainda dá para reverter. Mas cuidado: ondas podem virar tsunamis. E tsunamis não poupam ninguém.
A verdade é que não adianta reclamar dos resultados se não houver aposta nas causas. É preciso investir nas pessoas para que elas invistam no comércio. É preciso criar experiências para que as famílias tenham motivos para sair de casa. É preciso oferecer encantamento para competir com a praticidade do celular e a comodidade do sofá.
Sabemos que a situação está difícil. Que o empresário trabalha na margem do desespero, que o consumidor está endividado, que os juros são cruéis. Mas o que Araraquara entrega hoje não é resistência. É desistência. Não há plano, não há rumo, não há caminho coletivo a seguir. É cada um por si, tentando sobreviver enquanto a tradição afunda lentamente em sua própria indiferença.
E assim, enquanto Ibaté brilha, enquanto Boa Esperança do Sul se ilumina, enquanto o mundo lá fora celebra a magia do Natal, Araraquara caminha para mais um dezembro cinzento. Algumas luzes solitárias na Rua 9 de Julho, uma programação que começa quando deveria terminar, e o silêncio constrangedor de quem desistiu de lutar.
O Natal que Araraquara deixou escapar pelas mãos não volta mais. Mas ainda há tempo de construir outro. A questão é: alguém está disposto a tentar?
O Araraquara Agora está aqui, pronto para ajudar, inclusive, falar o que é óbvio para buscar mobilização é uma forma de fazer isso.
* Willian Oliveira é jornalista e fundador do portal Araraquara Agora.