A crise política envolvendo o vereador Emanoel Sponton (PP), acusado de comandar um esquema de rachadinha na Câmara de Araraquara, ganhou novos desdobramentos após a divulgação de prints de conversas por WhatsApp.
As mensagens expõem uma tentativa de articulação entre o secretário de Governo, Leandro Guidolin e o presidente da Câmara, Rafael de Angeli (Republicanos), para tentar evitar a abertura de uma Comissão Processante contra o parlamentar.
As mensagens foram trocadas no grupo "Sessão de Hoje" e vieram à tona após a divulgação feita inicialmente pela vereadora Filipa Brunelli (PT). No conteúdo, Guidolin orienta os parlamentares da base aliada a se absterem da votação até que o vereador Michel Kary (PL) declarasse seu voto.
A ideia seria segurar o placar e, caso Michel votasse contra a denúncia, abrir espaço para mudanças de voto e barrar a investigação.
Um dos trechos da conversa mostra Guidolin afirmando:
“Assim que o Michel votar sim, todos sabem como agir.”
Rafael de Angeli responde:
“Ok. Quem sabe ele muda.”
Em outra parte, Guidolin pede diretamente:
“@Rafael de Angeli você controla o tempo. Se o Michel votar sim, você permita que todos alterem seus votos.”
Na noite de quarta-feira (14), após quase um dia inteiro de silêncio sobre o caso, Rafael de Angeli publicou um vídeo nas redes sociais explicando que o conteúdo das mensagens foi apenas uma orientação para manter serenidade durante a sessão.
“Prometi ao secretário que haveria equilíbrio, assim como fiz esse compromisso na reunião com os vereadores. Reiterei isso ao vivo no plenário”, afirmou.
Mesmo com a articulação nos bastidores, a Comissão Processante foi instaurada por unanimidade. O sorteio definiu os seguintes membros:
A comissão já iniciou os trabalhos e terá cinco dias para notificar Sponton, que poderá apresentar defesa escrita em até dez dias. Ele poderá indicar provas e arrolar até dez testemunhas.
Após a defesa, a comissão terá mais cinco dias para emitir parecer sobre o prosseguimento ou arquivamento da denúncia.
Em nota à imprensa, a Comissão Processante declarou que conduzirá os trabalhos com “transparência, responsabilidade e respeito ao devido processo legal.”
O caso teve origem em março, com o vazamento de áudios que apontam que Sponton exigia parte do salário de ex-assessores como condição para mantê-los empregados, repassando os valores à própria mãe, prática conhecida como rachadinha.
O Ministério Público acompanha o caso e já enviou ao Conselho de Ética extratos bancários de três ex-assessores comprovando os repasses.
Há ainda suspeitas de tentativa de silenciar uma servidora, o que pode configurar obstrução de investigação e violação do decoro parlamentar. Um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) foi instaurado para apurar possíveis crimes como concussão, improbidade administrativa e uso indevido da estrutura pública.
O PT de Araraquara emitiu nota de repúdio, denunciando a interferência do Executivo no Legislativo como “ataque à democracia” e cobrando responsabilização dos envolvidos.
“É fundamental que a autonomia da Câmara seja preservada, com transparência e independência”, afirma o comunicado.
A vereadora Filipa Brunelli, primeira a publicar os prints, declarou em tom contundente:
“VERGONHA! O governo Edinho Silva e sua base tentam blindar um vereador acusado de corrupção.”
Ela ainda disse que o uso da máquina pública para proteger Sponton é
“um atentado contra a ética e a transparência.”
E concluiu:
“Isso não é só imoral. Isso pode ser criminoso.”
Moradores de Araraquara também manifestaram indignação sobre a troca de mensagens nas redes sociais: “Os mesmos que exigiram tanto a chamada ‘mudança’, agora têm que ir lá fazer sua parte defronte à Câmara Municipal. Organizem passeatas, cartazes, camisetas exigindo uma resposta”.
“Gravíssimo! Grupo de whatsapp onde secretário de governo municipal dita ordens ao presidente de Câmara e ainda participando também o próprio vereador que será investigado? Como pode isso?”
Outra mensagem diz: “Qual o medo dessa investigação descobrir a verdade?”. Há ainda mensagens de decepção: “Esses que representam o povo cada dia mais a política, tá ficando feio”. “Nossa, blindar vereador rachadinha?”
“Nesse meio tem gente que eu admirava muito. Decepcionada”.
Outras mensagens ainda alfinetam os parlamentares envolvidos: “Deus pátria e rachadinha”. “Qual sabor de pizza vocês querem?”