08/05/2020 às 19h52min - Atualizada em 08/05/2020 às 19h52min

Instinto materno: dores e psicopatia em thriller francês

Por Guilherme Jorge da Silva

Duas crianças, Théo e Maxime, são amigos muito próximos; suas respectivas famílias e principalmente suas mães, também. Maxime adoece e não pode ir para a escola com Théo. Maxime tem uma queda da janela do quarto e falece. 

Temos a história necessária, ambientada na década de 1960, para se construir um suspense psicológico. Com figurino e fotografia impecáveis, o filme de Olivier Masset-Depasse resolve o primeiro ato da perda do filho de forma rápida e eficiente. A atenção, nos próximos 100 minutos, é no desenrolar da amizade entre as duas mães e o impacto psicológico com a perda. Desnecessariamente melodramático, o filme encontra sua força na onda de acontecimentos e nos pontos de vista: a mãe que perdeu o filho e a amiga, testemunha da queda do menino.

Alfred Hitchcock (1989-1980) foi apenas levado a sério no mundo da crítica cinematográfica quando um grupo de cineastas novatos, editores e colunistas da revista Cahiers do Cinéma, destacaram seu cinema autoral. Dentre esses novatos, temos Jean Luc-Godard e François Truffaut. O reconhecimento do velho rotundo tremeria as bases da crítica tacanha, míope e preconceituosa.

Mais de cinquenta anos depois, o berço da Nouvelle Vague nos oferece um suspense hitchcockiano de qualidade. O espectador é voyeur e testemunha dos acontecimentos, participante ativo de uma narrativa que se mostra cada vez mais monstruosa, obscura e de difícil aceitação.

A dor da perda de uma mãe poderia ser explorada com maior profundidade, mas o objetivo é criar clímax e quebrá-los. Essa é a principal qualidade e defeito do filme: ao criar picos de suspense, ao mesmo tempo que embarcamos na história, em determinado momento ficamos refém única e exclusivamente de reviravoltas de roteiro.

Em contrapartida, segue a escola francesa de cinema: sóbrio, realista e tecnicamente bem feito. Não há exageros nem extrapolações, e os contrapontos climáticos são justificáveis. Mas, ao abusar da suspensão de expectativas, perde-se um time que poderia engrandecer ainda mais a obra. 

Talvez seja sádico indicar um filme desses tão próximo do dia das mães. Mas, em minha defesa, inevitavelmente, não poderia perder a chance do humor negro. Ademais, tenho certeza que o mestre do suspense, como em um dos prólogos da série dos anos 1950 Hitchock presents, afirmaria cinicamente: não se preocupe, é apenas mais um filme de suspense.

Instinto materno encontra-se no catálogo da Amazon Prime.


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