A virada do ano terminou em tragédia e revolta para uma família de Américo Brasiliense. Uma cachorra de apenas 3 anos morreu após se assustar com a explosão de um rojão com estampido, solto em frente à residência das tutoras — prática proibida por lei no município. O caso ocorreu na noite de 31 de dezembro e reacendeu o debate sobre o uso ilegal de fogos barulhentos e seus impactos diretos em animais, crianças e pessoas com hipersensibilidade sonora.
De acordo com a tutora, Ana Carolina, moradora do bairro Nova Américo, ela havia viajado com a esposa e os filhos para passar o Réveillon fora da cidade. Antes da viagem, a família tomou todos os cuidados possíveis para garantir a segurança dos cães que permaneceram na residência. O quintal foi organizado, objetos que poderiam causar ferimentos foram retirados e a lavanderia foi deixada livre para servir como abrigo, justamente para minimizar o impacto do barulho dos fogos.
Além disso, uma pessoa de confiança ficou responsável por ir diariamente até a casa para verificar os animais, trocar a água e a ração. Segundo a família, os três cães estavam saudáveis e bem cuidados no momento da viagem.
Desespero e morte
Por volta das 21h do dia 31, Ana Carolina recebeu uma mensagem de uma vizinha informando que a cachorra estava gritando de dor e desespero. A família tentou contato imediato com a pessoa responsável pelos cuidados, que se deslocou até o local. Quando chegou, porém, a situação já era irreversível.
“Havia um rojão estourado em frente ao meu portão e minha cachorra morta. Ela se assustou, tentou fugir do barulho, ficou presa no portão e morreu por conta do desrespeito desses criminosos”, relatou a tutora.
Segundo o relato, a cachorra, Kiara, entrou em pânico e tentou passar por um portão de grades estreitas no corredor da garagem. Ao ficar presa, acabou não resistindo. A família também enfrentava dificuldades de comunicação no momento do ocorrido, já que estava em uma cidade com sinal precário de celular e sem acesso imediato à internet, o que atrasou ainda mais qualquer tentativa de intervenção.
Ao chegar à residência, foram encontrados restos de rojões estourados exatamente em frente ao portão da casa. Em vídeo gravado, é possível ver claramente os resquícios dos fogos. Ainda segundo a família, outros pontos da mesma rua também apresentavam restos de fogos, indicando que a prática ilegal foi generalizada.
“Ela tinha acabado de sair de um tratamento contra a doença do carrapato. Lutou tanto para sobreviver… para agora acontecer isso”, desabafou a tutora. “Ela era um doce.”
Abalada, a família afirma que o caso não pode ser tratado como um acidente. “Não foi um acidente, foi um assassinato”, declarou.
Kiara era inseparável de outra cadela da casa, chamada Frida, que segundo os tutores apresenta sinais claros de tristeza desde a morte da companheira. “Se uma ia ao veterinário, a outra ficava chorando. Agora a Frida anda cabisbaixa, procurando a irmã pelo quintal.”
A viagem, segundo a família, era um presente de aniversário para o filho caçula da esposa. “Ele está inconsolável. Ontem tivemos que deixá-lo na casa da avó, porque está muito triste. Ver os outros cães procurando por ela parte o coração.”
O município de Américo Brasiliense possui legislação específica que proíbe a queima, soltura e manuseio de fogos de artifício com estampido desde abril de 2019. A medida está prevista na Lei Municipal nº 2.234, em vigor desde 16 de abril de 2019.
A norma proíbe rojões, bombas, morteiros e qualquer artefato pirotécnico com barulho significativo, em áreas públicas ou privadas, abertas ou fechadas. São permitidos apenas fogos de efeito visual, sem ruído.
A legislação municipal está alinhada à Lei Estadual nº 17.389/2021, que também restringe o uso de fogos ruidosos em todo o estado de São Paulo, visando proteger crianças, idosos, pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), bebês e animais.
Segundo os moradores, durante o Natal, situação semelhante ocorreu na mesma rua. Duas crianças com autismo, moradoras em frente e ao lado do local onde os fogos foram soltos, tiveram crises sensoriais provocadas pelo barulho excessivo. Especialistas alertam que estampidos podem causar pânico, ansiedade extrema e sofrimento intenso, reforçando o caráter social e humanitário da proibição.
O portal Araraquara Agora entrou em contato com a Prefeitura de Américo Brasiliense, questionando as ações de fiscalização na cidade. Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto.
A tutora afirma que buscará seus direitos. “Não vai trazer nossa Kiara de volta, mas isso não vai ficar assim.”
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