Um grupo de cinco mulheres, moradoras de Araraquara, decidiu romper o silêncio e expor o terror que vivem diante de um stalker que permanece solto, apesar de diversas denúncias, provas apresentadas às autoridades e até medidas protetivas expedidas pela Justiça.
As vítimas têm entre 25 e 28 anos, exceto uma delas, com mais de 40, incluindo duas mães que relatam estar exaustas física e emocionalmente devido às constantes ameaças, perseguições e mensagens de teor sexual e pedófilo enviadas pelo suspeito.
O homem já acumula histórico de descumprimento de medidas protetivas e outros registros policiais.
Entre as vítimas está uma veterinária de 27 anos, alvo do stalker há pelo menos seis meses, que relata ter recebido mensagens com teor sexual explícito, ameaças e perseguições persistentes. Mesmo com boletins de ocorrência registrados, medidas protetivas deferidas pela Justiça e diversos registros na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), o suspeito continua em liberdade, mantendo as vítimas em estado constante de medo e abalo psicológico.
As investigações revelam que a violência não se limita a mensagens ofensivas. Em diversos registros policiais, há relatos de vídeos e fotos de conteúdo sexual explícito enviados pelo acusado, incluindo cenas dele se masturbando enquanto exibe imagens de uma das vítimas.
A veterinária descobriu que, em um dos vídeos, aparecia uma cantora também alvo das investidas do suspeito.
No caso da jovem veterinária, o contato inicial ocorreu de forma profissional, quando a mãe do suspeito levou uma calopsita para atendimento. Como a profissional que atendeu o animal viajaria posteriormente, deixou o contato da colega, a vítima, caso precisasse de ajuda. Foi daí que ela passou a receber mensagens do perseguidor.
Os contatos rapidamente evoluíram para conteúdos sexuais explícitos, incluindo descrições obscenas e ameaças envolvendo menores.
“Eu não tenho coragem de reproduzir o que ele escreveu. Só foi piorando, mensagem após mensagem”, relatou a vítima em um dos boletins de ocorrência registrados em março de 2025.
Após esse período, o suspeito chegou a desaparecer. Mais tarde, a vítima descobriu que ele havia sido internado em uma clínica psiquiátrica. Após receber alta, o homem passou a enviar mensagens para outra veterinária da clínica, que de fato havia atendido a calopsita da mãe dele.
Essa profissional, que tem uma filha, tornou-se alvo de mensagens extremamente violentas, nas quais o suspeito detalhava o que pretendia fazer com a criança, chegando a descrever os órgãos genitais da menina.
Diante das novas ameaças, a jovem registrou o segundo boletim de ocorrência, sendo esta a primeira vez que compareceu à delegacia para prestar depoimento.
Apesar de medidas protetivas concedidas pela Justiça, o stalker já foi flagrado quebrando a ordem judicial pelo menos três vezes, segundo boletins registrados entre março e junho deste ano. A Polícia Militar chegou a ser acionada, mas, segundo as vítimas, a resposta das autoridades tem sido insuficiente.
A veterinária relatou ter se sentido humilhada e constrangida ao buscar ajuda na Delegacia da Mulher (DDM), onde afirma ter ouvido piadas sobre o caso. “As policiais disseram: ‘a gente já tá cansada de ver a pir***inha dele’. Deu a entender que isso vem ocorrendo há muito tempo com outras vítimas”, contou.
“Disseram que ele não é perigoso e fizeram piadas. Eu me senti extremamente humilhada. Quando cheguei em casa, fui pesquisar e descobri que ele já tinha até habeas corpus por tentativa de homicídio por motivo fútil”, relatou a jovem, que afirma viver com medo de encontrá-lo nas ruas.
Mesmo assim, a jovem segue sendo orientada a registrar boletins de ocorrência sempre que o suspeito retomasse o contato. “Eu fiz. No outro dia, registrei outro B.O. A polícia me ligou e pediu para eu ir até o plantão porque ele havia descumprido a medida protetiva e algo precisava ser feito”, relatou.
No entanto, segundo ela, o atendimento mudou completamente após a troca de plantão. “A primeira pessoa foi super solícita, educada e se sensibilizou com a situação, explicou o que poderia ser feito. Mas, quando o turno mudou, o policial seguinte simplesmente olhou para nossa cara e disse que não havia nada a fazer. Que deveríamos procurar a DDM. Só que, todas as vezes que uma das meninas vai até a DDM, fazem piada da situação. Parece que as erradas somos nós”, desabafou.
Além da veterinária, outras vítimas permanecem sob ameaça. “Uma das meninas é cantora, e ele frequenta o bar onde ela canta, já que está livre para fazer o que quiser.”
“A gente tem medo de sair de casa. É complicado demais. É difícil manter a sanidade, o controle psicológico e emocional, até mesmo físico. Sobrecarrega tanto que parece que a gente levou uma surra. Dói o corpo todo. Estamos presas, enquanto ele está livre. A Justiça está sendo falha”, diz a veterinária.
Ela descobriu que algumas das vítimas já eram perseguidas pelo mesmo homem desde 2013, inclusive ex-colegas de escola. Em muitos casos, o agressor se aproxima usando identidades falsas. “Inclusive uma dessas identidades é da prima de uma amiga minha. Eu cheguei a avisá-la que ele estava utilizando o nome dela. Então, ela decidiu também registrar um boletim de ocorrência. Foi justamente por nossa causa que tínhamos essas medidas protetivas até então.”
“Ele envia muitos vídeos, muitas fotos. Um destes vídeos, de oito minutos, termina com ele se masturbando enquanto exibe o vídeo de uma garota cantando, e percebi que eu a conhecia. Mandei mensagem para ela e descobri que há anos ela também era vítima das perseguições dele”, conta.
A troca de informações e a busca nas redes sociais foi essencial para que outras mulheres percebessem que também estavam sendo perseguidas. “Foi assim que a gente foi descobrindo as outras vítimas. Algumas estudaram na mesma escola que eu, inclusive a mesma escola que ele frequentou”, disse.
“Não lembro de vê-lo lá, mas acendeu um alerta, porque está tudo meio interligado”, afirma.
Um dos maiores entraves para medidas mais severas é a avaliação jurídica de que o acusado seria inimputável, por haver indícios de transtornos mentais. O Ministério Público informou às vítimas que, mesmo diante das provas, dificilmente ele responderá criminalmente, sendo possível apenas uma ação cível.
“Nos disseram que, dependendo do juiz, nem seria considerado pedofilia, apesar das mensagens falando de crianças. E que, no máximo, alguém vai ter que responder por ele na parte cível. Ou seja, todo o crime que ele comete pode terminar em nada”, lamentou a veterinária.
O Portal Araraquara Agora entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública (SSP). Apesar da confirmação do recebimento do e-mail, até o fechamento desta reportagem, a SSP não retornou.
A matéria será atualizada assim que surgirem novas informações ou posicionamento da secretaria.
Enquanto isso, as mulheres seguem em alerta, sobrecarregadas emocional e fisicamente, aguardando que a Justiça encontre uma forma de garantir proteção eficaz.
Matéria em andamento.