09/07/2020 às 18h48min - Atualizada em 09/07/2020 às 19h13min

A desigualdade social escancarada em meio à pandemia

Foto/Divulgação: Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Rian Fernandes

Araraquara enfrenta a pandemia com um dos melhores índices de letalidade do Brasil, que pode ser reflexo da estrutura da saúde e da organização social da cidade. Isso porque o município possui um IDH considerado um dos mais altos do país e apesar de haver grande diferença entre as camadas mais pobres e mais ricas, a desigualdade não é tão latente como em muitas comunidades Brasil afora. 

“Estamos livres, sozinhos e abandonados!”. Este é um sentimento de Luan Melo, morador de uma comunidade no Estado do Rio de Janeiro, sobre a delicada realidade vivida em meio à pandemia do coronavírus. Mesmo sendo uma doença que chegou no Brasil vinda da Europa, ou seja, por pessoas com condições financeiras até mesmo para realizar viagens, áreas periféricas tendem a sofrer e sentir mais os impactos negativos, evidenciando a desigualdade social existente no território nacional, que anos atrás era considerado o “país do futuro”.


Rotina na periferia e uma visão social da desigualdade em meio à pandemia

De acordo com Luan, que mora na comunidade há 18 anos, a rotina tem sido do “século XIX”, já que além da falta de fiscalização sanitária e de um atendimento médico adequado, nem a comunicação sobre a situação dos casos chegam até a periferia. “Nem notificação a gente tem tido. A gente não tem sido notificado. Ah, fulano de tal morreu, primo de fulano de tal morreu, meu amigo do colégio que estudou comigo está com suspeita. (...) A gente está sabendo de forma bem empírica e nada formal”, contou. 

Como estudante de ciências biológicas da UERJ, Luan Melo arriscou opinar sobre o que aconteceria se houvesse um surto da doença dentro da comunidade, que possui apenas um posto de saúde e uma UPA, que, inclusive, não atende casos graves. “Poderiam ocorrer mortes, como eu acho que já tem acontecido. Tem boatos. Mas ainda bem que não aconteceu nada próximo a mim. As perspectivas não seriam boas não”, disse. Porém, mesmo com o risco, segundo ele o isolamento social não tem sido respeitado na comunidade. 

Murilo Petito Cavalcante, mestrando e graduado em Ciências Sociais pela Unesp de Araraquara, destacou que o déficit urbano é uma contradição escancarada nas principais cidades do país, visto que nunca houve um projeto para urbanizar áreas de risco, como morros e favelas. “O modo como os mais pobres encontram-se amontoados nas periferias das cidades, sem condições sanitárias dignas, é profundamente temerário num momento como o nosso”.

Para o também professor de filosofia, em meio a Covid-19, ficou claro que o Estado não possui mecanismos sólidos para proteger a população, pois o principal problema que persiste é a desigualdade. “Numa projeção mais otimista, o que se espera é que seja uma tendência crescente a de que os Estados Nacionais fortaleçam os mecanismos de assistência social. Essa necessidade ficou ainda mais nítida a partir da pandemia”, salientou. 

A contraditória e infeliz desigualdade na educação agravada pela pandemia

O meio que deveria diminuir a desigualdade social por meio dos estudos, para que no futuro, os estudantes tenham boas oportunidades, também sofre com a diferença. Antes da pandemia a diferença nos estudos entre o ensino público e privado, o último para alunos com maior condição financeira, já existia, no entanto, em meio ao coronavírus o contraste ganhou força. 

“Sem acesso à internet, computadores ou celulares, muitos alunos da rede pública simplesmente abandonaram o ano letivo. Tenho casos de alunos da zona rural que têm acompanhado os pais no trabalho por não terem com quem ficar em casa durante o horário em que normalmente estariam na escola”, contou Amanda Leite, professora formada em licenciatura e bacharelado em História pela Unesp, sobre apenas um dos exemplos de desigualdade no ensino.

“Um número cada vez maior de pessoas que, sem ter acesso a uma capacitação profissional, tendem a se tornar mão de obra barata no mercado de trabalho ou acabam por se incorporar aos milhares de desempregados que o país já contabiliza. Números que só aumentam, ao passo que a crise econômica na qual estamos inseridos se agrava como consequência da pandemia”, explicou a professora sobre as consequências da desigualdade no ensino para o país. 

Ainda segundo Amanda, a atual situação em meio a pandemia é um apenas reflexo de uma “educação cada vez mais sucateada”, que é ignorada, mesmo sendo o único meio que seria capaz de transpor abismos sociais que o país enfrenta. 

A desigualdade nos serviços de saúde e o enfrentamento em Araraquara

Assim como na educação, obviamente, por envolver uma doença, a saúde também é um assunto em meia a uma pandemia. No entanto, infelizmente, a qualidade no setor também é desigual em comparação com cada região. "Em relação ao acesso aos serviços de saúde, há uma desigualdade em nosso país, principalmente quando a saúde pública não está bem estruturada, consequência de não haver investimentos adequados ao longo dos anos, que na situação da pandemia, ficaram mais evidentes, como falta de leitos de UTI por exemplo, além da falta de capacitação dos profissionais da saúde", ressaltou a infectologista formada pela Unesp, Ana Rachel de Seni Rodrigues. 

Para ela, a população das regiões periféricas com menor poder aquisitivo, como a de Luan, mencionada no início da matéria, possui maior vulnerabilidade, já que estão com um pior nível nutricional, tem dificuldade no controle e prevenção das doenças e ainda conta com um acesso aos serviços de saúde "bem prejudicado". "Além disso, muitas vezes moram em grande número de pessoas em pequenos espaços e é a população que sai para trabalhar, já que muitos fazem atividades essenciais. Com tudo isso, principalmente o difícil acesso à uma atenção à saúde de boa qualidade, favorece a uma evolução pior, a um retardo no diagnóstico e facilita a disseminação da doença pelas condições de moradia", acrescentou. 

Enquanto Luan vive em uma comunidade periférica, em que é difícil obter informações oficiais até mesmo sobre os casos em meio à pandemia, Araraquara, cidade com IDH alto, um dos melhores do país, possui "um maior acesso aos serviços de saúde onde é possível controle e prevenção de doenças e a população tem uma qualidade de vida melhor, podendo refletir em menores taxas de letalidade em doenças cardiovasculares e infecciosas", esclareceu Ana.

Como consequência, Araraquara se sobressai no enfrentamento ao coronavírus com uma baixa letalidade que "pode ser consequência da organização dos serviços de saúde que priorizou a testagem em larga escala, monitoramento por meio de telefone dos casos positivos, internação de pacientes com fatores de risco e vulnerabilidade social", como explicou a infectologista. Com isso, fica evidente a existência de uma desigualdade na saúde entre as regiões, comparando por exemplo, com a comunidade periférica em que vive Luan Melo. 

 


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