07/05/2020 às 11h48min - Atualizada em 07/05/2020 às 10h35min

“Hollywood”: o sonho que jamais aconteceu

Por Guilherme Jorge da Silva

Ryan Murphy é um dos maiores e mais importantes nomes da televisão mundial dos últimos tempos. Virtuoso, consegue transitar entre o erudito e o popular sem cair em armadilhas narrativas. Esteticamente, tem uma assinatura forte realçada pelo uso das cores e pela iluminação. Criador de sucessos como Glee, American Crime Story e American Horror Story, o roteirista, produtor e diretor muitas vezes trabalha em projetos paralelos e com intervalos consideráveis de uma temporada para outra.

Na minissérie feita sob medida para Netflix, Ryan derrapa em pontos do roteiro e na condução de determinadas personagens. Apesar disso, é um grande divertimento e um belo trabalho para televisão em tempos de quarentena, uma vez que não se limita ao cercado do real e do biográfico. Com um elenco de primeira, incluindo Holland Taylor (Two and a Half Men), Joe Mantello (Cookie) e Darren Criss (ganhador do Golden Globe de melhor ator em minissérie ou telefilme em O Assasinato de Giani Versace, em 2018) ,a personagem principal é a imensa máquina de sonhos norte-americana (e mundial): HOLLYWOOD.

Se o objetivo é metalinguagem, o sucesso é alcançado com louvor: crítica voraz de uma cidade hipócrita e preconceituosa, o cinema fala com o cinema via streaming. Pode parecer esquizofrênico, mas as distorções - até mesmo com figuras históricas como Henry Wilson (Jim Parsons), Rock Hudson (Jake Picking) e Hattie McDaniel (Queen Latifah) – são importantes. Aliás, esqueçam o que é real ou não, a grande sacada é embarcar na narrativa. Caso tenham o desejo de uma pesquisa histórica, deixe para um momento posterior. E nessa pesquisa ficara bem evidente o carinho e a firmeza que Ryan conduz sua obra.

Em muitos momentos agridoce, temos uma dinâmica de mãe: ora arremessa o chinelo  – expondo uma cidade que nunca aconteceu, com uma história que nunca aconteceu e que, paradoxalmente, continua a mesma em termos de conduta ética e moral: um esgoto criador de sonhos; ora afaga o filho, com o poder cinematográfico de mudar o mundo e pessoas.

Por ser uma fábrica, por ser uma cidade brutal e nojenta, a história que narra a tentativa de artistas novatos tentando achar “um lugar ao sol” é moderna e eficiente, mesmo se passando nos anos pós Segunda-Guerra. É a Hollywood que nunca aconteceu, mas que gostaríamos que acontecesse. É a homenagem e reverência merecida para nomes que sofreram e se deixaram afogar pelo sistema – como o abraço histórico e necessário em Hattie McDaniel (primeira negra a ganhar um Óscar, o de melhor atriz coadjuvante por “...E o vento levou”, em 1940 , e tratada até o fim da vida como uma pária da categoria) e a vida que poderia ter sido e que não foi de Rock Hudson.

Empática até o último fio de cabelo, com desfechos amenizados, a série corresponde ao momento que vivemos: critica, dura e mornamente ensolarada, como um final de tarde entre palmeiras da Sunset Boulevard.

 

Hollywood está disponível na Netflix.


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