Diante do aumento de relatos de violência e vulnerabilidade social, a Casa de Acolhimento LGBTQIA+ de Araraquara promove nesta terça-feira (28), uma roda de conversa com foco no enfrentamento à violência contra essa população. A iniciativa surge a partir da vivência direta da equipe técnica nos atendimentos realizados no município.
A atividade será realizada às 15h, no Centro de Referência e Resistência LGBTQIA+, localizado na Avenida Espanha, 536, região central da cidade, e será conduzida pela psicóloga Ana Beatriz Borges e pela assistente social Suseline Cristina Feliciano. O encontro é aberto ao público e tem como proposta criar um ambiente seguro de escuta, troca de experiências e orientação.
A coordenadora da Casa de Acolhimento, a assistente social Eliana Souza Barbosa, explica que a ideia nasceu da necessidade observada no dia a dia dos atendimentos. Segundo ela, os impactos da violência são profundos e afetam diretamente a qualidade de vida da população LGBTQIA+.
De forma simples e acessível, a proposta da roda de conversa é oferecer um espaço onde as pessoas possam falar, ouvir e refletir sobre suas vivências.
“A gente percebe, nos atendimentos, o quanto a violência impacta a vida dessas pessoas. Por isso pensamos em criar um momento de diálogo, com apoio da psicóloga e da assistente social, para acolher e orientar”, destaca a coordenadora.
O encontro também pretende estimular o autoconhecimento e fortalecer vínculos, além de promover empatia entre os participantes.
De acordo com Eliana, entre os principais relatos recebidos pela equipe estão casos de violência psicológica, que incluem humilhações, rejeição familiar, discriminação e exclusão social.
Além disso, também são registrados episódios de:
🚨 Violência física, com agressões motivadas por preconceito;
🚨 Violência verbal, por meio de ofensas e insultos;
🚨 Violência institucional, relacionada a dificuldades no acesso a serviços públicos;
🚨 E, em alguns casos, violência sexual.
Essas situações, segundo a profissional, estão diretamente ligadas à discriminação por orientação sexual e identidade de gênero.
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Um dos pontos mais preocupantes é o reflexo dessas violências na saúde mental. A exposição contínua a situações de preconceito pode gerar ansiedade, depressão, medo, baixa autoestima e isolamento social. No campo social, os efeitos também são significativos. Muitos atendidos enfrentam rompimento de vínculos familiares, dificuldades de acesso a direitos básicos e exclusão de espaços sociais.
“Isso compromete a qualidade de vida e reforça a importância de ações que promovam acolhimento e proteção”, explica Eliana.
Apesar da necessidade de apoio, muitas pessoas ainda encontram barreiras para procurar ajuda. O medo de julgamento, discriminação e até de reviver situações traumáticas dificulta o acesso aos serviços.
Outro desafio é a falta de preparo de alguns atendimentos na rede pública, além da insegurança em expor a própria identidade de gênero ou orientação sexual. Esses fatores reforçam a importância de iniciativas como a roda de conversa, que busca justamente criar um ambiente seguro e acolhedor.
Inicialmente, a atividade será pontual, mas pode ganhar continuidade. Segundo a coordenadora, existe a possibilidade de transformar a roda de conversa em um projeto permanente, dependendo da participação do público e das demandas identificadas. A ideia é fortalecer, ao longo do tempo, uma rede de apoio mais estruturada e acessível.
Atualmente, Araraquara conta com uma rede de atendimento que envolve serviços da assistência social e da saúde, além de equipamentos específicos voltados à população LGBTQIA+. Entre eles, destaca-se a própria Casa de Acolhimento LGBTQIA+, considerada a primeira do tipo no interior do Estado de São Paulo, além do Centro de Referência LGBTQIA+.
Esses serviços atuam de forma integrada, oferecendo acompanhamento psicossocial, encaminhamentos e ações de promoção de direitos.
A realização da roda de conversa reforça a necessidade de ampliar o debate sobre a violência contra a população LGBTQIA+, tema ainda marcado por subnotificação e invisibilidade.
Ao promover espaços de escuta e acolhimento, iniciativas como essa contribuem para o fortalecimento da comunidade e para a construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa. A expectativa é de que o evento reúna participantes interessados em discutir o tema e fortalecer a rede de apoio no município.
Eliana Souza Barbosa falou ao Portal Araraquara sobre os principais tipos de violência enfrentados pela população, os desafios no atendimento e a importância de ações de acolhimento na cidade.
Confira os principais trechos da entrevista:
Quais tipos de violência são mais relatados nos atendimentos?
Eliana: As principais formas de violência relatadas incluem, com maior frequência, a violência psicológica, como humilhações, discriminação, ameaças e rejeição familiar, além da violência física, com agressões motivadas por preconceito. Também são recorrentes casos de violência verbal, institucional e, em alguns casos, sexual, impactando diretamente a saúde mental e a qualidade de vida dessa população.
Houve aumento recente nos casos em Araraquara?
Eliana: Não há dados sistematizados específicos no município, mas a atuação profissional e a articulação com a rede indicam demandas recorrentes relacionadas à discriminação, violência psicológica, rejeição familiar e vulnerabilidade social, refletindo um cenário semelhante ao nacional.
Qual o perfil das pessoas atendidas?
Eliana: O público é majoritariamente composto por pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade social ou violação de direitos, muitas vezes com vínculos familiares fragilizados e necessidade de acolhimento e acompanhamento psicossocial.
Como essas violências afetam a saúde mental e social?
Eliana: Os impactos são significativos, podendo gerar ansiedade, depressão, baixa autoestima, medo e isolamento. Socialmente, há rompimento de vínculos, exclusão e dificuldade de acesso a serviços, o que compromete a qualidade de vida.
Quais são as principais dificuldades enfrentadas por quem busca ajuda?
Eliana: O medo de julgamento e discriminação ainda é um dos principais obstáculos. Também há ausência de apoio familiar, barreiras institucionais e insegurança em expor a própria identidade, o que dificulta o acesso aos serviços.
O evento é pontual ou pode virar ação contínua?
Eliana: A proposta inicial é pontual, mas pode se tornar contínua, dependendo da adesão e das demandas identificadas ao longo da atividade.
Como funciona hoje a rede de apoio em Araraquara?
Eliana: A cidade conta com serviços da assistência social e da saúde, além de equipamentos específicos como o Centro de Referência LGBTQIA+. Destaca-se também a Casa de Acolhimento LGBTQIA+ Ricardo Correia da Silva, com equipe técnica especializada e atuação integrada na rede de proteção.
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