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Quarta-feira, 07 de outubro de 2026
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FOGO | COBRANÇA

Após incêndio sob o Pontilhão da Barroso, moradores ainda sofrem: ‘Todo ano é essa calamidade’

Fogo voltou a expor reclamações sobre a área. Rumo promete vistoria e Prefeitura não respondeu

Redação Araraquara Agora|· 9 min de leitura
Após incêndio sob o Pontilhão da Barroso, moradores ainda sofrem: ‘Todo ano é essa calamidade’
Incêndio no Pontilhão da Barroso, em Araraquara, deixou extensa área queimada próxima aos prédios da antiga Cocisa; moradores cobram manutenção da Rumo e providências do poder público Imagens: reprodução.

 

Não foi a primeira vez. E, para os moradores dos “predinhos da antiga Cocisa”, em Araraquara, o temor é justamente que também não tenha sido a última. O incêndio que atingiu a vegetação nas proximidades do Pontilhão da Barroso nesta segunda-feira (24) reacendeu uma cobrança que, segundo famílias da região, se arrasta há anos.

Quem vai assumir a responsabilidade de impedir que o mato alto e seco volte a se transformar em combustível para as chamas?

O fogo chegou a aproximadamente dois metros de altura, conforme imagens e relatos encaminhados ao Araraquara Agora. A fumaça avançou próximo aos apartamentos e a ocorrência se prolongou até a noite. Nesta terça-feira (25), ainda havia pontos queimando na área. O que poderia ser tratado simplesmente como mais um incêndio de vegetação durante a estiagem ganha outra dimensão diante dos relatos de que situações semelhantes se repetem praticamente todos os anos no mesmo trecho.

Há, portanto, uma questão que antecede o combate ao incêndio, que é a prevenção. Moradores reclamam que a vegetação cresce até atingir cerca de dois metros em determinados pontos e dizem conviver com o medo durante a temporada de seca. Desta vez, o problema teve consequências especialmente graves para uma família de uma idosa de 94 anos, acamada e em cuidados paliativos, que passou mal após a fumaça atingir seu apartamento e precisou ser levada para atendimento médico.

 

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Rumo diz que ainda verificará responsabilidade pela área

Procurada pelo Araraquara Agora após as reclamações dos moradores, a Rumo informou que tomou conhecimento do incêndio e que enviará uma equipe técnica para verificar o local.

Em nota oficial, a concessionária afirmou:

 

“A concessionária tomou conhecimento da ocorrência de incêndio nas proximidades da ferrovia, em Araraquara (SP), e enviará uma equipe técnica para vistoriar o local e verificar se integra a faixa de domínio da concessionária.

Caso seja constatada a responsabilidade da empresa, os serviços de roçada serão realizados conforme o cronograma operacional previsto para a região.

A empresa realiza periodicamente serviços de conservação e roçada em sua faixa de domínio, seguindo critérios técnicos e planejamento operacional.

A Rumo também mantém canais permanentes de atendimento à população para o registro de solicitações relacionadas às áreas sob sua gestão, por meio do telefone 0800 701 22 55.”

 

A resposta, entretanto, não esclarece quando a vistoria será realizada, qual foi a última data em que houve roçada naquele ponto nem em quanto tempo uma eventual limpeza será executada, caso seja confirmado que o terreno integra a faixa de domínio da concessionária.

Também chama atenção a informação de que, uma vez constatada a responsabilidade, a roçada seguirá o “cronograma operacional previsto para a região”. Para moradores que acabaram de enfrentar um incêndio e dizem conviver com o problema há anos, a dúvida imediata é se uma área já atingida pelo fogo e localizada ao lado de residências pode aguardar um cronograma ordinário de manutenção.

A própria documentação operacional da Rumo reconhece o risco representado por incêndios nas proximidades da ferrovia. O regulamento operacional disponível pela empresa orienta trabalhadores a informar prontamente incêndios detectados inclusive na vegetação às margens da ferrovia e estabelece procedimentos específicos quando há fogo próximo da via e dentro dos limites da faixa de domínio.

 

Incêndio no Pontilhão da Barroso, infelizmente, não é novidade para moradores

O ponto central da reclamação não está apenas no que ocorreu na segunda-feira, mas na recorrência denunciada pelos moradores. Segundo relatos enviados ao portal, incêndios atingem a vegetação da região desde pelo menos 2010. Se essa recorrência é conhecida pela vizinhança há tantos anos, a cobrança deixa de envolver apenas a resposta emergencial às chamas e passa necessariamente pela prevenção.

 

“Todo ano é essa calamidade e ninguém faz nada”, afirmou uma moradora.

 

Outra reclamação resume o sentimento de quem acompanha o crescimento do mato antes da estiagem: “Todo ano quando chega essa época é um terror.”

Nas redes sociais do Araraquara Agora, o tom foi semelhante. “Faz tempo que o matagal está enorme. Não sei a quem pertence essa área, mas é uma vergonha o mato lá. Estava na cara que iria acontecer um incêndio”, escreveu uma internauta.

 

Outro comentário cobrou diretamente a concessionária: “Isso tem que acabar! Rumo, faça alguma coisa!”

 

Os relatos, evidentemente, não determinam juridicamente quem é o responsável pela área. Essa é justamente a verificação que a Rumo afirma que fará. Mas as imagens mostram um fato que independe dessa definição, pois a vegetação queimou muito próxima de uma área residencial e a fumaça atingiu quem mora ali.

Área ficou marcada pelo fogo após o incêndio registrado na segunda-feira (24)
Área ficou marcada pelo fogo após o incêndio registrado na segunda-feira (24)

 

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Prefeitura de Araraquara opta pelo silêncio

A responsabilidade patrimonial sobre determinado terreno é uma questão. A responsabilidade do poder público municipal diante de um problema recorrente que ameaça moradores é outra.

Por isso, o Araraquara Agora também procurou a Prefeitura de Araraquara para saber quais providências poderiam ser adotadas diante das reclamações, da recorrência dos incêndios e do risco enfrentado pela população. Procurada sobre o grave problema, a Prefeitura optou pelo silêncio. Até a publicação desta reportagem, nenhum posicionamento foi encaminhado ao portal.

O silêncio ganha relevância porque não se trata de um período imprevisível de risco. O Estado de São Paulo possui um Plano de Contingência específico para a estiagem em 2026, e a Região de Araraquara está expressamente incluída no planejamento estadual, por meio da Resolução CMIL nº 021/610/26. Veja detalhe, AQUI.

Além disso, o programa SP Sem Fogo realizou treinamento específico para a região de Araraquara em abril deste ano, destinado justamente a capacitar municípios e órgãos parceiros na prevenção e resposta a incêndios em vegetação e na preparação para emergências características do período de estiagem.

O risco da estiagem é conhecido, a temporada crítica é previsível e existem mecanismos de planejamento preventivo. O que os moradores querem saber é como isso se traduz, concretamente, em fiscalização, cobrança dos responsáveis por terrenos e faixas de domínio, monitoramento de pontos críticos e proteção de residências vulneráveis.

 

Discussão não pode ficar restrita a quem é dono do terreno

Se a vistoria confirmar que o trecho atingido integra a faixa de domínio da Rumo, caberá à concessionária responder pelos deveres de conservação aplicáveis à área sob sua gestão e explicar aos moradores se a manutenção realizada foi suficiente diante das condições encontradas.

Ao município, independentemente de ser ou não proprietário do terreno, cabe explicar quais medidas preventivas, fiscalizatórias e de Defesa Civil estão sendo adotadas diante de um risco que afeta diretamente seus moradores. É exatamente essa explicação que o portal buscou — e não recebeu. O que não parece razoável, diante de um incêndio ao lado de apartamentos, é transformar a discussão em um jogo no qual a população tenha primeiro de descobrir a delimitação administrativa de uma faixa de terra para só depois saber a quem pedir proteção.

A Defesa Civil paulista já alertava desde maio que o período entre junho e outubro de 2026 seria mais crítico para incêndios em vegetação, diante da combinação de temperaturas elevadas, baixa umidade, chuvas irregulares e vegetação ressecada.

Em agosto, o Consórcio Intermunicipal de Soluções Integradas de Serviços Públicos voltou a destacar que a estiagem exige atenção redobrada dos municípios e que os impactos dos incêndios ultrapassam a perda de vegetação, atingindo também a saúde da população, o solo e os serviços públicos. O fogo, portanto, não chegou sem aviso climático.

 

Fumaça agrava drama de idosa de 94 anos

Enquanto se discute de quem é a área, quem deveria roçar e quem deveria fiscalizar, os efeitos concretos recaem sobre quem vive a poucos metros dali. Uma das moradoras mais afetadas tem 94 anos, está acamada, não anda e recebe cuidados paliativos por demência frontotemporal. O apartamento fica no térreo, condição que aumenta a angústia da filha e cuidadora da mãe diante de uma eventual necessidade de retirada rápida. Ela conta que a fumaça tomou o imóvel e que a mãe passou a tossir intensamente. Posteriormente, a idosa apresentou febre e precisou ser levada para uma UPA.

 

“Você ter um idoso e ter que passar por isso todo ano”, lamentou.

 

Segundo a filha, a mãe permaneceu em atendimento até aproximadamente 2h da madrugada desta quarta-feira (26), recebeu antibiótico e seguirá utilizando a medicação em casa. A familiar afirma que, conforme a orientação que recebeu no atendimento, a fumaça teria agravado a tosse da idosa.

 

“Minha mãe está na sala com o nebulizador ligado. Isso é um crime”, desabafou.

 

Trauma de 2024 voltou com as chamas

Para a filha, o incêndio desta semana também trouxe de volta o trauma de uma ocorrência registrada em 2024. Ela conta que, naquela ocasião, as chamas se aproximaram perigosamente dos apartamentos e que respirou grande quantidade de fumaça. Segundo seu relato, posteriormente apresentou pneumonia e derrame pleural e permaneceu internada por dez dias.

 

“Em 2024, o fogo veio para o apartamento. Eu achei que iríamos morrer”, recordou.

 

A moradora afirma que perdeu cerca de 15 quilos durante o período de recuperação, teve queda de cabelo e levou meses para recuperar a mobilidade.

 

“Ontem, quando vi aquilo, eu me desesperei. Fiquei num estado de tanto nervoso que nem dormi”, afirmou.

 

O fogo apaga; o problema permanece

Depois de um incêndio, as chamas diminuem, as equipes deixam o local e o assunto corre o risco de desaparecer junto com a fumaça. É exatamente esse ciclo que os moradores dizem não aceitar mais.

A Rumo afirma que enviará uma equipe para verificar se o terreno está dentro de sua faixa de domínio. A Prefeitura, questionada pelo portal, não apresentou resposta. Enquanto isso, permanecem a vegetação que não foi atingida, a estiagem, o temor de novos incêndios e uma população que cobra prevenção antes da próxima emergência.

A cobrança não significa atribuir à concessionária ou à Prefeitura a autoria do incêndio, cuja origem não foi determinada pelas informações disponíveis. Significa perguntar o que está sendo feito para reduzir um risco conhecido e denunciado repetidamente pelos moradores.

Prevenção não pode começar depois que o fogo já atingiu dois metros de altura. Para a família da idosa de 94 anos, a confiança de que o problema será resolvido está se esgotando.

Depois de décadas no mesmo endereço, a filha afirma que já pensa em abandonar o apartamento da mãe porque não acredita que conseguirá enfrentar outro incêndio com segurança. “Olha, eu acho que vou ter que sair daqui. Alugar uma casa em outro lugar, mesmo o apartamento sendo da minha mãe”.

 

“Imagina o calor, a estiagem, vai ter incêndio todos os dias. Eu não sei o que vou fazer, porque, com a minha mãe, ela não anda, não dá para colocar no carro, eu não tenho como tirá-la rapidamente.

Acho que vamos sair daqui.”

 

A reportagem deixa espaço aberto para a Prefeitura de Araraquara e para a Rumo apresentarem seus posicionamentos e eventuais esclarecimentos sobre o caso. Caso as manifestações sejam encaminhadas ao Araraquara Agora, o conteúdo poderá ser atualizado com as informações das partes envolvidas.

 

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