Unesp Araraquara avança em estudo que pode reduzir tempo de tratamento da tuberculose

Estudo do Laboratório de Pesquisas em Tuberculose da FCFAr-Unesp eliminou a infecção pulmonar em camundongos após 30 dias de tratamento com composto à base de ferro encapsulado em nanopartículas lipídicas

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
5 Min

Unesp Araraquara avança em estudo que pode reduzir tempo de tratamento da tuberculose
Estudo foi conduzido por pesquisadores do Laboratório de Pesquisas em Tuberculose da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCFAr-Unesp) / Foto: Francisco Carlos Rocatelli.

 

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Um estudo conduzido no campus da Unesp em Araraquara trouxe um resultado promissor no combate à tuberculose, doença que ainda lidera o ranking de infecções bacterianas mais letais no mundo. Pesquisadores do Laboratório de Pesquisas em Tuberculose da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCFAr-Unesp) conseguiram eliminar totalmente a infecção pulmonar em camundongos após 30 dias de tratamento com um composto à base de ferro encapsulado em nanopartículas lipídicas.

O trabalho, apoiado pela FAPESP e publicado na revista científica ACS Omega, abre caminho para o desenvolvimento de terapias potencialmente mais curtas, menos tóxicas e eficazes contra cepas resistentes, um dos maiores desafios globais no enfrentamento da doença.

Atualmente, o tratamento padrão da tuberculose exige pelo menos seis meses de uso diário de quatro antibióticos. Em casos de resistência, o período pode se estender por até dois anos, com maior risco de abandono, falhas terapêuticas e agravamento do quadro clínico.

 

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Tuberculose ainda preocupa no Brasil

Mesmo sendo uma doença com cura e com tratamento gratuito oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a tuberculose continua sendo um grave problema de saúde pública. Segundo dados recentes do Ministério da Saúde, divulgados em 2025, o Brasil registrou 84.308 novos casos de tuberculose em 2024 e 6.025 mortes em 2023, o maior número em mais de duas décadas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, sem tratamento, a letalidade pode chegar a 50%. Quando o paciente segue corretamente o esquema terapêutico, cerca de 85% evoluem para a cura.

O problema está justamente na adesão. O tratamento prolongado e os efeitos colaterais — que podem afetar fígado e rins — dificultam o cumprimento adequado da terapia, especialmente em populações vulneráveis.

 

O paciente toma vários antibióticos todos os dias e isso pode causar efeitos adversos. Muitos interrompem o uso antes do tempo necessário, favorecendo o surgimento de bactérias resistentes”, explica o professor Fernando Rogério Pavan, coordenador da pesquisa e integrante da Rede-TB.

 

A ideia: reposicionamento de uma substância antiga

O estudo foi desenvolvido no doutorado da pesquisadora Fernanda Manaia Demarqui. A equipe optou por testar a ferroína ([Fe(phen)3]2+], conhecida como FEP) — um composto criado na década de 1950 e tradicionalmente utilizado em sínteses químicas.

A estratégia foi baseada no conceito de reposicionamento de fármacos, que consiste em investigar novas aplicações para substâncias já conhecidas.

 

“Não criamos uma molécula nova. Pegamos um composto antigo, barato, solúvel em água e testamos contra a tuberculose. Quando vimos atividade antimicrobiana, percebemos que havia potencial”, detalha Pavan.

 

Nos testes laboratoriais, a ferroína demonstrou forte ação contra o bacilo da tuberculose, inclusive potencializando o efeito de medicamentos já utilizados, como a rifampicina e a pretomanida.

 

Como o composto age na bactéria

Análises por microscopia e sequenciamento genético revelaram que a substância atua inibindo a síntese da parede celular da bactéria, mecanismo semelhante ao de antibióticos como as penicilinas. Os pesquisadores observaram alterações significativas na morfologia do bacilo, indicando danos estruturais graves que impedem sua sobrevivência.

Para garantir maior estabilidade no organismo, já que a ferroína poderia ser degradada no estômago, o composto foi encapsulado em nanopartículas lipídicas (NLS@FEP). Essa “embalagem” de liberação controlada protege a substância e permite que ela seja liberada gradualmente no organismo. A formulação é composta por colesterol e fosfatidilcolina, materiais de baixo custo e fácil produção.

 

Resultado surpreendente em animais

O teste decisivo foi realizado com grupos de camundongos infectados com Mycobacterium tuberculosis. Metade recebeu tratamento convencional; a outra metade foi tratada com o composto, tanto na forma livre quanto encapsulada.

Após 30 dias, os resultados surpreenderam os pesquisadores: houve eliminação completa da infecção pulmonar nos animais tratados com a ferroína. Nenhum bacilo foi identificado nos pulmões. Já no grupo tratado com isoniazida — um dos antibióticos padrão do SUS — houve redução significativa da carga bacteriana, mas não eliminação total.

 

O resultado foi extremamente positivo. Esperávamos uma redução da carga bacteriana, mas encontramos eliminação completa”, relata Pavan.

 

 

Próximos passos e expectativa

Apesar dos resultados animadores, o composto ainda está longe de ser aplicado em humanos. Serão necessários estudos adicionais de toxicidade, farmacocinética e ensaios clínicos mais robustos, inclusive em modelos de tuberculose resistente e crônica. Um ponto favorável é que a ferroína não possui patente, o que pode facilitar eventual desenvolvimento industrial, especialmente pelo setor público. Caso os estudos futuros confirmem segurança e eficácia em humanos, o novo tratamento poderá representar uma revolução no combate à tuberculose, reduzindo o tempo de terapia, os efeitos colaterais e o risco de resistência bacteriana.

 

“O principal nós já sabemos: funciona. Agora precisamos avançar nas próximas etapas”, conclui o pesquisador.

 

Com informações: Agência FAPESP.

 

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