BLOQUEIO / PAUTA
Reajuste dos servidores trava na Câmara após pressão sindical e críticas ao governo Lapena; 'mentiu'
Sessão foi marcada por críticas ao projeto do Executivo, denúncias do sindicato e pressão de servidores; vereadores barraram a votação

A Sessão da Câmara desta terça-feira (19), foi marcada por forte tensão política e embate entre Legislativo, Executivo e servidores públicos municipais. No centro das discussões esteve a negociação da data-base 2026, considerada insuficiente pelo Sindicato dos Servidores Municipais de Araraquara e Região (SISMAR), que elevou o tom das críticas contra a condução do prefeito Lapena (PL).
Com as galerias ocupadas por servidores, a sessão contou com a participação do servidor municipal, José Guilherme Cagnin, Tribuna Popular, representando a categoria e o sindicato. Segundo ele, a proposta apresentada pela Prefeitura não atende às demandas mínimas da categoria e evidencia falta de diálogo institucional. “O Lapena impõe o que ele vai pagar e já manda pra Câmara, desrespeitando a Assembleia dos Servidores”, afirmou.
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Data-base dos servidores vira ponto de ruptura político
A proposta enviada pelo Executivo por meio do PL 198/2026 prevê 4,39% de reajuste salarial, correspondente à reposição inflacionária, manutenção do ticket alimentação em R$ 640 sem aumento e concessão de duas faltas abonadas em caráter experimental.
A proposta foi rejeitada pela categoria, que reivindica mudanças profundas na composição dos benefícios e vencimentos.
Entre os principais pontos defendidos pelo Sismar estão:
- salário base real de R$ 2.300,00;
- ticket alimentação fixo de R$ 1.150,00;
- três faltas abonadas fixas, sem descontos e sem caráter experimental.
Durante a Tribuna Popular, José Guilherme classificou a negociação como “desumana” e criticou duramente o congelamento do vale-alimentação.
“Nosso ticket de alimentação hoje é um dos piores da região… é uma vergonha”, declarou.
O sindicato sustenta que o problema não está apenas nos índices apresentados, mas no modelo utilizado pelo governo para compor os vencimentos dos servidores.
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Salário base e complementações geram novo conflito
Um dos principais pontos da discussão envolve a utilização de complementações salariais para atingir o piso anunciado pela administração municipal. Segundo o sindicato, embora a Prefeitura divulgue um piso em torno de R$ 2.100, parte significativa desse valor seria composta por mecanismos complementares vinculados a critérios como assiduidade, sem integração efetiva ao salário-base.
Na avaliação da entidade, isso produz distorções salariais, fragiliza a carreira do funcionalismo e prejudica especialmente aposentados e servidores afastados. José Guilherme retomou críticas ao acordo firmado anteriormente e afirmou que a categoria ainda enfrenta reflexos do que chamou de “golpe” ocorrido em 2023. De acordo com o dirigente sindical, a composição salarial adotada naquele período resultou em perdas financeiras para trabalhadores municipais.
O assunto gerou reações de vereadores. Guilherme Bianco (PCdoB) afirmou que a Câmara não pode repetir erros anteriores e defendeu que o salário anunciado pela Prefeitura corresponda ao valor efetivamente registrado na base remuneratória.
Faltas abonadas provocam acusação de quebra de acordo
Outro ponto de forte desgaste foi a discussão envolvendo as faltas abonadas. O texto encaminhado pelo Executivo prevê duas faltas em caráter experimental, mas o sindicato afirma que havia um entendimento distinto nas negociações.
Na Tribuna Popular, José Guilherme acusou diretamente o prefeito de descumprir o compromisso assumido durante as reuniões.

“O prefeito mentiu na reunião”, afirmou, ao sustentar que as faltas haviam sido prometidas como permanentes.
A categoria exige não apenas a retirada do caráter experimental, mas também a ampliação para três faltas abonadas fixas. A reivindicação recebeu apoio de parlamentares, inclusive de nomes próximos ao governo.
O vereador Enfermeiro Delmiran (PL) e o líder governista Dr. Lelo (republicanos) demonstraram abertura para discutir a terceira abonada como alternativa para destravar as negociações.
Denúncia de assédio e reação dura dos vereadores
O momento mais delicado da sessão ocorreu quando José Guilherme relatou episódios considerados intimidatórios durante a mesa de negociação. Segundo ele, o prefeito teria exibido imagens editadas de manifestações realizadas por servidores durante uma reunião oficial. Saiba mais, AQUI.

Para o representante sindical, a atitude teve objetivo de constranger a comissão de negociação.
“Foi um sinal de assédio… uma tentativa de nos desestabilizar para nos intimidar”, disse.
O caso motivou, segundo o sindicato, o protocolo de denúncia junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT). A denúncia repercutiu imediatamente no plenário. A vereadora Fabi Virgílio (PT) criticou o comportamento atribuído ao chefe do Executivo. “Ele não pode agir como um menino mimado e fazer um constrangimento público como foi feito”, declarou.
Já o vereador Alcindo Sabino reforçou a gravidade da acusação. “Eu gritei: ‘isso é assédio’. Foi assédio e nós temos esse vídeo”, afirmou.
Câmara trava votação e pressiona por novo texto
Diante do impasse, vereadores da oposição, independentes e até integrantes da base passaram a defender um movimento político para impedir a votação imediata do projeto. O vereador Guilherme Bianco propôs um acordo entre os parlamentares para bloquear a tramitação até que a Prefeitura apresente um texto substitutivo.
“A gente tranca e só vota essa matéria quando resolver”, declarou.
Entre as exigências colocadas pela Câmara estão:
- reposição inflacionária no ticket alimentação;
- inclusão da terceira falta abonada fixa;
- revisão da política de complementação salarial;
- retomada das negociações com validação da assembleia dos servidores.
O presidente da Câmara, Rafael de Angeli (republicanos), negou a votação em regime de urgência, abrindo espaço para continuidade das tratativas. O gesto foi interpretado nos bastidores como uma demonstração de autonomia do Legislativo diante da pressão do Executivo.
Greve surge como desdobramento da crise
O impasse registrado na sessão acabou se refletindo diretamente na mobilização da categoria. Dias após o debate na Câmara, os servidores públicos municipais de Araraquara aprovaram greve por tempo indeterminado, com início previsto para esta sexta-feira (22), segundo anúncio do SISMAR. Veja detalhes, AQUI.
A paralisação foi aprovada em assembleia após sucessivas rodadas de negociação consideradas insuficientes pelos trabalhadores. O sindicato informou que a comunicação formal já foi encaminhada ao Ministério do Trabalho e à população.
Mesmo com a paralisação anunciada, a entidade afirmou que os serviços essenciais terão funcionamento mínimo de 30% do efetivo, conforme determina a legislação. O presidente do sindicato, Gustavo Jacobucci, afirmou que a decisão reflete o esgotamento da categoria diante da condução das negociações.
“A greve foi aprovada porque a categoria entende que as negociações não avançaram de forma suficiente diante das perdas acumuladas pelos servidores”, declarou.
Confira as declarações na sessão de ontem:
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