Crise Política
Sai Leonora, entra Guidolin: secretário vai à Câmara explicar caso da Morada do Sol
Convocação ocorre após recusa da presidente da empresa; secretário foi convocado para esclarecer suspeitas

A crise envolvendo a Morada do Sol Turismo, Eventos e Participações S.A. ganhou novo capítulo em Araraquaraapós a mudança de autoridade convocada para prestar esclarecimentos na Câmara Municipal. Com a recusa da presidente Leonora Arnoldi em comparecer ao plenário, os vereadores aprovaram a convocação do secretário municipal de Governo, Leandro Guidolin, que deverá responder sobre as operações da empresa em sessão extraordinária marcada para quinta-feira (9).
O caso envolve desde a ampliação do objeto social da companhia até suspeitas de operações financeiras estruturadas, incluindo a cessão de créditos da dívida ativa do município. Além disso, a situação acirrou o debate sobre transparência, governança e os limites legais da atuação da Câmara diante de empresas com personalidade jurídica própria, como é o caso da Morada do Sol S.A., controlada majoritariamente pelo município.
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Triangulação de R$ 15 milhões amplia pressão política
O ponto mais importante das denúncias é a suposta triangulação financeira de R$ 15 milhões, envolvendo a emissão de debêntures pela empresa e aquisição dos títulos pelo Daae. A operação levantou suspeitas sobre possível desvio de finalidade de recursos públicos. Durante a sessão da câmara desta terça-feira (7), a vereadora Maria Paula (PT) questionou de forma direta o destino dos valores."Sabe quem emitia muitas debêntures, inclusive, o Banco Master… é muito parecido."
O vereador Alcindo Sabino (PT) foi ainda mais incisivo ao criticar o modelo adotado: "estrutura financeira" sem autorização legislativa, classificando a operação como uma "triangulação suspeita" e chamando a empresa de um "banco disfarçado dentro da administração pública", ou ainda "banco master de Araraquara".
Mudança de atuação da empresa gera questionamentos
Outro ponto que será abordado por Guidolin diz respeito à alteração do estatuto da empresa em 2025. Criada originalmente para fomentar turismo e lazer, a Morada do Sol passou a atuar também em operações financeiras, aquisição de créditos e participação em outros negócios. A empresa teria assumido parte da dívida ativa do município, estimada em cerca de R$ 636,5 milhões, o que gerou dúvidas sobre a viabilidade econômica e a legalidade da operação sem aprovação legislativa.
Recusa de Leonora gera desgaste e reação política
A decisão de Leonora Arnoldi de não comparecer à Câmara foi um dos principais gatilhos para o agravamento da crise. Ela alegou ausência de obrigatoriedade legal, sustentando que a convocação não se aplica a dirigentes de sociedades de economia mista.
A postura foi duramente criticada por parlamentares. O vereador Paulo Landim (PT) classificou a situação como "completamente imoral", afirmando que a operação foi "feita de maneira estranha". Guilherme Bianco (PCdoB) também reagiu. “Triangulação financeira na qual essa senhora (Leonora) está metida", reforçando que "o cargo, o dinheiro e a empresa são do povo de Araraquara".
Já Filipa Brunelli (PT) destacou a gravidade das denúncias. “Não foi eleita para permitir que investigações sobre dinheiro público acabasse em pizza", destacando que o caso é uma "denúncia séria de possível corrupção acontecendo na morada". Expressões como "afronta ao poder legislativo" e "indolência" também marcaram o tom das críticas.
No uso da tribuna, o vereador Aluísio Boi (MDB) fez uma das declarações mais contundentes ao reconhecer erro político. O parlamentar afirmou arrependimento de ter apoiado a concessão da Arena da Fonte à Morada S.A., dizendo que o projeto "nasceu errado" e não cumpriu promessas como geração de empregos e grandes eventos. Ele ainda defendeu que o espaço retorne à gestão direta do município.
Boi também criticou diretamente a ausência da presidente Leonora, afirmando que a recusa em comparecer "enfraquece os vereadores da base", destacando que "quem faz gestão pública tem que ter coragem" e que a postura demonstra "fragilidade e fraqueza política".
Base governista cobra explicações e admite desconforto
Diferentemente de uma defesa automática da empresa, vereadores da base governista também demonstraram desconforto com a falta de esclarecimentos e cobraram mais transparência. O líder do governo, Dr. Lelo (Republicanos), adotou um tom de cautela, reforçando o compromisso com a transparência. O vereador destacou que a base busca a "verdade" e que o caso já está sob análise do Ministério Público. Segundo ele, "venha a investigação que for" e que tudo seja colocado "às claras".
Fiscalização e novas suspeitas sobre contratos
Outro ponto levantado por vereadores foi a necessidade de fiscalização do contrato de concessão relacionado à empresa Revi, que atua sob gestão da Morada do Sol. Segundo os parlamentares, há indícios de que a concessionária não cumpriria metas de investimento e praticaria valores elevados, dificultando a realização de eventos na cidade. Essa linha de investigação amplia o alcance da crise, que deixa de ser apenas financeira e passa a envolver também a execução de contratos públicos e resultados práticos para a população.
Presidência da Câmara aponta limites legais
O presidente da Câmara, Rafael de Angeli (Republicanos), afirmou ser favorável à presença de Leonora no plenário. "Eu sou a favor da presidente da Morada do Sol vir aqui a essa casa falar e responder a todos os vereadores". Porém, ressaltou entraves jurídicos.
“A Constituição não permite que a presidente da empresa seja obrigada a comparecer pessoalmente".
Ele também classificou como "verdadeiro absurdo" a sugestão de condução coercitiva, defendendo que a Câmara deve agir dentro da legalidade.
Sessão com Guidolin deve trazer novos esclarecimentos
Com a convocação de Leandro Guidolin, a expectativa é que a sessão extraordinária traga respostas sobre os pontos mais sensíveis do caso, incluindo a ampliação do objeto social, as operações financeiras e a gestão da dívida ativa.
O Requerimento de convocação aprovado foi apresentado pelos vereadores Coronel Prado e Balda (Novo), Cristiano da Silva, Enfermeiro Delmiran, Geani Trevisóli e Michel Kary (PL), Dr. Lelo (Republicanos), e João Clemente e Marcelinho (Progressistas) solicita esclarecimentos detalhados ao secretário. A sessão extraordinária acontece nesta quinta-feira (9), a partir das 15h30.
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