BASTIDORES | CÂMARA EM CRISE
‘Tá todo mundo comprado’: entenda a crise política aberta em Araraquara após fala de Filipa Brunelli (PT)
Vídeos, respostas públicas, pedido de cassação, notas partidárias e defesa da vereadora marcam a escalada do embate político

Uma declaração da vereadora Filipa Brunelli (PT) durante manifestação do SISMAR, em frente ao Paço Municipal, provocou reações entre vereadores, partidos e integrantes do governo municipal em Araraquara. Ao discursar para servidores públicos na última quinta-feira (21), a parlamentar criticou a atuação do Legislativo e afirmou que os vereadores estariam alinhados ao Executivo municipal.
“A negocião já foi feita, tá todo mundo comprado. Aquilo ali é um puxado, é um apêndice dali. Tá todo mundo comprado”, declarou Filipa, apontando da Câmara para o prédio da Prefeitura.
A fala provocou reação imediata de vereadores do NOVO e do PL, que negam as acusações, exigem provas e defendem medidas que vão desde interpelação judicial até processo por quebra de decoro parlamentar, com possibilidade de cassação do mandato.
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Vereadores reagem e anunciam medidas judiciais
O vereador Carlos Baldassari, o Balda (NOVO), anunciou publicamente que pretende acionar a Justiça contra a parlamentar. “Não admito ser colocado na mesma régua moral dela. Não tenho preço. Nunca tive. E jamais aceitarei acusação leviana e sem prova”, afirmou.
O parlamentar declarou ainda que ingressará com interpelação judicial para exigir esclarecimentos da vereadora. “Entrarei com interpelação judicial para que ela explique à Justiça quem são os vereadores ‘comprados’ e apresente provas do que disse. Política séria não se faz com mentira, narrativa e ataque irresponsável. Quem acusa, prova.”
O vereador Coronel Prado (NOVO) também reagiu à declaração e rejeitou a generalização feita pela colega de plenário. “Numa fala muito infeliz, a vereadora Filipa Brunelli declarou que ‘todos os vereadores estão comprados’. Não aceito ser incluído nesse tipo de acusação”, publicou.
“Tenho ética, honra, caráter, valores, princípios e trabalho com total transparência. Nunca estive à venda e jamais estarei. Quem faz uma acusação tão grave tem a obrigação de apresentar provas”, completou.
O Enfermeiro Delmiram (PL) também integra o grupo de parlamentares que protocolou pedido relacionado ao caso.
Prefeito fala em quebra de decoro e processos
O prefeito Lapena (PL) elevou o tom da crise política ao comentar publicamente o episódio. Em resposta às manifestações dos vereadores, o chefe do Executivo afirmou que a declaração da vereadora poderia configurar quebra de decoro parlamentar.
“A fala não é infeliz. Ela é ofensiva, representa quebra de decoro parlamentar. Merece representação na Comissão de Ética, podendo chegar à cassação de mandato, além das representações no Ministério Público, Delegacia de Polícia Civil e processos cível e criminal”, declarou.
O caso ampliou a tensão entre a base governista e a oposição em meio às críticas sobre a situação da saúde pública municipal, tema central da manifestação dos servidores.
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Filipa rebate críticas: “Não temo vocês”
Após a repercussão, Filipa Brunelli respondeu aos colegas e ao prefeito por meio das redes sociais.
“Vereador Coronel Prado, vereador Balda, vereador Enfermeiro Delmiram e qualquer outro integrante desse teatrinho deplorável montado para tentar maquiar a tragédia política que virou nossa cidade: eu não temo vocês”, escreveu.
Ela também direcionou críticas ao prefeito. “E muito menos o ‘prefeitinho’ cafona que vocês se esforçam tanto para blindar.”
Na publicação, a parlamentar afirmou que seguirá cobrando atuação fiscalizadora da Câmara. “Mandato não pode servir de escudo para covardia política. Vereador não foi eleito para bater palma para prefeito enquanto a cidade afunda. Foi eleito para fiscalizar, cobrar e defender a população.”
Sobre o uso da palavra “comprados”, Filipa apresentou posteriormente uma explicação sobre o sentido da expressão.
“Quando falei ‘comprados’, quis dizer sobre submissão política, de vereadores que trocaram autonomia por obediência cega. E tornaram linha auxiliar do governo.”
Em outro trecho, voltou a confrontar os adversários. “Vocês acham que vão me intimidar com esse teatrinho político? [...] Vocês são patéticos.”
NOVO e PL divulgam notas oficiais
O conflito ganhou dimensão partidária. Em nota oficial, o NOVO Araraquara manifestou apoio aos vereadores Balda e Coronel Prado, afirmando que divergência política faz parte da democracia, mas que acusações sem prova extrapolam o debate institucional.
Segundo o partido, afirmar que todos os vereadores estariam “comprados” “ultrapassa os limites do debate político responsável e contribui apenas para aumentar a radicalização e a desconfiança na política”.
O PL Araraquara também divulgou posicionamento de solidariedade aos parlamentares ligados ao partido. A legenda declarou que o debate político deve ocorrer “com respeito, responsabilidade e dentro dos limites democráticos”, classificando as declarações como “irresponsáveis e sem qualquer prova”.
PT acusa tentativa de intimidação contra oposição
Do outro lado do embate, o PT Araraquara saiu em defesa da vereadora. Em nota, o partido classificou o pedido de cassação como “uma clara tentativa de transformar a Câmara Municipal em instrumento de intimidação política contra a oposição”. A legenda afirmou ainda que o foco do Legislativo deveria estar nos problemas enfrentados pela cidade.
“Enquanto a população sofre com a crise na saúde, a falta de medicamentos e o desmonte de serviços públicos, parte da base governista prefere gastar energia tentando calar quem denuncia a má gestão”, diz trecho da manifestação.
Filipa tem imunidade parlamentar?
Pela Constituição Federal, vereadores possuem inviolabilidade por opiniões, palavras e votos ligados ao exercício do mandato e dentro da circunscrição do município. Na prática, isso significa que manifestações políticas relacionadas à atividade parlamentar podem receber proteção constitucional.
No entanto, especialistas em direito constitucional observam que essa proteção não impede automaticamente discussões sobre eventual quebra de decoro parlamentar, nem elimina disputas judiciais quando há alegação de ofensa à honra ou acusação considerada sem provas.
Ou seja: a existência da imunidade não impede, por si só, a abertura de pedidos de cassação, representações éticas ou medidas judiciais — embora possa integrar a defesa jurídica da vereadora.
Até o momento, o conflito segue avançando em múltiplas frentes: política, institucional e jurídica. O Portal Araraquara Agora acompanha.
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