O mês de julho é marcado pela campanha Julho Amarelo, iniciativa que busca ampliar a conscientização sobre as hepatites virais, doenças que continuam representando um importante desafio para a saúde pública no Brasil e no mundo.
A campanha busca alertar a população sobre a importância da prevenção, da vacinação, da testagem e do tratamento precoce dessas doenças, que muitas vezes evoluem de forma silenciosa e só são descobertas quando já provocaram danos importantes ao fígado.
Segundo o Ministério da Saúde, entre 2000 e 2022 foram registrados mais de 750 mil casos confirmados de hepatites virais no Brasil, sendo as hepatites B e C responsáveis pela maior parte das notificações e pelas formas mais graves da doença. Além disso, entre 2000 e 2021, mais de 85 mil óbitos estiveram relacionados às hepatites virais, principalmente em decorrência de cirrose e câncer de fígado.
As hepatites virais são inflamações do fígado causadas pelos vírus dos tipos A, B, C, D e E. No Brasil, os tipos A, B e C são os mais frequentes. Enquanto a hepatite A costuma estar relacionada ao consumo de água e alimentos contaminados e geralmente apresenta evolução benigna, as hepatites B e C preocupam por sua capacidade de se tornarem crônicas, comprometendo progressivamente o funcionamento do fígado ao longo dos anos.
Como muitas pessoas permanecem assintomáticas por longos períodos, o diagnóstico frequentemente acontece apenas em fases avançadas da doença.
De acordo com a infectologista Ana Rachel Seni Rodrigues, a ausência de sintomas é um dos principais obstáculos para o controle das hepatites virais. "As hepatites B e C são conhecidas como doenças silenciosas porque podem permanecer por muitos anos sem provocar qualquer manifestação clínica”.
“Muitas pessoas convivem com a infecção sem saber e descobrem o problema apenas quando já existe comprometimento importante do fígado. Por isso, a testagem é uma ferramenta essencial para interromper essa evolução."
Quando os sintomas aparecem, eles podem incluir cansaço intenso, mal-estar, febre, náuseas, vômitos, dor abdominal, urina escura, fezes esbranquiçadas e pele e olhos amarelados, quadro conhecido como icterícia. Entretanto, a especialista destaca que a ausência desses sinais não significa que o fígado esteja saudável.
"Não é necessário esperar o aparecimento de sintomas para procurar avaliação médica. Pessoas que já receberam transfusão de sangue antes da ampliação dos testes de segurança, que realizaram tatuagens ou piercings sem condições adequadas de biossegurança, compartilharam objetos perfurocortantes ou tiveram relações sexuais desprotegidas devem conversar com um profissional de saúde sobre a realização dos testes."
A transmissão varia conforme o tipo da hepatite. A hepatite A ocorre principalmente por via fecal-oral, associada à ingestão de água ou alimentos contaminados. Já as hepatites B e C podem ser transmitidas pelo contato com sangue contaminado, pelo compartilhamento de seringas, agulhas, alicates de manicure, lâminas de barbear e outros objetos perfurocortantes, além da transmissão sexual e da mãe para o bebê durante a gestação ou parto, especialmente no caso da hepatite B.
A boa notícia é que existem formas eficazes de prevenção e tratamento. A vacina contra a hepatite B está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) para todas as faixas etárias e também protege contra a hepatite D. Já a hepatite A também pode ser prevenida por vacinação em públicos indicados, além de medidas de higiene e saneamento. Para a hepatite C, embora ainda não exista vacina, o tratamento com antivirais de ação direta apresenta índices de cura superiores a 95% quando realizado adequadamente.
"A medicina avançou muito nos últimos anos. Hoje conseguimos controlar a hepatite B com medicamentos eficazes e, na hepatite C, temos tratamentos capazes de eliminar completamente o vírus na grande maioria dos pacientes. O maior desafio já não é a falta de tratamento, mas identificar quem está infectado antes que ocorram complicações", afirma Dra. Ana Rachel Seni Rodrigues.
A infectologista reforça que a campanha Julho Amarelo representa uma oportunidade para incentivar a população a realizar a testagem, especialmente porque os exames são rápidos, seguros e oferecidos gratuitamente pelo SUS.
"Um simples teste pode fazer toda a diferença. Quanto mais cedo a infecção é identificada, maiores são as chances de evitar cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado. A informação continua sendo uma das principais ferramentas para reduzir o impacto das hepatites virais no Brasil", conclui.
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