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‘Skate é para todos’: Catarina, de 5 anos, se destaca nas pistas e quebra estereótipos em Araraquara

Incentivada pela mãe, skatista mirim mostra como o esporte contribui para o desenvolvimento infantil e reforça a importância da ocupação dos espaços públicos pelas meninas

Cassiane Chagas|· 7 min de leitura
‘Skate é para todos’: Catarina, de 5 anos, se destaca nas pistas e quebra estereótipos em Araraquara
Catarina, de 5 anos, treina diariamente na pista de skate da AFE, em Araraquara Foto: Arquivo pessoal.

 

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Com apenas 5 anos de idade e cerca de quatro meses de prática, a pequena Catarina já chama a atenção de quem frequenta a pista de skate do Complexo Esportivo da Vila Ferroviária, em Araraquara, conhecida como pista da AFE. Moradora do Residencial Cambuy, na região da Chácara Flora, a skatista mirim treina todos os dias e demonstra algo que vai além da técnica, que é o amor pelo esporte, disciplina e autonomia, características raras para alguém tão jovem.

Sempre ao lado da filha está a mãe, a jornalista Julia Toledo Falconi, principal incentivadora da trajetória da Catarina no skate. Para ela, o esporte se tornou uma ferramenta importante de desenvolvimento físico, emocional e cognitivo.

 

“Mesmo tão pequena, eu vejo a Catarina formando lateralidade, direção, dominância, visão 360 graus, coordenação motora e equilíbrio. Ela manda muito bem no skate”, afirma.

 

 

A presença constante da menina na pista virou rotina. Pela manhã, participa das aulas; à tarde e no início da noite, volta para treinar, sempre cercada por outras crianças e adolescentes. O ambiente coletivo, segundo a mãe, tem papel fundamental nesse processo.

 

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Atravessando gerações

O vínculo da família com a pista da Vila Ferroviária vai além do presente. Julia conta que o local faz parte da sua própria infância.

 

“Meu avô era ferroviário e tinha casa nessa região. Eu cresci aqui, aprendi a andar de bicicleta nesse complexo. Quando vejo minha filha na pista, parece um déjà-vu”, relata Julia, emocionada.

 

Segundo ela, acompanhar a Catarina no mesmo espaço onde viveu momentos importantes da infância cria um sentimento de continuidade. “Eu vivi tudo aquilo ali e agora estou gerando herança. É muito emocionante”, diz. “É minha filha, depois a filha da minha filha, meus netos, todos ocupando esse espaço e exercendo cidadania.”

Julia e a filha Catarina
Julia e a filha Catarina

Antes do skate, Catarina apresentava dificuldades comuns da infância, ou seja, dispersão, ansiedade e excesso de tempo em frente às telas. A mudança foi visível.

 

“Ela tinha dificuldade de concentração, ficava muito na televisão. Hoje é uma criança mais ativa, gosta de ler, quase não se interessa por celular ou redes sociais”, explica a mãe.

 

Julia destaca que o impacto vai além do físico. “É um esporte que tirou ela da televisão, das telas, da ociosidade”.

 

“O skate diminuiu a ansiedade dela, melhorou a alimentação, o foco e a concentração. Vejo o esporte impactando diretamente a vida da minha filha.”

 

Aprendizado emocional

 

“Ela está formando a noção de frustração. Cai, às vezes chora, fica envergonhada, mas levanta e tenta de novo. Isso, para mim, é muito mais importante do que qualquer manobra.”

 

Apesar dos benefícios, a mãe confessa que o medo a acompanha diariamente. “Como mãe, tenho muito receio, principalmente com cabeça e coluna. Recentemente a rodinha do skate enroscou em um buraco e ela bateu o rim no corrimão. Dá muito medo”. Mesmo assim, Julia segue incentivando a filha. “Tem horas que a gente incentiva com medo mesmo. Se é algo que faz tão bem para ela, eu vou apoiar, mesmo com o coração na mão.”

A jornalista acredita que impedir a prática por medo poderia gerar outro tipo de limitação. “Tenho medo de que ela ache que não é capaz. Prefiro ensinar que ela pode cair, errar e continuar tentando.”

 

“O esporte mostra para ela que vai ter muitos tombos na vida, que ela vai cair várias vezes, errar, e ainda assim continuar tentando. Tem dias em que o foco e a concentração são maiores e ela segue tentando sem se dispersar; em outros dias, não.”

 

Amizades, coletividade e o Projeto Fornalha

A rotina na pista também fortaleceu o convívio social. Catarina treina diariamente com cerca de 15 amigos, de diferentes idades. “Eles se ajudam muito. É uma comunidade linda”, destaca Julia.

Um dos exemplos mais marcantes foi quando Catarina decidiu aprender o flip, uma manobra complexa. “Uma amiga de 12 anos ficou quase duas horas ajudando até ela conseguir. Isso ensina empatia, comprometimento e trabalho em equipe.”

Além dos treinos diários, Catarina participa do Projeto Social Fornalha, iniciativa gratuita que tem como professor, o jovem André Gimenez Bastos Chagas, ligado à Federação Paulista de Skate. As aulas acontecem às quintas-feiras e priorizam a coletividade.

 

“O Fornalha faz dinâmicas, brincadeiras e exercícios que estimulam o espírito coletivo. É lindo de ver”, afirma a mãe.

 

Meninas no skate: quebra de estereótipos

 

O interesse pelo skate surgiu após Catarina ver uma atleta feminina praticando o esporte. “Ela achava que skate era coisa de menino. Um dia disse: ‘mamãe, eu quero andar de skate’. Expliquei que skate é para todos”, relembra Julia. Para ela, a presença de meninas na pista representa avanço social. “Hoje podemos ocupar todos os espaços. O skate mostrou que ela pode ser o que quiser.”

 

“Eu acho esse esporte lindo. É lindo ver a evolução das crianças e é emocionante ver ela conquistando a dopamina dela. Porque, às vezes, a criança está tão influenciada pela televisão ou pelo celular, mas a gente vê muitas crianças envolvidas com o skate, conquistando sua dopamina longe da televisão, dos jogos digitais e das redes sociais. Catarina está utilizando sua energia, descendo rampa, colocando manobras na base. Cada conquista dela, ela comemora; isso é vitorioso. Então, penso que maior do que o medo é a sensação de conquista dela.”

 

 

Espaços públicos: cobrança por investimentos

Julia também faz um apelo ao poder público. “Investir em pistas de skate é formar atletas, é capacitar crianças, é promover saúde, educação e cidadania”, afirma.  Segundo ela, a pista da AFE recebe cerca de 50 pessoas ao mesmo tempo, principalmente no fim da tarde. “A pista fica sobrecarregada. Uma expansão é necessária para atender mais crianças e jovens com segurança.”

 

“Eu quero que as autoridades vejam o quanto é bonito formar atletas, formar as crianças e capacitá-las para que possam praticar o esporte, com o estímulo para que consigam praticar com segurança.”

 

Carreira esportiva? 

“A Catarina evolui a cada dia, se desenvolve a cada dia”.

 

 

Sobre o futuro, Julia prefere não limitar sonhos. “Pode ser formação pessoal ou carreira esportiva. Os dois. O skate vai ocupar o espaço que ela quiser na vida dela.” Para a mãe, o mais importante já está acontecendo. “O que a Catarina mais ama é conquistar autonomia, fazer algo sozinha. Mesmo pequena, ela pode chegar onde quiser. Ela só precisa de incentivo.”

 

“No dia 20 de setembro de 2025, eu a trouxe à pista para colocar o pé no skate pela primeira vez. Ela colocou o pé no skate e foi fluindo; a gente via um equilíbrio muito bom para quem nunca tinha andado, porque é um esporte muito difícil. Ela colocou o pé e foi lindo de ver. Ela se apaixonou.”

 

Além de Catarina, Julia tem outras duas filhas pequenas, uma bebê de 8 meses e outra de 1 ano e 11 meses. Segundo ela, Cecília, que tem 1 ano, também anda de skate eventualmente, o que reforça a importância do contato com o esporte desde a primeira infância.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Um post compartilhado por Kurumim (@kurumismo)

 

“Mesmo pequena e com as limitações físicas da pouca idade, minha filha pode ser o que ela quiser ser. Ela pode chegar onde ela quiser. Ela só precisa de incentivo para continuar. Ela precisa treinar e se capacitar”, finaliza a mãe e fã número 1 da garotinha que esbanja talento e simpatia.

 

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