Família aceita e Santa Casa faz 12ª captação de órgãos no ano em Araraquara

O procedimento ocorreu após a confirmação formal de morte encefálica de um paciente

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
6 Min

Família aceita e Santa Casa faz 12ª captação de órgãos no ano em Araraquara
Equipe da Santa Casa de Araraquara durante procedimento de captação de órgãos. Foto: Divulgação Santa Casa

A Santa Casa de Araraquara realizou na madrugada desta quarta-feira (10) sua 12ª captação de órgãos de 2025, confirmando a instituição como um centro referência no processo de doação e transplante.

A operação, conduzida com rigor técnico e humanização, envolveu a retirada de rins, fígado e córneas, que beneficiarão múltiplos pacientes aguardando na fila de transplantes do estado de São Paulo e região.

O procedimento ocorreu após a confirmação formal de morte encefálica e a autorização familiar, etapas fundamentais que precedem qualquer processo de doação.

A operação exemplifica como cada captação representa um ato de solidariedade capaz de devolver esperança a pessoas cuja vida depende de um transplante.

Para a região de Araraquara e cidades vizinhas, as doações realizadas na Santa Casa representam oportunidades reais de salvação para pacientes em listas de espera.

A CIHDOTT (Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante) conduziu todos os procedimentos conforme normas técnicas, legais e éticas estabelecidas pelo Sistema Nacional de Transplantes.

Esta comissão multidisciplinar é responsável pela identificação de potenciais doadores, diálogo respeitoso e emocional com familiares, e coordenação de todas as etapas operacionais que garantem a segurança e qualidade da captação.

O papel essencial da doação de órgãos 

A importância da doação de órgãos transcende números e estatísticas — trata-se de um gesto profundamente humanitário que ressignifica o luto familiar ao permitir que órgãos e tecidos continuem salvando vidas.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil é o segundo maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com um sistema que já bateu recorde histórico em 2024 com mais de 30 mil procedimentos realizados pelo SUS.

Atualmente, aproximadamente 78 mil pessoas aguardam por uma doação de órgão no Brasil. Entre os órgãos mais demandados estão o rim (42.838 inscrições), a córnea (32.349) e o fígado (2.387).

Cada doador tem o potencial de salvar até 8 vidas diferentes, transformando o luto em esperança e oferecendo segunda chance a pacientes que, de outra forma, não teriam qualquer perspectiva de recuperação.

O transplante é frequentemente a única terapia viável para pessoas com insuficiência renal, hepática ou outras condições irreversíveis. Sem a disponibilidade de órgãos, muitos desses pacientes enfrentam morte ou qualidade de vida severamente comprometida.

O Sistema Nacional de Transplantes (SNT) é o maior programa público do mundo nessa área, com financiamento do SUS de aproximadamente 88% de todos os procedimentos, garantindo acesso gratuito e equitativo a toda população brasileira.

Fluxo de coordenação: da confirmação à entrega dos órgãos

A sequência de eventos que levou à captação desta quarta-feira em Araraquara demonstra a complexidade e coordenação necessárias. Logo após a confirmação médica de morte encefálica e autorização familiar, a CIHDOTT acionou a OPO (Organização de Procura de Órgãos), sediada em Ribeirão Preto, que funciona como central estadual de coordenação.

A OPO, por sua vez, organizou o fluxo logístico de captação, coordenando a chegada de equipes especializadas para cada tipo de órgão e tecido a ser removido. Enquanto isso, a CIHDOTT manteve contato permanente com a família, informando sobre o progresso dos procedimentos e assegurando que fossem tratados com dignidade durante um momento extremamente delicado.

A Santa Casa conta com estrutura permanentemente credenciada para realizar captações de órgãos, mantendo aparato tecnológico, equipes treinadas e protocolos operacionais que permitem responder rapidamente quando casos de morte encefálica são diagnosticados.

Essa preparação institucional é essencial, pois após a morte encefálica ser confirmada, existe janela temporal crítica — geralmente poucas horas — para realizar a captação e preservar a viabilidade dos órgãos.

O desafio da autorização familiar no Brasil

Apesar dos números crescentes de transplantes, o Brasil enfrenta desafio significativo: taxas de recusa familiar chegam a 45% a 50% das famílias consultadas negam autorização para doação. Este percentual é consideravelmente superior aos países de referência internacional, como a Espanha, onde a negativa fica entre 8% e 10%.

O Ministério da Saúde reconhece essa barreira e desenvolveu iniciativas para aumentar a concordância familiar. Uma delas é o Programa Nacional de Qualidade em Doação para Transplantes (ProDOT), que capacita equipes para acolher familiares de forma mais empática e humanizada. Pesquisas demonstram que melhor comunicação, informação clara e apoio emocional aumentam significativamente a disposição de famílias em autorizar doações.

Importante ressaltar que no Brasil, nenhuma doação pode ocorrer sem consentimento familiar explícito, mesmo que a pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doador. Essa decisão final permanece com os familiares, reforçando a importância do diálogo e da compreensão sobre o processo.

 

Como se tornar doador e conversar sobre doação

A primeira e mais importante etapa é conversar em vida com sua família sobre o desejo de ser doador. Não é necessário deixar nada por escrito — a comunicação verbal com familiares próximos é suficiente. Quando chega o momento crítico (morte encefálica no hospital), a família será consultada e sua autorização será aquela que permitirá (ou não) a doação.

Desde 2024, existe a possibilidade de formalizar essa vontade através da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO), ferramenta que permite registro em cartório de forma gratuita e online.

O registro fica disponível para consulta pela família e profissionais de saúde quando necessário, ajudando a confirmar a vontade do falecido.

Para mais informações sobre doação, o Ministério da Saúde disponibiliza portal de esclarecimento, materiais educativos e orientações sobre o processo completo. A campanha "Setembro Verde" é dedicada anualmente à conscientização sobre a importância da doação de órgãos, estimulando a população a refletir sobre este ato de solidariedade.


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