De casa nova
Após 50 anos, Marcelo Barbieri deixa MDB e se filia ao PDT
Membro histórico do partido e uma das lideranças mais emblemáticas da legenda, Barbieri pode ser candidato nas eleições de outubro

O ex-prefeito de Araraquara e ex-deputado federal Marcelo Barbieri encerrou meio século de militância no MDB e oficializou sua filiação ao PDT. A decisão marca um dos capítulos mais simbólicos da política local e tem como pano de fundo o realinhamento do MDB paulista em direção ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), movimento que desagrada lideranças históricas identificadas com o campo progressista da sigla.
Barbieri, que se filiou ao então Movimento Democrático Brasileiro em 1976, construiu toda a sua trajetória pública sob a legenda. Foram três mandatos consecutivos como deputado federal (1991-2003), dois mandatos como prefeito de Araraquara (2009-2016), além de cargos na estrutura nacional do partido — incluindo a presidência em exercício da Executiva Nacional do então PMDB em 1998. Ainda em março de 2026, semanas antes da desfiliação, ele havia sido homenageado nas comemorações dos 60 anos do MDB na Câmara dos Deputados, em Brasília.
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Segundo lideranças políticas ouvidas pelo Araraquara Agora, a migração partidária contou com a articulação do ex-prefeito de Araraquara e atual presidente nacional do PT, Edinho Silva, o que reforça a leitura de que a saída de Barbieri está diretamente ligada ao xadrez eleitoral de 2026.
O que Barbieri disse sobre a saída
Em declarações exclusivas ao portal Araraquara Agora, o ex-prefeito não escondeu o desconforto com os rumos do partido em São Paulo.
"Eu estou há mais de 50 anos no MDB e eu acho que o MDB está tomando rumos que eu respeito, mas eu não sou obrigado a concordar. Eu me fiz no MDB na luta democrática, na luta pela democracia, na lua por princípios que foram norteando a ação do MDB na constituinte de 1988. Eu me elegi em 90, me reelegi em 94, 98, 2002, sempre me pautando por princípios que eu sempre segui, inclusive como prefeito da mesma forma", afirmou.
Barbieri recorreu a um ditado popular para explicar a mudança.
"Eu não sou obrigado a ir nesse rumo, eu preciso encontrar o meu rumo. Aquela frase antiga, os incomodados que se mudem e eu estava incomodado com a forma como o MDB está indo em São Paulo e eu optei por buscar outro caminho", declarou.
Apesar da ruptura, o tom foi de respeito pela história construída.
"Tenho muito respeito pelo MDB, pela história do MDB, que é a minha história. O MDB foi fundado em 1966. Eu tinha 10 anos. Eu nasci em 1956. Eu me filiei em 1976 e eu estou me desfiliando em 26. Foram 50 anos, eu tenho orgulho dessa história e eu agora estou me desfiliando. Eu tenho muito orgulho dessa história, mas agora eu preciso buscar outro caminho", concluiu.
MDB de São Paulo embarca na chapa de Tarcísio
O incômodo de Barbieri ganha contexto quando se observa o movimento recente do MDB paulista. No final de março, o vice-governador Felício Ramuth deixou o PSD e se filiou ao MDB para reeditar a chapa com Tarcísio de Freitas na disputa pela reeleição em 2026. A filiação foi articulada pelo presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, pelo presidente estadual Rodrigo Arenas e pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes.
A manobra consolida o partido como peça central da máquina de reeleição do governador, afastando a sigla do campo político no qual Barbieri militou por cinco décadas. Na avaliação de emedebistas paulistas, ao levar o MDB para vice no maior colégio eleitoral do país, Tarcísio praticamente sepultou as chances de o partido compor nacionalmente com o presidente Lula.

Racha nacional: MDB dividido entre Lula e a neutralidade
A tensão em São Paulo reflete uma crise de identidade que atinge o MDB em escala nacional. No início de março, diretórios de 16 estados assinaram um manifesto entregue a Baleia Rossi defendendo a neutralidade do partido na disputa presidencial, reagindo às tentativas do PT de atrair o MDB para a chapa de reeleição de Lula.
Na prática, a proposta abre caminho para que parte da legenda apoie Lula em estados do Norte e Nordeste, enquanto outras seções caminhem com candidaturas de centro-direita no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
O MDB ocupa hoje três ministérios estratégicos no governo Lula — Transportes (Renan Filho), Cidades (Jader Filho) e Planejamento (Simone Tebet) — mas, nos estados, a maioria das lideranças prefere manter distância da chapa petista.
Mais recentemente, diretórios de 23 estados enviaram ofício a Baleia Rossi pedindo que os emedebistas adotem neutralidade na disputa presidencial de outubro.
O cenário é de fragmentação: um partido que nasceu como frente de resistência à ditadura militar e agora se vê rachado entre governistas, neutros e aliados da direita.
Quem é Marcelo Barbieri
A trajetória política de Barbieri se confunde com a própria história do MDB em Araraquara. Nascido em 1956, ele ingressou na política pelo movimento estudantil e chegou à vice-presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1979.
No mesmo ano, foi preso duas vezes pelo DOPS — braço repressivo da ditadura militar — por lutar pela redemocratização.
Formado em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV), elegeu-se deputado federal pela primeira vez em 1990, sendo reeleito em 1994 e 1998 — feito inédito para um parlamentar araraquarense à época. Disputou a prefeitura de Araraquara quatro vezes antes de vencer em 2008, sendo reeleito em 2012 com altos índices de aprovação.
Como prefeito, Barbieri realizou a reabertura da Maternidade Gota de Leite, construiu UPAs e postos de saúde, entregou milhares de casas populares e implementou programas de educação integral.
No âmbito nacional, ocupou a presidência em exercício da Executiva Nacional do PMDB e presidiu a Fundação Ulysses Guimarães em São Paulo. Mais recentemente, atuou como coordenador de políticas públicas na Prefeitura de São Paulo a convite de Ricardo Nunes.
O que a filiação ao PDT representa
A ida de Barbieri para o PDT sinaliza um reagrupamento de forças no campo progressista de Araraquara. Com a articulação atribuída a Edinho Silva, a movimentação indica que o ex-prefeito deve atuar como cabo eleitoral relevante nas eleições de 2026, possivelmente alinhado a candidaturas ligadas ao governo federal.
Para o MDB de Araraquara, a perda é simbólica. Barbieri não era apenas um filiado — era o rosto mais conhecido da sigla na cidade, com uma biografia que atravessa a luta contra a ditadura, a Constituinte de 1988 e duas décadas de mandatos eletivos. Sua saída evidencia que o realinhamento do partido em São Paulo tem um custo político concreto, sobretudo entre militantes que enxergam no MDB original um compromisso com a democracia e os valores progressistas que, segundo eles, a legenda vem abandonando.
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