22/06/2020 às 19h10min - Atualizada em 22/06/2020 às 19h59min

Malcolm X: This is America

Por Guilherme Jorge da Silva

Em 2018 Donald Glover (também conhecido Childish Gambino) lançou um videoclipe que em menos de 24 horas se tornou notório: This is america. Cheio de recursos cênicos e letra inteligente, denunciava de forma elegante a violência norte americana com os negros.

A mensagem nunca é datada. Desde muito antes do ato de emancipação de Abraham Lincoln em 1 de Janeiro de 1863, os afro-americanos busca o seu lugar ao sol. Bem verdade, não apenas nos Estados Unidos da América mas no mundo todo, com sua etnia sendo explorada e marginalizada muito antes do imperialismo europeu que retirou enormes riquezas do continente Africano. O Brasil tem sua marca infeliz na história negra por ser o último país a abolir a escravidão e o que teve o maior fluxo de escravos. 

A história oferece um entendimento completo sobre as ações antifascistas e, sobretudo, antirracistas, que foram desencadeadas pela covarde morte de George Floyd em Minneapolis e que superou as fronteiras americanas e chegou em terras europeias como Londres, Berlim e Paris. No presente momento que eu escrevo esse texto, ultrapassa-se o décimo dia de protesto nos EUA.

As manifestações desacortinam um cansaço coletivo mediante a desumanidade e covardia. Mas boa parte daqueles que vão para as ruas – sobretudo os brancos – desconhecem os séculos de luta que o povo negro trava para ser tratado como um ser humano. Na verdade, eles lutam por mais de 400 anos para fazer valer seu direito como indivíduo, sendo a bandeira antifascista apenas a inimiga da semana.

Não podemos falar sobre a conquista dos direitos civis sem citar dois nomes: Martin Luther King Jr e Al Hajj Malik Al-Shabazz, esse último mais conhecido como Malcolm x. De origem pobre marcada pela violência da Ku Klux Klan, Al Hajj teve uma juventude de malandro até encontrar o islão na prisão. Sua visão de vida e de mundo modifica-se significativamente ao ouvir a palavra de Elijah Muhammad, líder da nação islã norte americana entre 1934 e 1975. Tendo feito a chamada “faculdade das ruas” em meio a jogatina e violência, Al Hajj não teve a mesma trajetória de Martin Luther King ao encontrar a religião, uma vez que o último nasceu em berço protestante. Infelizmente o final de ambos seria semelhante, e o legado ultrapassaria as fronteiras negras e nacionais.

Ao conhecer a nação islã, Al Hajj adota o pseudônimo Malcolm X e inicia a sua trajetória que o marcaria na história da humanidade para sempre. Cabe ao Spike Lee, polêmico porém talentoso diretor, levar a sua história para as telonas em 1992 com a atuação de ninguém menos que o duas vezes ganhador do óscar Denzel Washington (muito provavelmente teria mais uma estatueta, não fosse um Al Pacino e um Perfume de mulher no caminho).

A primeira metade do filme é marcada por cores fortes no figurino histórico – com indicação ao óscar da talentosa figurinista Ruth E. Carter – e decai para tons mais sóbrios enquanto a personagem principal vai amadurecendo e tomando consciência da sua importância e do seu papel no mundo. Os flashbacks de momentos importantes na vida de Malcolm ajudam a justificar as suas ações – desde um professor que o desmotiva em ser advogado e sugestiona a carpintaria como profissão; o incêndio na sua casa perpetrado pela  KKK e a violenta morte de seu pai.

Os takes são usados dinamicamente sem prejuízo da narrativa de mais de três horas, valorizando um virtuosismo do diretor e fazendo com que o filme  não se torne cansativo nem pedante. A construção do roteiro valoriza a fluidez em contraposição ao didatismo e historicismo, tudo isso permeado por uma atuação irrepreensível de Denzel.

Compreendemos a evolução do homem defensor do nacionalismo negro para, no fim da vida retirada de forma covarde e violenta, se tornar um orador com tendência mais conciliatória – em grande medida, devido sua viagem para Meca e pelo conhecimento do verdadeiro Islã, sem a deturpação maniqueísta de Elijah Muhammad.

O único porém desse grande trabalho é o tom documental adotado no seu desfecho, com  direito para uma luxuosa declaração de Nelson Mandela sobre a importância de Malcolm X para a negritude mundial. Algo totalmente desculpável, ainda mais se tratando de Nelson Mandela.

Malcolm X está disponível na Amazon Prime.


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